TERRA DO FOGO

Ushuaia, no extremo Sul da Argentina é para quem quer se aventurar no frio

Ser chamada de o fim do mundo pode, a princípio, soar um tanto estranho, mas a cidade argentina é assim conhecida por ser a mais austral do planeta

Thaís Nucci
13/04/2013 às 16:14.
Atualizado em 25/04/2022 às 20:34
Pinguins da Isla Martillo podem ser observados durante o Verão (Divulgação)

Pinguins da Isla Martillo podem ser observados durante o Verão (Divulgação)

Ser chamada de “o fim do mundo” pode, a princípio, soar um tanto estranho, mas a cidade argentina de Ushuaia é assim conhecida por ser a mais austral do mundo. Em linhas gerais, isso significa que ela é a última cidade povoada do hemisfério Sul antes da Antártica. Exótico? Bastante, mas nada comparado à beleza natural de tirar o fôlego, que resulta, sem sombra de dúvida, em inúmeras e lindas fotografias. Com cerca de 60 mil habitantes, a capital da Província da Terra do Fogo — que fica a pouco mais de 3 mil quilômetros ao Sul de Buenos Aires — impressiona pela paisagem exuberante, composta por montanhas, lagos, mar, árvores caídas e levemente acinzentadas e, principalmente, pelos picos nevados.

Não custa dizer: Ushuaia é excelente para quem gosta de frio, neve, de esquiar e de natureza. Vamos aos fatos: se o seu negócio é calor e praia, fuja de lá. Apesar da temperatura raramente cair abaixo de zero (a média no Inverno é de 1°C, especialmente em julho e agosto), a sensação térmica chega a -17°C, principalmente por conta dos ventos que ultrapassam os 80km/h. No Verão, as temperaturas sobem (a média é de 10°C) e é até possível curtir um solzinho, mas com um bom casaco, é claro. O bacana durante o Verão é a longa duração dos dias, que amanhecem por volta das 4h30 e anoitecem somente lá pelas 22h. Já nos meses de frio, o céu fica claro poucas horas durante o dia.

De modo geral, é possível descrever Ushuaia como uma cidade de Interior. Não há muitos arranha-céus, tem um ar pacato, ruas e trânsito tranquilos, a não ser pela principal via do Centro, a Avenida San Martin. Ali é possível fazer compras, ir a bons bares, pubs e restaurantes, achar lojinhas que vendem souvenirs e caixas eletrônicos para saques. A maior parte das lojas do município se encontra ao longo dos 16 quarteirões desta avenida. Elas reúnem produtos de todos os tipos, inclusive artigos e roupas de Inverno de grifes internacionais. O melhor de tudo é que as lojas pertencem a uma zona franca, ou seja, muitos produtos estão livres de impostos. Ainda dentro da cidade, perto do porto, está um dos grandes pontos turísticos: o presídio municipal, ao lado do antigo farol e onde hoje funciona o atual Museu Marítimo. O prédio foi construído pelos próprios prisioneiros, ainda no século 19, e a história mais contada pelos guias locais é que os piores bandidos da Argentina eram enviados para lá. O presídio parou de funcionar na década de 1940 e hoje permance aberto ao público. A visita custa cerca de 90 pesos.

Beleza, luxo e aventura abaixo de zero

Portuária, Ushuaia também é ponto de partida para uma das mais exóticas (e caras) viagens para quem curte muito frio: as expedições até a Antártida. De fato, a cidade recebe inúmeros cruzeiros, inclusive de turistas que visitam as geleiras de outras partes da Patagônia Argentina.

Um dos passeios imperdíveis para quem visita Ushuaia é a navegação pelo lindíssimo Canal de Beagle, que corta a cidade, marca a fronteira da Argentina com o Chile e faz ligação dos oceanos Pacífico e Atlântico. Existem várias empresas situadas em pequenos quiosques ao lado do porto que oferecem o passeio.

São várias opções de embarcações, como veleiros e catamarãs. De acordo com o roteiro escolhido, é possível ver e fotografar pinguins na famosa Isla Martillo, também conhecida como Pinguinera, mas essa opção está disponível apenas no Verão; leões-marinhos na Isla dos Lobos; o Farol les Eclaireurs e até descer em ilhas para trekking. Os passeios são longos e podem durar até 6h e o mais simples custa a partir de 170 pesos argentinos, mas vale bastante a pena.

