Cláudia Antonelli, psicanalista (DIVULGAÇÃO)
Ao final do mês passado tive a oportunidade de ir ao mar. Levando comigo todos os cuidados requeridos pela pandemia: caminhadas com distanciamento (naquela vasta faixa de areia era possível), com máscara, mas de algodão mais fino para poder respirar e sentir o cheiro da maresia no final da tarde. Além da praia, ia quase somente ao supermercado, assim como em Campinas. Fazia já algum tempo desde a última vez que estivera na praia. Uma grande onda de lembranças e associações relacionadas ao mar, me assolou. Lembrei-me que eu mesma havia entrado naquela água, a água do mar, pela primeira vez quando criança, como costuma ser. E lá estava ele, o oceano vindo de tão longe, tocando aquela singela beira de continente, aquela areia, ele tão igual, incansável e imponente – como se o tempo para ele não passasse; enquanto para mim, pequeno ser humano, estava tão diferente de antes. Mas o tempo da minha vida ainda era pouco. Enquanto olhava sua água se perder de vista, lembrava-me de alguns fatos, acontecidos sobre os mares e oceanos. Como tantas imigrações cruzando-os, levando tanta gente de lá para cá e de cá para lá ao longo dos séculos, como a primeira chegada de embarcações aqui no Brasil, cinco séculos atrás, por este mesmo Oceano Atlântico. E quantas outras viagens pelos oceanos, com partidas e chegadas em inúmeros portos e cais do mundo. Muitos poetas e escritores se inspiram por estes momentos, encontros, desencontros e reencontros à beira-mar: Manuel Alegre, Fernando Pessoa, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, até mesmo Allan Poe e o grande Shakespeare, em sua grande ilha britânica, deslumbrou-se com o mar. A lista é longa. A começar pelos clássicos que atravessaram o mar por anos a fio, como os “Lusíadas”de Camões; mas antes ainda, a extensa e intensa “Ilíada” de Homero através de mares e batalhas. Albert Camus em seu “Do Mar Bem Perto”: "Cresci no mar e a pobreza me foi faustosa; depois, quando perdi o mar, todos os luxos passaram a ter para mim aparência opaca e a miséria tornou-se intolerável." Sem me esquecer dos versos de Paulinho da Viola em “Timoneiro”: "Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar". Mas através do mar também houve exílios, guerras, o histórico dia D. Me atravessa ainda o pensamento neste lado escuro do mar, que também houve muitas mortes, nele, por naufrágios; mas também por homicídios e suicídios. Há muitas histórias no fundo do mar. Restos de navios, objetos, há toda uma arqueologia subaquática: pesquisando-se sobre o assunto, descobre-se que vez ou outras encontra-se alguma embarcação naufragada há 200, 300, 400 ou até mesmo 500 anos, quando da chegada de Cabral (quem sabe até mesmo a embarcação de algum de seus colegas navegadores). Me surpreendo ainda mais ao descobrir que a mais antiga até hoje, no entanto, data de mais de 2.400 anos: encontrada no Mar Negro, um pequeno navio intacto, do apogeu da civilização grega. Dou-me conta, siderada por sua vastidão, de que não estamos tão distantes assim de nosso passado; pois os oceanos ainda conservam os objetos destas histórias. Alguns optam por viver sobre as águas, de mala e cuia, tornando-o o lugar de seus lares. Às vezes atracam em algum cais, mas geralmente se soltam e se deslocam, permanecendo em alto-mar. Afinal há também muita vida no mar. Muita fauna e muita flora. O mundo abaixo da superfície é todo um mundo à parte. Às vezes nos esquecemos de que há bastante tempo, nosso planeta fora todo coberto por oceanos: um verdadeiro "planeta água", como na música. Nós, intrusos numa terra que um dia se contentou em ser água, viemos muito depois. As ondas vão e vem, agora tranquilamente. Gosto de olhar a linha que separa o azul da água do azul do céu; me parece revitalizante. Vejo um albatroz de passagem, um barco distante, escuto uma onda que quebra um pouco repentina, já no raso da areia. Meu pensamento retorna ao chão do continente, de nosso estranho momento. Num rápido retorno ao presente, reflito por fim: somente espero que, quando houver o momento pós-pandêmico (ou a transição para ele) não nos mantenhamos ilhados. O que tenho escutado ultimamente, é a dificuldade de alguns, neste momento, do retorno à vida em comum, compartilhada - ao contrário do que foi no início. Para alguns, se isolar, se fechar, se manter resguardado, parece ter encontrado um lugar cativo. Sabemos, é verdade, que um dos maiores desafios é a vida compartilhada. Os horários, os deslocamentos, o trânsito, "os outros". "O inferno são os outros", disse Sartre. Espero que não seja assim, apesar de tudo. Que não precisemos, por fim, ao mantermo-nos isolados em nosso dia a dia para evitar o vírus – ou os outros -, ter que enviar garrafas ao mar, como já foi um dia. Cláudia Antonelli é intérprete e psicanalista.