ZEZA AMARAL

Os números da vergonha

Zeza Amaral
18/03/2013 às 21:59.
Atualizado em 26/04/2022 às 00:09

A maioria dos leitores costuma iniciar a leitura do jornal pelo obituário. De certa forma, faço a mesma coisa após a última rodada de alguns campeonatos estaduais: leio com atenção quantos torcedores foram aos estádios para prestigiar o seu time. Não sou estatístico, mas tenho certeza que o número de torcedores vem caindo proporcionalmente ao crescimento populacional, assim como aconteceu com o público dos circos, das feirinhas artesanais, dos bailes e dos namoros em praça animada por uma banda municipal.

Sem dúvida, temos público para tudo isso, porém, não temos mais palhaços e acrobatas competentes (e o Circo Le Soleil é o claro exemplo contrário dessa diversão), e o mesmo problema afeta as barracas das feirinhas (a maioria oferecendo produtos industrializados – em Embu das Artes, veja só, tem até folheto turístico falando em “industrianato”), e clube de baile nem “buatinha” faz mais e é uma pena que as nossas valentes bandas de coreto não se adaptaram às novas canções dos novos namorados que, é bom deixar claro, não são mais apenas feitos de mocinhos e mocinhas.

Acho que já disse aqui que a média de torcedores europeus, por partida, chega a 30 mil pagantes. Há quem diga que tal só acontece porque os estádios são confortáveis, modernos e seguros, e os times, ricos. A lógica sussurra que tudo isso – muita torcida, clubes endinheirados e estádios modernos — só foi possível porque o futebol que se pratica lá é bom de se ver até mesmo daqui, do outro lado do Atlântico. Sem contar que os clubes são administrados como empresas e os competentes executivos, dentre outras coisas, têm de cumprir metas; e quem não cumprir ganha um pé no traseiro. Simples como um cinzeiro.

Santos e Guarani levaram 10.265 pagantes à Vila Belmiro; no Morumbi, São Paulo e Oeste conseguiram irritar 7.881 torcedores; e apenas 2.360 penitentes foram rezar pela alma do futebol jogado entre Palmeiras e São Caetano — sem contar o escriba aqui que viu o jogo em chuvisco de parabólica, quase ao sopé da Mantiqueira — onde até hoje os sinais de operadoras de celulares ainda não chegaram — apesar de todo o avanço tecnológico, quase diário, do setor. E o Flamengo, a quem se atribue a segunda maior torcida do país? Levou apenas 1.413 torcedores para vê-lo perder, de virada, para o espetacular Resende: 3 a 2.

Mas fica claro que a falta de torcedores nos estádios se deve ao baixo futebol apresentado pelas grandes esquipes brasileiras. Um jogador vascaíno chegou mesmo a dizer que o maior problema que o seu time vem enfrentando é... a bola! Tem razão o rapaz: seu time perdeu para o temido Volta Redonda por um a zero, em pleno São Januário. Tentei descobrir o número de torcedores presente ao estádio. Em vão. Soube apenas que foi menor que Flamengo e Resende. Será que não deram o número de vergonha? Ou foi por incompetência mesmo? A lógica berra que foi por tudo isso junto.

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