OPERAÇÃO CASH WAY

PF faz operação em Campinas para apurar fraudes previdenciárias

Três mandados de busca e apreensão foram cumpridos no Campo Grande e Ouro Verde; denúncia indica que benefício de segurado foi desviado de Tocantins para a metrópole

Alenita Ramirez/alenita.ramirez@rac.com.br
12/07/2024 às 07:31.
Atualizado em 12/07/2024 às 10:47

PF de Campinas conta com força-tarefa formada pela instituição e pelo INSS para repressão a crimes previdenciários; equipe rastreou pagamentos, operações de depósitos e as transferências de valores, identificando no município os possíveis favorecidos pelo esquema (Divulgação PF)

A Polícia Federal (PF) de Campinas deflagrou na manhã de ontem a Operação Cash Way para apurar desvio de valores previdenciários do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A ação contra o suposto grupo criminoso buscou coletar documentos, celulares e dispositivos eletrônicos que serão periciados para comprovar a real participação dos investigados em crimes de fraudes. Ninguém foi preso nesta fase. Foram cumpridos três mandados de busca e apreensão em endereços localizados nos bairros Cidade Satélite Iris, na região do distrito do Campo Grande, e nos jardins Novo Campos Elíseos e Planalto de Viracopos, ambos na região do distrito do Ouro Verde.

As ordens foram expedidas pela Juíza Federal Valdirene Ribeiro de Souza Falcão, titular da 9ª Vara Federal de Campinas. Até o momento, os agentes federais apuraram que os criminosos já causaram um prejuízo estimado em R$ 66.692,84.

De acordo com a PF, a investigação teve início em junho do ano passado após uma vítima registrar um boletim de ocorrência na Polícia Civil. O registro aconteceu no dia 14 de julho de 2022 em Araguatins (TO), versando sobre estelionato. Na época, a notícia-crime foi de supostas fraudes por meio de violações nos sistemas operacionais do INSS que resultaram em pagamentos indevidos de benefício previdenciário. Conforme o registro, o real segurado do INSS constatou que o pagamento do seu benefício tinha sido transferido para Campinas.

Como a Delegacia da PF em Campinas é a única unidade que conta com uma força- tarefa (FT) formada pela Polícia Federal e INSS para repressão a crimes previdenciários, e dentro da força-tarefa há uma equipe especializada e voltada exclusivamente a fraudes, ela passou a rastrear os pagamentos, as operações de depósitos e as transferências de valores. Os policiais federais conseguiram identificar duas mulheres e diversos favorecidos pelo esquema em Campinas. Segundo os agentes, não há indícios de participação de servidores do INSS no crime.

De acordo com o delegadochefe da PF em Campinas, Edson Geraldo de Souza, com o avanço da tecnologia e a mudança da interface entre beneficiário e INSS, houve uma mudança na característica das fraudes previdenciárias. Se antes os processos para aquisição de benefícios eram intermediados por despachantes que conseguiam falsificar documentos para conseguir benefícios, em muitos casos com a ajuda de servidores, com a modernização do sistema do INSS, e a aquisição virtual, os criminosos se reinventaram em um novo esquema de fraudes. Atualmente, eles se concentram em desvio de valores, consignações ou alteração de contas. “As principais ferramentas dos criminosos são a engenharia social, com obtenção de dados, a fraude eletrônica, com a subtração de dados dos beneficiários, e a fraude eletrônica bancária”, pontuou Souza.

Cash Way, significa caminho do dinheiro, em tradução livre do inglês. O nome da operação foi dado em alusão ao método de investigação que chegou ao grupo suspeito, utilizando dados das operações de depósitos e transferências de valores subtraídos.

OUTRAS OPERAÇÕES

Desde a implantação do grupo especializado, a PF de Campinas já deflagrou cinco operações de fraude contra o INSS, contando a de ontem. Em fevereiro de 2021, foi deflagrada a Operação Bico Calado, com o objetivo de desarticular um esquema de fraudes no INSS mediante obtenção indevida de benefícios de auxíliodoença previdenciário. Na época, foi cumprido um mandado de busca e apreensão em São Paulo e feito o sequestro de valores de contas bancárias de 31 pessoas.

As investigações, feitas com a Coordenação Geral de Inteligência Previdenciária e Trabalhista (CGINT), iniciaram-se em 2018 após apurações do próprio INSS, que apontou irregularidades nas concessões de alguns benefícios. Foram identificados 40 benefícios de pessoas empregadas que estavam simulando problemas de saúde e, com suporte em documentação falsa, conseguiam obter o auxíliodoença previdenciário. Alguns investigados receberam o benefício mais de uma vez. Na época, a forçatarefa estimou um prejuízo de aproximadamente R$ 400 mil ao erário.

Também em 2021 foi instaurada uma investigação que culminou na Operação Custo Previdenciário, que cumpriu mandado de busca e apreensão em junho de 2022. Em agosto do ano passado, a PF campineira deflagrou a Operação Teleworking. Os policiais coletaram documentos e dispositivos eletrônicos para aprofundar investigações de crimes contra o Ministério da Previdência Social. Nesse caso, houve participação de um então servidor público. Na época foram cumpridos dois mandados de busca e apreensão em Campinas. O material apreendido está em análise. Na Teleworking, a investigação começou no dia 5 de julho de 2019 contra um ex-servidor do INSS que foi preso em flagrante por corrupção passiva. Ele cobrava propina para liberar benefícios.

A partir da prisão do exservidor e de uma análise do Núcleo de Inteligência da Coordenação Geral da Inteligência Previdenciária do Ministério da Previdência Social (NUINT/CAS) foram constatados indícios de outros crimes cometidos pelo investigado, entre os quais a inserção de dados falsos em sistema de informações, advocacia administrativa, além da suspeita do envolvimento de outra pessoa no crime.

A PF ainda constatou que entre 2015 a 2019 o ex-servidor atuou diretamente em 248 procedimentos administrativos. Em ao menos 39 deles foram encontrados indícios de ilicitudes. O investigado era servidor do órgão havia 13 anos e trabalhava na agência Amoreiras. Nessa investigação, não foi apurado na época o montante do prejuízo causado ao erário.

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