Educador alia o conteúdo da disciplina a atividade que estimula o espírito crítico e a transformação
Das aulas de geografia para a prática solidária. Das desigualdades sociais expressas nos livros à percepção de que, bem perto de nós, há gente muito necessitada. Da teoria de Milton Santos (1926-2001) à proposta de Herbert José de Souza, o Betinho (1935-1997), o sociólogo-símbolo da luta pela erradicação da fome. Esses são alguns dos caminhos que os alunos do professor Delmar Thadeu Carvalho Merola, da Escola Estadual Miguel Vicente Cury, na Vila Padre Anchieta, em Campinas, têm percorrido por meio de um projeto social que nasceu nas aulas de geografia no Ensino Médio e ganhou as ruas da comunidade. Há dez anos, o professor organiza, em novembro, depois de abordar questões como fome, desigualdade social e economia brasileira, uma campanha de arrecadação de alimentos, o que faz com que os alunos construam um mapa de solidariedade pelo bairro.
O professor Thadeu, como é conhecido, está na escola há 15 anos. Com apoio da diretora Angela Magali Vianna da Silva Montovani e da professora Fernanda Camilo Chaves, ele decidiu implantar, como finalização dos conteúdos com as três séries do Ensino Médio, o projeto Natal sem Fome, livremente inspirado na iniciativa do sociólogo Betinho. De uma proposta tímida nos primeiros anos, o projeto tem ganhado força e, agora, já faz parte do planejamento anual de atividades.
No início, é feita uma contextualização da realidade social brasileira, com destaque para a situação de fome e a desigualdade social no Brasil, recorrendo a teóricos de destaque como Milton Santos. O professor explica, por exemplo, que, mesmo com a melhoria das condições de vida no País, cerca de 11 milhões de pessoas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ou aproximadamente 6% da população brasileira, ainda passam fome e o dobro desse número não ingere a quantidade mínima diária de calorias, ou seja, alimenta-se de forma precária.
Humanização
“Uso a geografia para abordar questões que extrapolam os aspectos físicos. O objetivo é formar a criticidade nos alunos e permitir que eles tenham uma visão mais completa do que é um espaço geográfico, com todas as suas variáveis”, explica o professor. Para o educador, de nada adiantaria, por exemplo, que o aluno conseguisse aprender quais são as características geológicas e a diversidade de solos brasileiros — também conteúdos da disciplina — se faltasse um olhar sobre os problemas sociais que afetam, inclusive, a própria comunidade, exatamente como pregava Milton Santos. Isso faz ainda mais sentido quando se sabe que a Vila Padre Anchieta, na região Norte da cidade, é uma área periférica, com pessoas vivendo em zonas de risco e que necessitam de ajuda de entidades assistenciais para sobreviver.
Depois da discussão em sala de aula, os alunos organizam um mutirão que percorre, durante um dia letivo no mês de novembro, as ruas do bairro e, de casa em casa, os estudantes solicitam doações de alimentos. Como o projeto já é tradição, a maioria das pessoas recebe bem os alunos e colabora. “É uma data que tantos os alunos quanto os moradores já cobram que se repita anualmente”, conta o educador.
No ano passado, a iniciativa da escola teve parceria da Faculdade Anhanguera de Campinas (FAC). Os alunos, assim, contaram também com a produção de folderes, entregues aos moradores com informações sobre a campanha. Em 2012, os alunos conseguiram arrecadar cerca de 2 toneladas de alimentos. Tudo foi encaminhado à paróquia da Igreja Católica no bairro que, primeiro, realizou um almoço de comemoração de final de ano para 300 crianças carentes. “Com o restante, ainda foi possível montar 60 cestas básicas, entregues para famílias carentes. Com esse trabalho, os alunos podem perceber que a solidariedade pode estar presente em todas as classes sociais. Quem tem mais ajudando quem tem menos. Além disso, eles veem, no cotidiano, o conteúdo que aprendem pelos livros e nas aulas”, diz o professor.
Ampliação
Como o projeto tem crescido, outras disciplinas também passaram a contribuir. Os professores de língua portuguesa e de educação artística se envolveram na proposta ajudando os alunos a criarem textos e cartazes para divulgar o trabalho. Em história, também contextualizam a questão da fome e dos movimentos sociais. Em sociologia, estudam as contribuições de Betinho à área no Brasil. “Nós também queremos mostrar que as campanhas não podem apenas focar o assistencialismo, mas, principalmente, a transformação social”, afirma Merola.
O educador relata que, com o trabalho contínuo envolvendo escola e comunidade, um dos resultados positivos foi a alteração gradual na forma como o colégio é visto na vizinhança.
“Como já enfrentamos problemas relacionados à violência e ao uso de drogas, essas mazelas acabavam sendo a referência de muita gente quando se referia à escola. O projeto contribuiu para alterar essa visão”, conta o docente. Como o espírito de solidariedade já extrapolou as fronteiras do colégio, os alunos do professor Thadeu organizaram também, nos últimos três anos, uma campanha do agasalho nos meses de maio e junho, quando os estudantes levam para a escola roupas e calçados em bom estado de que não precisam mais. “Costumo até brincar com meus alunos que eles podem esquecer todos os assuntos com os quais trabalhamos nas aulas de geografia, mas jamais se esquecerão da importância de ser solidário.”