Seu Sebastião, eu trouxe a listinha. Tá tudo aqui.Sebastião Maria examina cuidadosamente a lista que lhe é entregue, faz alguns comentários do tipo “os fumos de corda estão ali no canto, veja o que queres. Toucinho defumado, bem... só pra semana. Ei! Que é isso aqui? Não conheço!”. Chama um dos balconistas e lhe dá as ordens, bem claras: — Mariano, veja a mercadoria da patroa aqui, e mande pra casa dela ainda hoje. Ainda hoje, estais me entendendo?Assim eram as compras de mês nos primeiros anos de 50: como no caso do Armazém de Secos & Molhados do bom lusitano Sebastião Maria, ali na esquina da José Paulino com a General Osório, e de outros tantos pela cidade, tudo era tirado das prateleiras, dos sacos na porta da venda, dos vidros em cima do balcão, e acomodado em caixas, prontinhas para a entrega... a domicílio. Nas vendinhas dos bairros eram comuns as cadernetas, onde o dono anotava as compras para pagar no fim do mês.Supermercados? Pouco se imaginava o que era um supermercado, nem se suspeitava de sua chegada ao Brasil. O primeiro de que se ouviu falar por aqui, em 1953, foi o Sirva-se, em São Paulo, depois veio o Pegue e Pague, também na Capital, lá pelos lados de Congonhas. Causavam espanto: — Como? Vou entrar na venda, e pegar eu mesmo as coisas? O dono vai sair correndo atrás de mim. Não estou entendendo essa moda, não!E as feiras livres, com aquelas barracas de verduras, hortaliças, frutas? Ainda existem algumas por aí, mas não são tantas. O mercadão? Continua lá, pra contar a história. Mas quem domina mesmo esse segmento de vendas, hoje, são os varejões, estabelecimentos especializados com tudo que encontrávamos nas feiras, nos mercados, sempre dentro de grandes áreas cobertas, claras, muito limpas, seguras, com estacionamento na porta.Pois é, o mundo mudou nesse meio de século... e nem percebemos. Quando íamos pensar que todas as lojas da cidade iriam estar juntas num mesmo lugar, arrumadinhas, num ambiente agradável, cheiroso, tudo funcionando até às dez horas da noite, mesmo nos sábados e nos domingos? A novidade dos shoppings revolucionou a rotina da população, em 1966, na capital paulista e, em 1980, em Campinas: sim, fazer as compras passava a se tornar, também, um programa de lazer, um passeio maravilhoso, com amplas praças de alimentação, apresentações artísticas e tudo mais. Não era mais preciso descer a 13 de Maio, gastar a sola dos sapatos andando pela Glicério ou pela Barão: estava tudo lá no shopping. E para terminar a noite, um bom cinema com cadeiras confortáveis, reclináveis, ar condicionado, um telão imenso, som estéreo, lugar até para a pipoca e o refrigerante.O point da moçada não é mais a Torre de Pisa, no Castelo, quando as menininhas faziam até toilette para se apresentarem bem na sorveteria e, mais tarde, nas brincadeiras dançantes do Cultura ou num bom drink no Armorial: todo mundo vai, agora, direto para os barzinhos, as cachaçarias espalhadas pelos bairros chiques da cidade. As discotecas e as lambadas ficam para os fins de noite e para a madrugada. E na hora de ir para casa, se não tem um carro à mão, nenhum problema: é só chamar o Disk Táxi pelo celular, e ele vem em minutos, todo equipado, limpinho etc.As aventuras mais ousadas? Bem, não tem uma saída da cidade sem os tais dos motéis, com camas redondas, luzinhas especiais, piscina dentro do quarto, céu estrelado ao tocar de um botão, serviço de buffet etecetera e tal. As grandes noitadas do pessoal de gostos mais explícitos, nas Maria Lúcias e Paraguaias da vida, no Taquaral, acabaram mesmo (Itatinga veio depois... mas nem pensar). Aquelas antigas casas — depois de reformadas e sem vestígios do passado -, hoje são respeitáveis residências de famílias.Não faz muito tempo, algumas tinham pregadas nas suas fachadas uma discreta tabuleta com a inscrição “Residência Familiar”. Isso, para evitar problemas, terríveis enganos. Mas, que aconteceu, aconteceu: não é que, certa vez, um viajante, ausente na cidade durante anos, resolveu lembrar as velhas aventuras, e — como de costume — foi entrando, sem rodeios.Na sala, sentou-se num sofá confortável e ficou esperando pelas novidades.Passaram alguns minutos e apareceu uma senhorinha de avental de cozinha e preocupada com o jantar do marido que já ia chegar, assustadíssima com aquela figura, que a olhava com um jeito meio malandro: — O que o senhor deseja? Quem é o senhor?— Ora! Que coisa! Está me estranhando? É melhor chamar logo as meninas, que eu estou num atraso daqueles!