ANTONIO CONTENTE

Procura-se MS. Desesperadamente

17/06/2013 às 05:00.
Atualizado em 25/04/2022 às 12:10

Como a esperança nem sempre é a última que morre, mas, em muitos casos, a primeira que nasce, declaro, a quem interessar possa: estou procurando MS desesperadamente. Faço isso, é necessário dizer desde logo, porque ela sempre me acompanhou durante os muitos anos em que venho trafegando por esta adorável cidade fundada por Barreto Leme. Acompanhou-me a fornecer, das melhores entranhas do seu suave poder, pequenos e grandes toques de sínteses de beleza, que me conduziram aos sonhos e alimentaram meu coração com enxurradas de poesia. Coisa antiga? Que seja! Mas MS, lamentavelmente, de repente sumiu. E o pior: levando consigo não apenas pedaços de mim; porém exatamente os utilizados no percorrer os caminhos do belo e do bom.

Necessito reencontrar MS porque ela guardava, em seu âmago, significados de estrelas, brisas frescas purificadas ainda mais ao perpassar entre galhos e folhas de sibipirunas, tudo a mim chegando com dedicação e afeto. Quantas vezes, meus bons deuses, vi MS se espalhar entranhada em raios de luar que escorriam pelas muitas portas e muitas janelas que já possuí. Juro, às vezes MS se escondia nas dobras das cortinas. E dali quantos recados me mandou a lembrar que lá fora certamente havia paz em ninhos, e que os frutos, nos quintais antigos, amadureciam com o balançar dos abençoados suspiros das noites.

MS, entre tantas belezas, me traduziu, com exato acerto, o canto de um velho galo que ecoava antes do sol nascer sobre paredes e reentrâncias de uma rua que ainda existe, apesar de ter se tornado incerteza, pois nunca mais lá fui. Todavia, por tempos e tempos, MS permaneceu a me falar dela e seus momentos, alongando-se na reinvenção de outros.

Ah, acreditem, MS foi a mais pura expressão do que possa haver no evoluir das canções. Às vezes me pareceu que se especializara em explicar o inexplicável, dando o peso da realidade aos seus contornos. Em muitas ocasiões, acordando altas horas acossado por estranhos pesadelos, foi MS que me acariciou e acalmou, por ser possuidora, seja lá onde estiver agora, da fórmula que torna criativo os sossegos; sabia colher, talvez do infinito, para me cobrir, o manto da razão e do acerto.

MS era especialista em anunciar as vésperas dos cantos. Ela sabia de cada nota que viria com a proximidade das auroras, pois retinha, guardada em sua essência, cada trinado que o sabiá das manhãs espalharia sobre as árvores e os telhados.

Nunca, jamais, em tempo algum, sempre que eu quis sair, mesmo depois da meia-noite, para alguma caminhada, MS deixou de me acompanhar. Através das vias novas que parecia abrir, colocava ante meus olhos, meio pasmos, de forma mais que perfeita, o que se formava e o que habitava nas dobras dos jardins. MS entendia como ninguém a suavidade dos passos dos gatos vadios que passavam sobre muros ou atravessavam gradis, e era capaz de conter, na sua essência e sua forma, a alada verdade incrustada nos rastros dos vôos das corujas como se eles espalhassem distâncias estilhaçadas. MS apascentava as sombras e as luzes, como se branquíssimos cordeiros fossem a balir numa pradaria imensa.

MS, com persistente generosidade, me deu durante anos e anos o doce presente da paz, da carícia, da ternura e do abrir caminhos para o pensar e o produzir. Foi com ela, e graças a ela, que tantas vezes sentei primeiro nas velhas máquinas de datilografar, depois nos computadores, para escrever palavras e palavras que têm sido meu ganha pão ao longo de tantos janeiros que sequer posso enumerar.

É assim que após seu sumiço, nem tão súbito, porém não por isso menos sofrido, que agora procuro por MS desesperadamente. E abro desse jeito meu coração, de forma pública, notória, através de uma coluna em jornal muito lido, para que alguém, talvez, possa me ajudar a encontrar, ou reencontrar MS. Não sei como e de que forma me poderá chegar essa ajuda. De todo modo, para que isso seja possível, é necessário que identifique por inteiro, e não só com as iniciais, quem é a inesquecível MS. Trata-se apenas, amigos, das Madrugadas Silentes, que sumiram de Campinas talvez de forma irreversível, mas que preciso reencontrar. Quem, além das forças divinas, poderá ajudar? Tenho esperanças. Remotas, mas tenho... Preciso das Madrugadas Silentes. Isso é quase um pedido de socorro diante do barulhento avanço maluco da dita civilização...

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