Entrevista

Pressão como aliada

Ter o gestor na cola dando aquele toque sobre a entrega das obrigações pode não ser tão ruim como a maioria dos profissionais acredita, diz especialista em liderança

Sheila Vieira
sheila.vieira@rac.com.br
02/03/2018 às 14:17.
Atualizado em 22/04/2022 às 15:02

Ter o gestor na cola dando aquele toque sobre a entrega das obrigações pode não ser tão ruim como a maioria dos profissionais acredita, diz especialista em liderança (Divulgação)

Novos pontos de vista sobre as relações no ambiente de trabalho revelam a pressão como aliada ao enfrentamento dos problemas, e não apenas como fonte deles. Ter o gestor na cola dando aquele toque sobre a entrega das obrigações pode não ser tão ruim como a maioria dos profissionais acredita. Aplicada de maneira correta e na dosagem certa, a pressão pode exercer um despertar vital. Alexandre Lacava, especialista na área de vendas, negociação e liderança com a experiência de quem já treinou mais de 20 mil profissionais em todo o Brasil, aborda o tema sobre o prisma da psicologia organizacional, sua área de pós-graduação, e também da Programação Neurolinguística (PNL). Nesse bate-papo com a Metrópole, Lacava desmistifica a pressão, forma de relacionamento sempre vista como uma das grandes vilãs no entrosamento entre liderança e liderados. Novos olhares começam a ser lançados sobre o tema e, com isso, a pressão está deixando de ser considerada apenas como o gatilho para a depressão. Começa a ser descoberta como um instrumento de aprimoramento à carreira. Metrópole - Os gestores sabem diferenciar a pressão benéfica para o desenvolvimento da equipe daquela que deixa os profissionais doentes? Alexandre Lacava - A maioria dos gestores não sabe diferenciar com clareza as duas situações. Na maioria das vezes, o que encontramos são gestores convivendo com resultados e sentimentos contraditórios. Alcançam a meta da área mas perdem a confiança da equipe. O ser humano convive com pressão praticamente desde que é inserido no meio social. No entanto, como devem agir pessoas com mais dificuldade para lidar com cobranças? Normalmente as pessoas que têm dificuldade para lidar com cobranças passaram por situações que deixaram marcas em suas memórias emocionais, e buscam agora se proteger de qualquer experiência similar. São crenças sobre como pessoas e situações de pressão devem ser encaradas. Tudo isso acontece em um nível subconsciente da mente, ou seja, nos condicionamos a reagir de determinada maneira a um tipo de situação, sem ter clareza nem consciência do motivo que nos leva a agir dessa forma. Pessoas com essas dificuldades devem assumir conscientemente que situações de cobrança as fazem se sentir mal, e que resistem em lidar com aquilo. Em seguida, devem fazer uma exploração sobre os fatores pessoais que as fazem se sentir dessa forma. Assumir a responsabilidade ajuda a perceber onde, como e quando a pessoa pode responder de forma diferente à pressão, aproveitando os benefícios que esse estímulo pode gerar em suas vidas. É possível identificar no ambiente de trabalho se as cobranças estão, ou não, sendo utilizadas como ferramenta para o desenvolvimento do profissional? Sim, é possível. Para isso os gestores precisam estar atentos às respostas que seus liderados estão emanando, seja com resultados ou atitudes do profissional. Um grupo, mesmo cansado fisicamente, que festeja com brilho nos olhos os resultados alcançados, está sob uma pressão correta. Já uma equipe que se relaciona bem, mas se sente despreparada e procrastina enfrentar desafios, provavelmente está em um ambiente onde a pressão está sendo aplicada de maneira errada. A pressão no trabalho ainda é vista como vilã? Acredito que sim. O trabalho e a carreira têm um enorme impacto na vida de qualquer pessoa. Em nossa sociedade, a ideia do sucesso profissional representa, ao mesmo tempo, sucesso na vida como um todo. O sucesso na carreira faz com que as pessoas se atirem de cabeça no trabalho, sucumbindo a pressões que vão além dos níveis para