Estudo: pesquisadora analisa como personagens da Disney influenciam a formação das meninas e até que ponto são referências de gênero
De que forma as princesas que protagonizam as histórias da Disney funcionam como referencial de gênero e exemplo de feminilidade para as meninas? Essa foi a questão que levou a pesquisadora Michele Escoura, da Universidade de São Paulo (USP), a analisar a influência das personagens no imaginário e no cotidiano desse público. A pesquisa Girando entre Princesas – Performances e contornos de gênero em uma etnografia com crianças foi fundamentada em teorias difundidas a partir dos anos 70, cujos referenciais de masculinidade e feminilidade não são pautados pela natureza, mas, sim, apreendidos segundo a socialização a que estamos submetidos.
Michele defende que os gêneros resultam de construções sociais, variando conforme as culturas. No estudo, ela buscou identificar não apenas como as crianças interpretam as princesas, mas também como as fronteiras entre feminilidade e masculinidade são desenhadas no dia a dia, ainda que a vida delas não passe pelas personagens dos contos de fadas.
Metrópole – Como surgiu a ideia da pesquisa?
Michele Escoura – Participei do grupo de estudos Cultura e Gênero da Universidade Estadual de São Paulo Júlio de Mesquita Filho (Unesp). E dei os primeiros passos da pesquisa lá mesmo, quando alguns membros buscaram questionar as desigualdades entre homens e mulheres partindo da ideia de que elas não são determinadas somente pela natureza, mas também criadas simbolicamente pela sociedade. Eles defendiam que as diferenças são produtos de um longo processo social e histórico. Foquei a pesquisa na influência da mídia nessa construção e, rapidamente, as princesas apareceram como importante referencial entre as crianças. Com a professora Heloísa Buarque de Almeida, minha orientadora, fui dando forma a uma iniciação científica sobre a Cinderela, mas também usei Mulan na análise.
E como o trabalho foi conduzido?
Fiz a pesquisa com cerca de 200 crianças na faixa dos 5 anos de idade, matriculadas em três escolas, que participaram como interlocutoras do trabalho. Meu objeto de estudo foi o modo como a feminilidade é aprendida, e os pequenos me ajudaram a responder essa pergunta. Utilizei as informações coletadas em dois níveis: primeiro, analisando os filmes Cinderela e Mulan, suas narrativas e a construção das protagonistas, pensando em diferenças e semelhanças entre ambas; depois, considerando os dados etnográficos, tudo aquilo que observei no cotidiano das crianças.
De que forma a meninada mostrou suas impressões?
Discuti os filmes com cada turma e pedi que desenhassem e comentassem as cenas que mais tinham gostado. A partir desse material, cheguei a alguns resultados em relação às produções. Além disso, nos quatro meses em que passei com as crianças, observei as brincadeiras, as conversas, os produtos que consumiam, as personagens que imitavam e recolhi informações sobre como as fronteiras entre masculinidade e feminilidade eram colocadas por elas no dia a dia.
A senhora concluiu que, da forma como são apresentadas nas histórias, as princesas influenciam as meninas em sua feminilidade?
Quando falo em influência, é do ponto de vista social, do cotidiano. O resultado demonstrou como as crianças leem as histórias e o que entendem das narrativas que, no fundo, são bem familiares e presentes em suas vidas. Em relação à interpretação dos filmes, uma conclusão pode ser obtida sobre os critérios que elas utilizam para definir quem é princesa e quem não é.
Como se definem esses parâmetros?
Em primeiro lugar, para uma mulher ser considerada princesa ela precisa de um príncipe, precisa ter tido sucesso na busca por um par romântico, estar numa relação amorosa e se casar. Em segundo lugar, de acordo com as crianças, princesas necessitam se enquadrar num padrão muito específico de beleza, serem bonitas e elegantes. Esse ideal, porém, está bastante relacionado a critérios opressores, que excluem e desvalorizam a diversidade e somente consideram linda a mulher que seja jovem, magra, de pele branca e cabelos lisos, de preferência loira. Uma menina, por exemplo, desenhou Mulan, que é chinesa, com cabelos pintados de amarelo.
E como esse ideal frequenta o imaginário e o cotidiano das meninas?
Não só no sentido das histórias fantásticas que elas gostam de ver e ouvir, mas também materialmente. É só olhar os quartos das garotas de até 5 anos para notar quantos produtos cor-de-rosa com imagens das princesas há neles.
Elas acreditam que a vida das princesas da Disney é possível? Querem viver como as personagens dos contos de fada?
As princesas servem como referencial para as crianças aprenderem um ideal específico de feminilidade. Um ideal que está atrelado à busca do amor romântico e da beleza e que não é exclusividade delas. Ele é comum a toda a sociedade e essas personagens funcionam como uma tradução desse modelo para os pequenos. A pesquisa mostra que elas são fontes onde as meninas aprendem a buscar a feminilidade idealizada.
Princesas contemporâneas, como Tiana, de A Princesa e o Sapo, que não queria se casar com um príncipe, mas ser dona de um restaurante, e Mulan, uma heroína corajosa e honrada, também influenciam?
Essas personagens representam um importante passo e proporcionam novos referenciais para as crianças, abrem possibilidades. No entanto, ainda carregam o ideal de mulher que, ao final, só se sente completamente feliz quando está junto de seu príncipe. O esforço é, justamente, torná-las tão populares como Cinderela e colocar ao lado delas outras personagens.
Como a mocinha de Valente... Essas produções apontam para um novo caminho?
Sem dúvida, são um avanço, mas temos que avaliar se não é possível avançar mais.
Alguma coisa mudou da geração anterior para a atual no que diz respeito ao que as garotas aprendem com as princesas?
Não sei se houve muita alteração na relação como classificamos quem é princesa, mas, com certeza, estamos avançando sobre o que almejamos para o feminino.
E os pais, como devem se comportar? Deixam as meninas assistirem aos filmes de princesas e fazem suas críticas ao confrontar a realidade ou adotam outra atitude?
Acredito que é importante os pais estarem atentos ao que as crianças assistem. Não é questão de proibir nada, mas de tentar apresentar filmes e livros novos, personagens diferentes, diversificar um pouco e não deixar a criança restrita a uma história ou figura. Isso demanda dos adultos o esforço de prestar atenção às narrativas às quais os filhos têm acesso e se perguntar o que aquilo pode ensinar aos pequenos.