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Popularização da K9, a droga zumbi, preocupa autoridades

Conhecida também como maconha sintética, a substância é 100 vezes mais potente e pode matar

Eduardo Reis
30/01/2024 às 09:30.
Atualizado em 30/01/2024 às 09:30
Agentes da Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes de Americana efetuaram a apreensão de porções de K9 em Hortolândia (Divulgação/ DISE)

Agentes da Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes de Americana efetuaram a apreensão de porções de K9 em Hortolândia (Divulgação/ DISE)

Análises realizadas pelo Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e recentes operações das forças policiais indicam uma disseminação preocupante das drogas conhecidas como "K" na Região Metropolitana de Campinas (RMC), com destaque para a variante K9. Este entorpecente é um canabinoide sintético, fabricado em laboratório com o intuito de reproduzir os efeitos da maconha nos usuários. No entanto, sua potência é 100 vezes maior do que a da erva natural, podendo resultar em sérios danos psicomotores e até mesmo levar à morte.

Especialistas da região manifestam inquietação diante da disseminação da droga nos pontos de tráfico. Na última sexta-feira (26), agentes da Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise) de Americana efetuaram a apreensão de 19 porções da substância em uma área de tráfico em Hortolândia, culminando na detenção de dois indivíduos, sendo um deles um jovem de apenas 16 anos.

Duas outras operações de apreensão foram realizadas pela Dise no ano passado, ambas em Sumaré, envolvendo adolescentes como infratores.

No primeiro caso, ocorrido em setembro, um estudante de 17 anos estava comercializando a droga no bairro Bela Vista, portando 33 porções de maconha, sete de cocaína e quatro de K9. No segundo caso, datado de sete de novembro, dois adolescentes de 16 anos foram detidos no Portal Bordon enquanto vendiam a substância próximo a uma área verde.

Conforme dados do Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox), em 2023, os casos relacionados às drogas ultrapassaram a marca de 12 registros, contrastando significativamente com apenas dois registros nos cinco anos precedentes. Notavelmente, em 2022, não houve nenhum registro, o que eleva a preocupação em relação à saúde pública, dada a alta propensão à dependência promovida por essa substância.

O professor José Luiz da Costa, coordenador executivo do CIATox, destaca que o baixo custo de produção da droga a torna economicamente viável para o tráfico. Ele ressalta que, embora o ilícito adentre o Brasil por meio de importação, qualquer aparente processo laboratorial em território nacional geralmente se restringe à adição de outras substâncias.

José explica: "Não há laboratórios no Brasil que produzam, pelo que estimo. O mais provável é que venha de fora, comumente da Ásia. Essas drogas podem sofrer diversas alterações em sua estrutura, mantendo, no entanto, o cerne do efeito. Assim, cada lote pode conter compostos distintos, causando os mesmos danos." 

Quando consumida, a droga K afeta o sistema nervoso central, retardando-o e deixando o usuário em estado de imobilidade, incapaz de reagir a adversidades. É por isso que o entorpecente ganhou a alcunha de "droga zumbi", já que os usuários, ao consumi-la, podem assumir uma postura curvada, com os braços pendentes, assemelhando-se às representações cinematográficas de suspense.

Segundo o médico e professor Silvio Giopatto, da Unicamp, a K9 surgiu como uma tentativa de sintetizar resultados farmacológicos semelhantes ao canabidiol em laboratório, visando a produção de uma forma sintética de maconha. Contudo, os experimentos falharam e foram abandonados pela indústria farmacêutica. O problema é que a produção foi descoberta por traficantes, caindo, assim, em domínio público. Os criminosos passaram rapidamente a comercializar a substância como maconha sintética.

"É crucial esclarecer que não existe maconha sintética; na realidade, trata-se da tentativa de enganar as pessoas. A substância K9 é produzida em laboratório e age nos mesmos receptores cerebrais que a maconha, mas com uma potência 100 vezes maior. Os efeitos incluem entorpecimento, perda de sensações, alucinações, taquicardia, convulsões e até mesmo a possibilidade de morte. Isso pode ocorrer tanto devido a uma inclinação ao suicídio induzida pelo uso quanto por fatores externos relacionados à falta de consciência, como atropelamentos, quedas, brigas, entre outros, além de casos de infarto e parada cardíaca", explica Giopatto.

A atratividade da K9 também reside na facilidade de seu consumo. Apresentandose em forma líquida, a droga é consumida em cigarros eletrônicos, maconha (borrifada), bebidas, alimentos e até mesmo em incensos.

"Hospitais têm observado um aumento nos casos de intoxicação por essa droga, embora ainda não existam estatísticas que proporcionem um panorama completo. Essas estatísticas estão em processo de construção. No entanto, é crucial prestar atenção à incidência empírica crescente, pois a droga tem um impacto significativo na saúde pública, contribuindo para mais casos de inconsciência nas ruas e, consequentemente, mais violência. Aqueles que a utilizam e não enfrentaram a morte aguda certamente a terão em um prazo muito menor que o comum", conclui Giopatto.

Ao ser questionada, a Secretaria de Estado de Segurança Pública (SSP) não forneceu resposta sobre a quantidade de apreensões na região de Campinas no último ano. Em todo o Estado de São Paulo, foram apreendidos 116 kg da droga no ano passado, enquanto as apreensões em 2022 totalizaram 11 kg.

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