um desenvolvimento firme, porém saudável e sustentável a médio e longo prazo. Ainda existem empresas com líderes que consideram a pressão como instrumento de seleção para a permanência de profissionais resistentes e capacitados? Sim, e creio que sempre existirão, porque dependendo dos objetivos acabam sendo extremamente importantes e necessárias. Imagine um hospital em que boa parte de seus profissionais lida diretamente com a saúde física dos pacientes. Um enfermeiro que não está profissionalmente resistente e capacitado para exercer bem o seu papel causará danos provavelmente irreversíveis para os pacientes, ferindo diretamente os objetivos e propósitos daquela instituição. Em tempos de crise, com mercado em queda, contratos sem renovação e concorrência acirrada, o conhecimento desses fatores interfere na forma como o profissional encara a pressão da chefia? Totalmente. E essa interferência pode ter desdobramentos benéficos ou maléficos. Um profissional que procura estudar esses fatores tanto quanto estuda a si próprio, ou seja, investe também em autoconhecimento, seguramente estará mais preparado para receber a pressão. Essa pessoa saberá como encará-la de forma positiva e ajudar o chefe a fazer eventuais ajustes, porque sabe conscientemente o que está acontecendo fora e dentro de si. Já aqueles que por qualquer motivo ignoram ou desconhecem os fatores externos e internos prejudicará a relação com seu chefe e a forma como recebe a pressão. Na maioria das vezes, tenderá a estar fechado a feedbacks que o ajudariam à mudança e ao crescimento profissional. Permanecerá em uma situação de vítima, culpando os outros pelo seu insucesso. Ultimamente muito se fala sobre a valorização dos profissionais resilientes. Há alguma relação entre resiliência e resistência à pressão? Estudos indicam que, no contexto do trabalho humano nas organizações, a resiliência pode explicar a mobilização de recursos psicológicos no desenvolvimento de habilidades sociais para o enfrentamento das rupturas e situações de tensão características da modernidade. Em um ambiente de constante transformação, de crises e oportunidades desafiadoras, o desenvolvimento da resiliência pode ser sim o elemento diferencial entre o enfrentamento da situação que leva ao crescimento psicológico ou a sensação de vitimização, em situações similares de pressão organizacional. A resiliência está associada ao autoconhecimento, portanto, a compreensão da relação da pessoa com a pressão e o trabalho é fator fundamental para o entendimento do enfrentamento das pressões nas organizações. Profissionais das gerações BabyBoomers e X tendem a lidar melhor com a pressão da cobrança? Por quê? Não posso afirmar com total segurança se isso é verdade, mas acredito que alguns fatores possam beneficiar essas gerações em detrimento a outras quando o assunto é lidar melhor com a pressão da cobrança. O principal é o fato das gerações BabyBoomers e X terem nascido e vivido a maior parte de seus anos sob ideias de realização muito calcadas na competitividade. Já as gerações mais recentes, Y e Milleniuns, nasceram, vivem e contribuem muito para o desenvolvimento da colaboração e ajuda mútua. Nesse sentido, ter que ser competitivo para alcançar as conquistas pode ter tornado as gerações mais velhas melhor preparadas para lidar com a pressão e as cobranças. Qual o risco de pressionar o profissional com grandes metas e volumes de trabalho sem oferecer nada em troca? Como a situação deve ser avaliada pelo líder e pelo profissional? O principal risco é perdê-lo, independentemente de ser para o concorrente ou para outro ramo de atividade. Qualquer indivíduo cresce e se desenvolve por meio de motivação. Caso seus motivos para ações, suas necessidades, ou algo em troca, não sejam atendidos, esse profissional seguramente, mais cedo ou mais tarde, ou irá buscá-lo em outro lugar ou permanecerá desmotivado e com resultados abaixo de sua capacidade, prejudicando os objetivos da organização.

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