Antonio Contente

Tragada final

22/11/2020 às 13:47.
Atualizado em 26/03/2022 às 23:57

Esta é uma história do tempo em que era permitido fumar nos ônibus intermunicipais, interestaduais etc. No instante em que o cara entrou no veículo, de Campinas para São Paulo, a moça já estava sentada na poltrona da janela – e ele, imediatamente, se aboletou ao lado. Foi vendo e conferindo, na medida do possível, que a guria transpirava certa suave beleza, charme; e gostou. Com o detalhe de que foi tomado pelo, como se dizia os velhos tempos, inebriante perfume que dela vinha; talvez tirado de pétalas de flores dos campos. Ora, amigos, vamos falar a verdade, não há quem não sinta espécie de tensão, tesão, em viajar, notadamente de ônibus, ao lado de uma beldade de talhe que leva à perfeição do raro. Assim que o veículo percorreu alguns quilômetros de estrada, nosso herói se encontrava quase exausto por exercitar a obrigação que passou a sentir de puxar conversa. Por isso chegou a se assustar ao ouvir a voz da criatura do lado a perguntar: --- Se importa? Ele se vira e sopra: --- Se eu me importo? --- Que eu fume – ela mostra o maço de cigarros – há quem não goste do cheiro. --- Não — ele sorri, subitamente seguro – até porque eu... --- Ah, já sei, vai aceitar um – quem sorri é ela, dentes alvíssimos. --- Ao contrário. Ia dizendo que eu, por ter sido um fumante inveterado, não me importo com o cheiro. Ela acende e, após uma longa tragada, soltando fumaça pela boca e pelo nariz, pega o papo: --- Já fumou? --- Três maços por dia. --- E conseguiu deixar? --- Pois é, consegui. Na verdade, uma barra pesadíssima. Não foi nada fácil. Aconteceu, porém, que eu tinha que deixar. --- Tinha? – Ela bate a cinza --Tinha como? Quem estava obrigando? --- Não, ninguém me obrigava. No duro, se tratava de outro tipo de imposição. --- Não estou entendendo. --- Na verdade aconteceu que, por causa dos três maços diários... --- Saquei – a moça interrompe – infarto. --- Negativo, nada de infarto. Foi pior. Fui acometido por uma baita câncer no pulmão. --- Que horror! – A fulana olha, cabreira, para a brasa que segurava entre os dedos. --- Na realidade – o camarada coloca – isso é um risco que todas as pessoas que fumam correm. Mas há aqueles a quem não acontece nada. Antes de responder, ela vacila. Depois de um tempinho, dá a última tragada, para prosseguir: --- Devo dizer que você é a primeira pessoa que conheço... Vacila, como se estivesse com medo de pronunciar a palavra hedionda. Por fim, solta: --- Você é a primeira pessoa que conheço que contraiu câncer por causa do fumo. --- Bom, há outras. Só que eu acho que você não deve se preocupar muito com isso. Meu pai, por exemplo, está com quase 90 anos e fuma desde os 18. Nesta altura a moça tira o maço da bolsa e fica olhando para a embalagem de cores fortes. --- Nu duro no duro – nosso herói torna – há uma preocupação a menos para você. --- Há? --- Claro que há. As mulheres são muito menos suscetíveis a certas doenças do que os homens. --- Câncer no pulmão, por exemplo? --- Além do infarto. Li algo a respeito, em algum lugar. A moçoila volta a guardar a carteira de cigarros, ao mesmo tempo em que observa: --- Bom, no que se refere a você, pelo jeito, ficou bom. --- Na verdade fiquei. Só que você nem imagina... --- Imagino. Ah, pode ter certeza que imagino... Nesse ponto, para o papo. Após alguns longos minutos de silêncio, o rapaz, algo ansioso, se vira para a dona e pede um cigarro. --- Você vai fumar? – Ela arregala os olhos – E o... E o... --- O câncer? Tudo mentira. Inventei a história para poder levar um papo com você. Cada um acende o seu. E, seis meses depois, batendo as cinzas no cinzeirinho de um criado-mudo de motel, ele pergunta para a criatura: --- Quer casar comigo? Em meio a uma enorme baforada, ela apenas responde: --- Topo. Antonio Contente é jornalista e escritor

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