IG- Gustavo Mazzola (CEDOC)
Ah, os chefes! Chefões, chefinhos, mestres, gerentes, diretores, quantos ao longo da vida, não? Muitos passam em brancas nuvens, perdem-se em suas próprias e pequenas histórias. Mas têm outros cujas marcas acabam ficando bem nítidas na memória: são aqueles donos de qualidades incomuns, inesquecíveis. Até uma “chefa” entra nessa relação (coisa rara, naquele tempo) e um dependente alcoólico, grande figura humana, que nos deixou, na empresa, assim que teve descoberto o seu segredo. Quem viveu conosco aqueles anos ainda se lembra deles. Por exemplo, o meu primeiro chefe, lá no finalzinho dos anos 50, começo dos 60: cinco para as oito da noite, e eu começava a ficar aflito, pois, o locutor do horário ainda não havia aparecido. A rádio da pequena cidade do Interior, que funcionava em três horários, precisava abrir assim que terminasse a “Hora do Brasil” e... como fazer? Bem, o fato é que eu era o técnico de som do horário, precisava “passar” a transmissão lá para a Câmara, e o locutor não chegava para os textos de abertura, publicidade, chamadas. Meu chefe, de lá, tomou a iniciativa: — Ei rapaz, deixe ligado o microfone, larga isso aí, vai lá pro estúdio e põe a Rádio no ar. Vamos lá, firme, coragem! — foi a minha primeira experiência: fiz tudo como mandava e ele pode assim transmitir tudo sem problemas. No dia seguinte, muita apreensão logo de manhã, aguardando o homem. Será que tinha dado certo, alguma observação? Talvez uma crítica! Mas, eis que ele chega, simpático e sorridente como sempre, e me abraça. — Muito bem! Você está aprovado. Quer começar amanhã na locução? Alguns meses antes do seu falecimento reencontrei-o num lançamento de livro: era o mesmo de cinquenta e tantos anos atrás: magrinho, calva luzidia, falante, sempre cheio de planos para o futuro. E o homem das pestanas brancas, anos depois: estremecíamos quando ele nos chamava para qualquer coisa, fazendo-nos entrar na sua sala em São Paulo, imensa e discretamente decorada, já suando frio e atento às suas finas e cortantes palavras: o que virá agora, certamente inesperado... e “pra ontem”? Olhar frio, imperturbável, postura ereta, ágil, sempre trajando impecáveis ternos cinza e camisas azuis claras, era de uma personalidade marcante. Suas atitudes? Dinâmicas, surpreendentes. Por exemplo, gostava de ser dirigido, no seu carro executivo, pelo motorista de sempre, em qualquer situação. Quando precisava ir para o Rio, logo de manhã, chamava o solícito Chico e lhe dava as instruções: — Pegue a estrada e me espere lá, logo depois do almoço, ok? Trabalhava no escritório até o meio dia, então pegava a ponte aérea e, à tarde, já estava visitando clientes cariocas — a bordo do seu carro, é claro! Uma vez, precisado de algumas instruções, perguntei à sua secretária (ele só falava com aquela senhora em alemão) se poderia “entrar”. — Não vai dar — respondeu-me ela — está ocupadíssimo, em reunião. Mas chegue aqui um pouco mais tarde. Vamos ver! Voltei uns quarenta ou cinquenta minutos depois, cauteloso, e quase não acreditei no que ouvi: — Sinto muito, o chefe está viajando para a Alemanha. Era bem diferente daquele outro da mesma empresa, descontraído, amigão de todos, às vezes, com bigode, às vezes, sem bigode: não era somente um chefe, era um líder, bem conhecido entre os revendedores. Todos sentíamos prazer de trabalhar com ele — e para ele. Até quando o serviço resultava numa sonora bronca — sempre justificada, é claro. Por exemplo, quando, uma vez, fui lhe perguntar como devia fazer um determinado trabalho. Saiu-me com “um quente e dois fervendo”: — Você é que deve tomar essa decisão, rapaz! Não venha trazer o problema aqui pra mim. Pode até dar tudo errado e, se isso acontecer, eu vou com você até o fim, pode crer. Depois, a sós... a gente conversa. Jeitão simples, de fino humor, tratava tudo com o tempero da sua criatividade nata. “Punha para frente” até quem precisava demitir: intercedia lá fora em seu favor, o que víamos com nossos próprios olhos. Não chamava ninguém do seu pessoal a toda hora, a não ser que o assunto fosse sério mesmo: se tinha algo a tratar no dia a dia, de trabalho ou não, chegava pessoalmente, numa boa, às vezes, até sentava numa de nossas mesas para expor o assunto. Aliás, era o único chefe que se lembrava de me dar um abraço e dizer “parabéns” no dia do meu aniversário.