Cerro Castor

Entre as montanhas de Ushuaia está a Cerro Castor, a 26km do Centro, na Rota 3, onde foi construída a maior estação de esqui da cidade, com 26 pistas. O local é bem equipado e atrai turistas de todo o mundo no Inverno. Devido à localização no extremo Sul, a temporada de neve em Cerro Castor costuma se estender mais do que em outros centros de Inverno, sendo a mais comprida da América do Sul. Além da prática de esqui e snowboard, o local oferece teleféricos, hospedagem própria, restaurantes, internet wi-fi, escola de esqui, aluguel de roupas e equipamentos e transporte para hotéis. Outra opção é fazer passeios de trenó puxado por cães da raça husky-siberiano no vale no pé da montanha. No Verão, a estação fica fechada.

Glaciar Martial

Bem mais perto, a 7km do Centro, no alto da montanha, fica a mais emblemática paisagem de Ushuaia: o pico salpicado de neve que abriga o Complexo Glaciar Martial. Durante os meses de Inverno, o glacial também funciona como um centro de esqui, inclusive com uma das escolas mais tradicionais da cidade. Do teleférico e do alto do monte, tem-se uma vista deslumbrante da cidade, do Canal de Beagle e da Ilha Navarino (no Chile). O legal do Glaciar Martial é que está aberto para visitação e tem o chão nevado o ano todo — o que é interessante para quem viaja para Ushuaia no Verão e para quem nunca viu neve. O tempo estimado para subir e descer o glacial é de aproximadamente três horas, se for de teleférico. Caso contrário, é preciso pelo menos mais uma hora de caminhada e disposição.

Parque Nacional

À primeira vista, a vegetação é o que mais impressiona. Montanhas, uma mata densa, árvores cinzentas caídas (resultado do solo e das raízes pouco profundas), pequenos arbustos e muitos animais, inclusive raposas, aves, castor e coelhos, ainda que alguns tenham sido introduzidos pelo homem na região. A impressão é que você está entrando em um cenário de filme, uma floresta perdida no fim do mundo. De fato, visitar o Parque Nacional Terra do Fogo, que fica a 11km de Ushuaia, é praticamente obrigatório e pode ser feito tranquilamente tanto no Verão quanto no Inverno. O parque tem 63 mil hectares, ocupa 6km do Canal de Beagle e faz divisa com o Chile. A paisagem é desconcertante: o local tem vistas para lagos e para a Bahia Ensenada e ainda trilhas, onde é possível realizar atividades como o trekking e acampamentos. No Rio Lapataia, muita gente aproveita para fazer passeios de caiaque.

O melhor jeito de se chegar ao parque é pegando a Rota Nacional 3 — a reserva fica exatamente no fim dessa estrada. Uma curiosidade interessante é que essa mesma rodovia passa por Buenos Aires (após 3,79 mil kms) e vai até o Alaska (após 17,85 mil kms). Parece mentira, mas não são poucos os que se aventuram a percorrê-la de Norte a Sul, só é preciso uma boa quantidade de coragem.

Outra maneira — muito mais charmosa — de se adentrar ao parque é pegando o Trem do Fim do Mundo, cuja rota era utilizada no passado pelos prisioneiros que construíram o presídio municipal em Ushuaia. Há opção de ir na primeira classe, com lanche a bordo, ou na cabine convencional.

Passeios 4x4

Outro passeio bem divertido e cheio de adrenalina é o 4x4. A excursão começa ainda pela manhã e os turistas são levados, de jipe, pelos guias para dois grandes lagos: o Lago Escondido e Lago Fagnano. A paisagem é linda, inclui montanhas com picos nevados e rende belas fotos. O almoço é incluso no preço (cerca de 600 pesos argentinos).

Onde ficar

A hotelaria em Ushuaia é vasta. Há opções de hotéis, pousadas, hostels, albergues e resorts de luxo como o Los Cauquenes, com vista para o Canal de Beagle, e o Las Hayas, que do alto da montanha oferece uma visão privilegiada e panorâmica para toda a cidade. Há ainda quem se aventure pelo Parque Nacional Terra do Fogo, onde é possível fazer acampamento por preços bem em conta. Se for no Inverno, a dica é ir preparado, já que a neve pode ultrapassar até 1 metro no chão.

Gastronomia

Vale provar os pratos regionais de Ushuaia, que são o cordeiro assado, o polvo e a centolla fueguina, um tipo de caranguejo gigante preparado com condimentos muito comuns na região da Patagônia argentina. Porém, há vários bares e restaurantes ao longo da rua San Martin que oferecem todos os tipos de comida, de fast food à saborosa carne bovina argentina. (Thais Nucci/AAN)

A jornalista Thais Nucci viajou a Ushuaia e Buenos Aires a convite Do Instituto de Promoção Turística, da Argentina (Inprotur).

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