Entrevista

Tem algo dele aqui e ali

Designer Guto Indio da Costa visita a cidade para participar da Semana Design Campinas

Da Redação da Metrópole
revista.metropole@rac.com.br
20/03/2018 às 15:41.
Atualizado em 23/04/2022 às 06:52

Designer Guto Indio da Costa visita a cidade para participar da Semana Design Campinas (Divulgação)

Sem se dar conta, pode ser que você já tenha se sentado em um sofá desenhado por ele. Ou tenha em sua casa um ventilador de teto assinado pelo designer Guto Indio da Costa. Nascido no Rio de Janeiro, com formação nas principais escolas da Europa e com 20 anos de carreira, ele ajudou a popularizar o design no Brasil e tem produtos que vão desde simples cadeiras até soluções para cidades inteligentes e conectadas. Reconhecido por um trabalho inovador e ousado, é um dos profissionais mais premiados do Brasil. No Rio, o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) e os abrigos instalados nas paradas do trem, feitos de vidro e metal, além dos bancos de concreto, são projetos de sua autoria. Ele diz que o design está em tudo e é para todos. O profissional visita a cidade para participar da Semana Design Campinas (leia mais nesta edição). Indio da Costa vai falar sobre tendências tecnológicas. “O futuro do design é a abrangência virtual”, adianta nesta conversa com a Metrópole. Metrópole – Acredita que o design está popularizado ou ainda há um caminho a percorrer? Guto Indio da Costa – Design hoje é completamente popularizado no Brasil, se tornou até uma palavra conhecida. As pessoas têm uma boa noção do que é o design, mesmo que às vezes não consigam perceber as características técnicas e inovadoras, assim como as características de processo de fabricação de um produto, que obviamente é um assunto para especialistas. Mas já percebem bem quando um produto tem um design caprichado e de boa qualidade e isso está em todas as camadas sociais. Grandes sucessos de design que nosso escritório desenhou foram extremamente populares, como um fogão que chegou a ser o mais vendido no Brasil. A sugestão de design não só remodelava o produto como reduzia custo. Também somos reconhecidos por ter feito o ventilador de teto Spirit, que é um produto de design industrial de larga escala, um design de boa qualidade, premiado internacionalmente, e que teve grande reconhecimento público. Quer dizer que o design não é mais para poucos? Não é simplesmente aquela peça cara e sofisticada? Claro que não. Isso é uma confusão que se faz porque obviamente o mercado de moda, de decoração e outros costumam promover o design sofisticado, caro e para poucos. Mas o design está em tudo, não exclusivamente numa peça sofisticada. Está em cada produto, em cada embalagem, em cada aplicativo que a gente usa no dia a dia. O design é para todos. Como se pensa a criação do design de um produto? Qual é o ponto de partida? É o homem, o ser humano, é aquele que vai utilizá-lo. Criamos produtos para que sejam o mais útil, inteligente, intuitivo, simples, interessante e funcional possível. Ou seja, o foco é o usuário, mas obviamente que um bom produto de design tem primeiro que ser inovador. E inova do ponto de vista do usuário, uma inovação de uso, feito para funcionar melhor, facilitar a vida do homem. Tem também uma inovação técnica, feita por meio de processos industriais que podem simplificar sua produção. Traz, ainda, uma inovação de estética: o produto precisa refletir uma nova linguagem. Por fim, deve ser responsável ecologicamente, não necessariamente inovador nesse sentido, mas hoje em dia não é mais cabível a gente projetar sem consciência ecológica. Isso significa conceituar qual matéria-prima utilizamos, como é processada, como é utilizada e, depois, como será reciclada, reutilizada, reaproveitada. Qual é a principal marca de seu portfólio de trabalho? É a abrangência. Somos uma equipe de design extremamente variada. Estamos unidos a um escritório de arquitetura e urbanismo que pensa a cidade, portanto podemos desenhar um bairro e da mesma forma, uma caneta. A experiência em projetos tão diversos, além do conhecimento de processos distintos, de materiais e de circunstâncias diferentes, eu diria que é a maior marca do nosso escritório e portfólio.   Mas trabalhar em produtos tão diferentes é algo aparentemente bem difícil. É verdade? É extremamente interessante. É o que faz a riqueza da experiência de ser designer. Se eu fosse um designer monotemático, se só fizesse móveis de alto luxo, ou apenas automóveis, ou trens, ou barcos, seria frustrado, pois estaria limitando a minha curiosidade e abrangência. Claro que é mais difícil trabalhar em produtos tão diferentes, em universos tão distintos, mas também é um desafio muito maior e é o que alimenta a minha alma curiosa. Design e arquitetura tem uma ligação integrada? Devem estar juntos? Sim. O que diferencia a arquitetura do design, normalmente, é a escala e o conhecimento especifico de um certo tipo de produto, casas, edifícios, construções. Diria que o arquiteto é praticamente um designer especializado em projeto de construções. Na década de 1960, não havia o termo design. Dessa forma, a arquitetura é a mãe do design. Jacob Jensen era chamado arquiteto do produto, por exemplo. Pode contar sobre algum projeto atual que esteja trabalhando e que o deixa entusiasmado? Estou entusiasmado com vários deles. O momento que estamos vivendo é interessante. A conectividade permitida pelas tecnologias de comunicação está trazendo novas perspectivas e novos horizontes para o mundo do design. O produto não é mais o produto, agora ele é um produto inteligente, ele está conectado à internet, se comunica com o usuário à distância, pode captar dados e transmitir para uma central. Posso citar um em particular: estamos trabalhando em parceria com uma empresa internacional em soluções para smart cities, ou seja, soluções para cidades inteligentes, cidades conectadas. Acredito, por exemplo, que o problema de segurança pública é um problema praticamente erradicado por conta do avanço que teremos no design das cidades, no design dos produtos das cidades, na conectividade. Esse seria um dos meus grandes sonhos: resolver o problema da segurança pública por meio de design no espaço urbano. E qual é o futuro do design? Diria que o futuro do design é exatamente essa abrangência virtual. Os produtos serão cada vez mais conectados e inteligentes, a comunicação com os produtos e suas interfaces serão feitas remotamente e isso vai transformar e já está transformando a profissão e os produtos que nos cercam. Isso é um grande desafio para o design atual. Conhece Campinas? Como acha que uma primeira semana focada no design pode ajudar a popularizar mais o tema? Sim. Conheço Campinas, Indaiatuba, Hortolândia, toda essa região que, inclusive, tem alto potencial industrial. E acredito que uma primeira semana de design vai ajudar a popularizar o tema e o conhecimento sobre design. Espero também que ajude a sensibilizar cada vez mais as indústrias da região e que elas possam desenvolver produtos com design cada vez melhores. Será um prazer contribuir para isso na cidade.

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