
IG- Gustavo Mazzola (CEDOC)
Acabara de chegar uma informação “quente”: Alain Delon, o célebre ator francês, iria passar por Viracopos naquele começo de noite, numa escala técnica de seu voo para a Argentina. Apreensão no quinto andar do jornal, ainda na Rua Conceição. Era preciso dar um jeito de chegar até ele, entrevistá-lo. Mas quem faria o serviço? Na sua língua? Eis que Maurício de Moraes deixa sua mesa, resoluto, e diz alto e bom som: — Eu faço isso! Maurício foi ao aeroporto, apresentou-se como jornalista de Campinas e conversou com Delon... no mais fluente francês: logo o ator ria às gargalhadas e, na despedida, estendeu-lhe as mãos, beijou-lhe a face. No dia seguinte, a entrevista foi o ponto alto da edição. Qual o porquê desta história? Bem, a ideia aqui é a gente contar pequenas passagens — umas engraçadas, outras emocionantes, outras ainda simplesmente curiosas —, quando astros do cinema, da televisão, do rádio, vivem o seu dia a dia pessoal, longe dos estúdios, dos palcos e dos bastidores. Já aconteceu, por uma coincidência do destino, de você estar ao lado de uma celebridade dessas, durante um voo internacional, num restaurante, num evento no Morumbi, sabe lá e, de repente, presenciar uma cena qualquer com ele, incomum? É sempre uma bela experiência. Ainda me lembro de uma noite, nos tempos de Faculdade, em que, como jornalistas, eu e Sérgio Bilota fomos convidados para uma festa na República Paiquerê, na Nova Campinas, de estudantes de Medicina. Era a comemoração pelo sucesso da apresentação da peça musical “Este mundo é meu”, com a figura idolatrada, na época, de Sérgio Ricardo, compositor e cantor famoso da trilha sonora do filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Toquinho, ainda desconhecido do grande público, fazia par com Sérgio no show, realizado naquela noite no pequeno teatro da Secretaria de Educação, onde hoje se instala a Câmara Municipal de Campinas. Pois, lá pelas três ou quatro da madrugada, todos já meio “embalados”, ele pega um violão e começa a executar “Estudo em Mi Maior — Tristesse”, de Chopin. A música maravilhosa envolveu o ambiente de uma forma surpreendente, emocionando aquela íntima plateia. A gente via meninas com lágrimas nos olhos, imagem que ficou na memória por todos esses anos. Uma outra vez estávamos com a família numa casa de shows aqui por perto, onde se apresentava Sílvio Caldas. Então, alguém lhe perguntou como ele conseguia manter tanta vitalidade aos 80 anos. Respondeu Sílvio, chocando sua plateia conservadora, que seu médico havia lhe aconselhado a não beber, não fumar, não exagerar nas noites de boemia...— Pois é, meu amigo — disse o caboclinho querido — faço tudo ao contrário: eu bebo, fumo, fico acordado até altas horas da madrugada, tenho sempre muitas mulheres ao meu redor — estupor geral. E Valter Foster, o galã das chanchadas da Atlântida, das radionovelas, da televisão. Um dia, em visita a uma indústria local, percorreu soberano as alas fabris sob gritinhos de fanzocas mais entusiasmadas. Quando parecia que a visita estava no fim, uma funcionária lá do fundo do pavilhão saiu em disparada, agarrou-o num forte abraço, beijou-o na boca, e ainda teve tempo de colocar um botão de rosa na sua lapela. Palmas de todos os lados! Uma caravana de artistas do cinema nacional estava programada para uma apresentação na rádio de Avaré: no grupo, a grande estrela do momento, Eliana Macedo; seu marido, o radialista Renato Murce; o galã das chanchadas Cyl Farney e o humorista Grande Otelo. Mas, já passava da hora de começar o evento e os artistas não chegavam. O que teria acontecido? A bordo de uma velha Rural Willys (as viagens dos artistas eram mesmo pelas estradas), tinham se perdido pelas ruas daquela pequena cidade paulista, na época, de pouco mais de dez mil habitantes. Depois de um recital de música popular brasileira num grande clube social, Vinícius de Moraes ainda queria continuar sua performance em Campinas. Mas o clube já estava fechando suas portas naquela noite. Pois não é que o poetinha e alguns estudantes da Católica sentaram na beira da calçada em frente ao salão social e, regados a um bom uísque, cantaram juntos e declamaram poesias até alta madrugada? Não sei como terminou aquela noitada boêmia, mas jamais me esqueci da imagem do famoso poeta e diplomata ali naquela rua do centro da cidade, entre os estudantes, descontraído, brincalhão, contando histórias: ninguém mais estranhava o seu jeitão tão peculiar, tão dele. Era Vinícius.