GUSTAVO MAZZOLA

Viola, minha viola

Gustavo Mazzola
26/06/2013 às 05:01.
Atualizado em 25/04/2022 às 11:50

Inezita Barroso, já beirando os 90, tranquila numa poltrona de espaldar largo, sorri para a plateia enquanto segue no ar pela Cultura o seu “Viola, minha viola”. Em casa, vou curtindo com gosto o programa, as conversas com os violeiros, suas modas sempre de um lirismo simples, tão próprio da música sertaneja. Casais, junto ao palco, não se contêm: dançam, batem palmas, acenam para os artistas, participam como podem. Vendo-a na televisão no domingo, véspera de São João, ela me parecia a mesma dos anos 50, o jeitão brejeiro, aquele brilho nos olhos, tudo igual como era quando dona absoluta do seu horário no Canal 7, a antiga TV Record de São Paulo, e cantava "Marvada Pinga", "Piracicaba", "Lampião de Gás". Hoje, de vez em quando, brinda-nos no vídeo com um desses clássicos — ainda suas marcas registradas —, muito esperados nas festas juninas do Interior.

É isso. As músicas sertanejas genuínas vão buscar lembranças bem fundas: os fins de tarde na fazenda, por exemplo, quando meu tio, em frente à sua casinha de tijolos a vista, empunhava solene a viola caipira e a tocava para nós a sua volta: — Tio Manoel, canta "Luar do Sertão".

E ele cantava, fazendo-nos arrepiar de emoção. Tinha, também, as modas dele mesmo, que só mostrava quando tinha um parceiro, “a dupla formada”. Não conhecia música, mal sabia escrever o nome e tudo era mesmo o que vinha do coração. Tio Manoel, ah! Tio Manoel, a sensação nas festas de São João, de São Pedro e de Santo Antônio, com a caieira queimando no curral, a bandeira do santo no mastro e o baile na tulha varando a madrugada. Era esperado pela gente da redondeza, requisitado pelas mocinhas casadoiras... e também pelas não casadoiras.

Mais alguns anos, e eu continuava me envolvendo com as modas de viola: tornava-me apresentador de um programa só com elas na rádio da cidade, o popularíssimo “Carnê Social”. Sabia todas de cor, de tanto ouvi-las lá de dentro do estúdio, esperando a luzinha vermelha acender, que indicava “microfone aberto” para as dedicatórias de praxe.

— Acabamos de ouvir “O menino da porteira”, que Eduardo da Farmácia Globo ofereceu para Rosa Maria da Fazenda Estrela, com provas de muito amor — era o romantismo na sua forma mais pura, que se expressava naquelas mensagens repetidas iguaizinhas todos os dias.

Aos domingos, depois da missa na igreja matriz, ajudava Nhô Muza a fazer, no auditório da Rádio, o programa sertanejo mais ouvido na região, “Racho Alegre”: lia os textos de publicidade, chamava o apresentador, servia até de “escada” para suas piadas — meio pesadas. E o auditório ria às gargalhadas. O pessoal em casa, acredito, ria também, porque Nhô Muza era um artista mesmo.

Nunca havia visto um violeiro famoso de perto: eram somente aquelas duplas que chegavam metidas em suas roupas domingueiras, botinas de fivelas de prata, lenço vermelho no pescoço, todos alegres, cheios de si, aplaudidos freneticamente. Minto. Uma vez, esteve lá Tinoco, da dupla, já conhecida nacionalmente, Tonico e Tinoco, que vinha de uma apresentação na Pratânia

— a Prata, como chamávamos —, e resolvera dar uma canja ao Nhô Muza no Rancho Alegre. Tinoco levou a plateia ao delírio com suas modas e sua viola (naquele dia estava sem o companheiro Tonico), cantou tudo o que pediram, conversou com seus fãs. Depois foi até ao barzinho da esquina tomar “umas” com os diretores da Rádio. Não perdi a oportunidade, puxei prosa com o violeiro de ar tão amigo, pedi autógrafo, disse-lhe que gostava da musica caipira, a autêntica, de raiz.

Não muito tempo atrás, fiquei impressionado com uma dupla de violeiros que se apresentou em evento marcante da Academia Campinense de Letras, em Campinas, num esforço de criação e ousadia de um amigo, o acadêmico e também incentivador das músicas sertanejas, Luiz Carlos Borges. Aquela plateia seleta de intelectuais, acostumada a audições de apaixonados momentos literários, via-se, de repente, envolvida com o som da viola, o canto caipira dos violeiros, que embevecia a todos, levando-os às lágrimas.

Quando a dupla começou a entoar as modas clássicas, parecia para mim que tinha, de novo e bem de perto, meu tio Manoel com sua viola e cantoria, as duplas que Nhô Musa trazia para o microfone da Rádio, o Tinoco contando para nós suas histórias no barzinho.

Inezita chegava de vestido rodado, cabeleira negra e bem penteada, sorridente para as câmeras da televisão preto e branco, cantando numa festa junina daquele tempo. Que saudade!

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