editorial

Reflexão sobre a abolição da escravatura

Do Correio Popular
12/05/2022 às 20:19.
Atualizado em 13/05/2022 às 10:21

Marco Antônio: “Durante toda a minha vida convivi com o racismo” (Ricardo Lima)

Há 134 anos, em 13 de maio de 1888, a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea, que aboliu a escravidão no Brasil. Coube à herdeira do trono brasileiro, que exercia interinamente o governo no lugar de seu pai, Pedro II, que estava viajando, decretar o fim de três séculos de escravatura no país. Com um texto suscinto, a lei libertou cerca de 700 mil escravos, sem qualquer tipo de indenização a seus antigos donos e nenhuma iniciativa para integrar os ex-escravos à sociedade. Assim, esse grupo manteve-se marginalizado, pois não tinha educação e nem oportunidades dignas de trabalho, sendo submetido a aceitar ofícios degradantes, com baixos salários para sobreviver. Concomitantemente, eles tiveram de disputar vagas de trabalho nas lavouras com milhões de imigrantes europeus - a imensa maioria italiana - que vieram ao Brasil para, justamente, ocupar o lugar dos ex-escravos, que foram "libertados" dessa condição, por conta da Lei Áurea.

Essa disputa entre ex-escravos, de descendência afro-brasileira, com os colonos italianos, alemães, espanhóis, poloneses, japoneses e de outras etnias brancas e asiáticas, acirrou o fenômeno do racismo no país. No período colonial, durante a escravidão, esse sentimento era diverso, dado que o negro não era considerado um ser humano, mas somente uma mercadoria, um bem de seu proprietário, que poderia ser um fazendeiro, um servidor público ou até mesmo um cidadão comum. Historiadores pontuam que o sentimento de ódio pela cor da pele tornou-se mais intenso após a libertação dos escravos, quando esses passaram a disputar o trabalho nas lavouras diretamente com o imigrante branco.

Passados mais de 100 anos, a população negra não comemora o dia da abolição. E com razão: ao serem libertados, nenhuma medida para garantir uma sobrevivência digna a essa população sequestrada no continente africano, escravizada durante três séculos, libertada e jogada nas ruas com a roupa do corpo e nada mais, foi pensada ou planejada.

Nesse contexto, surge a mulher negra, que sofre duplamente o preconceito racial e a própria condição de gênero, que se estende a todas as mulheres de classes sociais vulneráveis. Tanto que o prefeito Dário Saadi sugeriu nesta quinta-feira a criação de um observatório de violência contra a mulher no município. O anúncio ocorreu na abertura do seminário "Todos contra o feminicídio", que conta com a participação de especialistas das universidades e autoridades relacionadas ao enfrentamento da violência doméstica. É tempo de reflexão, mas principalmente de ação, no sentido de construir uma sociedade mais justa, inclusiva e fraterna.
 

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