GUSTAVO MAZZOLA

Um desfecho inesperado

19/09/2013 às 05:00.
Atualizado em 25/04/2022 às 02:43

Aconteceu na Beneficência Portuguesa. De repente, aquele senhor dá entrada muito mal no Pronto Socorro, com fortes dores no abdômen, pressão zero. Todo o aparato de emergência é acionado, avaliações médicas, tomografia... Logo se constata uma ruptura do aneurisma de aorta abdominal, com agravantes terríveis, como tratar-se de um doente de 83 anos, fumante inveterado, com problemas cardiológicos e tumor na próstata em tratamento. O homem é operado em situação de extremo risco, depois de alertada a família sobre a gravidade do caso: “ficará uma semana na UTI e, pelo menos, quinze dias no quarto”. Bem, ele sai dessa UTI em três dias, fica no quarto mais cinco e vai para casa, encrenqueiro e brincalhão como sempre. Eu sei, sempre acabamos por saber de histórias assim num grande hospital, mas essa é especial para mim. O doente era meu pai.São os tais desfechos inesperados, que surpreendem qualquer mortal. Quando esperamos que alguma coisa caminhe para um lado, dá mostras que será de um jeito... não é que dá tudo ao contrário? São casos assim que estamos contando aqui: fazem-nos refletir mais sobre assuntos já dados como sem discussão, de conclusão pronta e acabada ou, então, ficam mesmo como mera curiosidade, um passatempo qualquer.Jorge Amado descreve um desfecho surpreendente no seu “Capitão de Longo Curso”: no livro, Vasco Moscoso de Aragão, comerciante de secos e molhados de Salvador fazia-se passar por um experimentado comandante naval, iludindo moradores da pequena Periperi, para onde se mudara. Sua casa parecia uma torre de comando com a roda do leme, a bússola, a luneta, o cronógrafo, tudo deslumbrando aquela gente simples do arrabalde.Bem, quis o destino que, um dia, o capitão Vasco se visse obrigado a comandar “de verdade” um Ita dos grandes, de Salvador a Belém, o que ele tirou de letra, delegando todas as obrigações para o seu imediato. A coisa foi bem até a chegada ao porto da capital paraense. Para desmascará-lo, a tripulação (que já percebia que de mar ele não entendia nada) entregou-lhe a operação de coordenar a atracação, segundo eles, uma obrigação tradicional só do comandante no último porto da viagem. Em pânico, ordenou que se usassem todas as amarras, ferros, manilhas, espias, strings, ancorotes e cabos de aço, o que foi motivo de chacota de todos.Então, veio o desfecho inesperado: sem que a meteorologia desse conta, aconteceu em Belém um temporal nunca visto por ali, a maior tempestade da história daqueles mares do equador, o que provocou diversos naufrágios e a destruição de embarcações, barcos, navios de grande calado junto ao porto: soltavam-se de suas amarras simples, como mandava o figurino. Menos uma, a comandada por Vasco, fortemente atada ao cais conforme suas ordens. Assim, ele manteve-se de “crista erguida”, como dizia Amado.Carlos Galhardo, a grande voz da música popular na primeira metade do século passado, esteve, um dia, na pequena Avaré daqueles anos para um show no coreto do Largo São João, a principal praça pública da cidade.Depois de sua apresentação, recolheu-se ao hotel bem em frente ao Largo, disposto refazer-se daquela jornada com uma boa noite de sono. Mas os fãs queriam mais: foram até perto do apartamento onde se hospedara e começaram a gritar pelo seu nome, bater palmas. O gerente veio até a rua e disse que Galhardo estava muito cansado e não iria cantar outra vez. De repente, uma janela se abre e o cantor surge risonho... e brinda sua plateia improvisada com “Fascinação”, emocionando a todos. Surpresa inesperada!A última dessas histórias aqui não sou eu quem conta: é o hoje acadêmico Luiz Carlos Borges, na sua coluna da Católica “Ecos Universitários”, que editava semanalmente no Correio Popular, num distante 1964.“Ocorreu, despercebido, em aula do Dr. Chiarini. Este, a certa altura, com o fim de temperar as securas do Direito, referiu-se ao fato de Nero condoer-se da degola de uma galinha. A classe não correspondeu, com risos, à finalidade daquela menção. Em seguida, para dar, como queria, ideia da mente paradoxal do imperador romano, reportou-se à sua impassibilidade perante a, na arena promovida, carnificina dos cristãos. Surpresa: risos estouraram. Assim explico: até o momento da referência à galinha, a aula vinha se processando no estilo árido característico da matéria judiciária. Logo, o fato relatado encontrou a classe desprevenida, seu aparecimento súbito, contrastante, não permitiu imediata percepção de sua graça, mas de certo modo deixou excitado nosso instinto do riso”.Não é um desses desfechos inesperados, quando tudo acaba acontecendo exatamente ao contrário? E, note bem, leitor: um caso contado há 50 anos!

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