Zeza Amaral

Outra prosa de boa prosa

10/01/2021 às 09:37.
Atualizado em 22/03/2022 às 13:32

Estou cansado de solidão, preso em mim mesmo. Tenho varanda florida, uma companheira e um passarinho belga - a quem chamamos de Levi Ramiro; tivemos outro, um roller, o Dércio Marques. Ambos têm nome de violeiros amigos e não só por isso: é que quando eles começam a cantar acabam torrando o saco de café da boa e santa paciência. E porque lembrei do violeiro Levi Ramiro, fiz uma história para que ele pudesse fazer o que quisesse com ela. Inclusive jogar fora. A história é de paixão de um homem e uma vida de solidão. É o amor de um velho tabaréu por uma mangueira. E que começa e termina assim.

A mangueira e eu

Velha mangueira em solidão na beira da estrada. E sob ela vou traçando velhas prosas, e vou contando cada folha que tem ela. A mula velha pasta ali por perto. Sem arreio nem bridão. Segue quieta ouvindo a nossa prosa e assim se alimenta do capim da emoção.

Velha mula

Velha mangueira

Quanta saudade tenho comigo

Foram muitas as tardes que tivemos

Eu e ela e a mangueira, enquanto ela me prometia paixão.

E veio o tempo que nunca se renega

Ela foi embora e me deixou sozinho

E cá estou com a minha mula velha

A saudade e a sombra de um mangueirão

Tão velho como eu só ganhando e só apenas ganhando os carinhos dos pardais da região.

Cabelos brancos

Muitas estradas poeirentas

Já andei muito por aí

Levando as mulas da saudade atrás de mim.

E vieram também as folhas da velha mangueira

Assim como se fosse velha amiga que era e sempre foi.

E derribei meu chapéu que de sombra não precisava

E segui a minha vida sem nada a pedir e nem precisar

Só o que tinha era o saco sujo onde carregava a minha viola e um jogo de corda de viola pra quando eu chegava em casa, na minha palhoça, onde esquentava um feijão e a saudade daquela mangueira e lembrando das suas folhas que eram os beijos dela...

Hoje nem lembro dela. Nem do nome e nem da cor dos olhos dela

Só lembro da mangueira e passarinhos. E da boa sombra que ela me dava

Como se fosse um carinho

Amor de mangueira

Meu amor, a minha fruta

Minha mula sem ferreiro

É tudo o que tenho na vida

E a minha viola, é pra minha mangueira

Senhora da minha vida

Que me alivia

De uma velha saudade

Pois hoje estou apaixonado

Por uma velha e fiel mangueira.

E só o que falta são as garras de um passarinho e um bico delicado

Só pra lhe dar carinho.

Fim da história.

E já que estou no embalo do embornal das palavras, lembrei de mandar uma outra letra para o velho violeiro. É sobre a vida e a enxada. E vamos em frente que atrás vem gente.

Enxada e um café

Coisa melhor é uma mulher

É a terra semeada

É o milho e a cana

É o santo rezado

Ao pé da cama

Meu Santo Antônio

Meu Santo de devoção

Cuida da companheira, da minha enxada e estradão

Cuida da minha viola

Não deixe que a suas cordas, tão doloridas, se machuquem mais não

E cuide das minhas palmas da mão

Que dela preciso ganhar o meu pão

Ai! Ai! Meu querido Santo Antônio

Faça que eu consiga seguir

Ao lado da companheira

Da moça que bem me trata

E da viola que faz da minha vida

Uma enxada afiada

Levando um verso bonito pra moça

Que cuida de mim

Pois é ela quem capina a minha vida

Deixando a minha viola florida e feliz.

Bom dia, meu raro leitor.

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