NELSON TRAVNIK

Fui quem tu és, serás como eu sou

03/11/2020 às 09:05.
Atualizado em 27/03/2022 às 18:21
Nelson Travnik, astrônomo, Campinas (Cedoc)

Nelson Travnik, astrônomo, Campinas (Cedoc)

A frase do título consta no portal do Cemitério Central de Itaúna (MG) e nos leva a refletir sobre a efemeridade da vida. Como sempre, finados é um dia de saudades, lembranças, reflexão e pensar no quanto poderíamos ter sido melhores com nossos familiares. A palavra cemitério vem do grego “koimeterion” que significa ‘lugar onde dormir’. A morte atinge todos os seres viventes. Logo ao nascer, está programado para morrer.O desgaste físico é inevitável e o tempo determina inexoravelmente a duração da nossa existência. Ninguém até agora conseguiu escapar da velhice que surge gradativamente como uma neblina que aparece pela manhã e vai se dissipando. Se por um lado a ciência vem descortinando o véu do fenômeno da vida biológica, ainda continuam as perguntas sobre se algo sobrevive além da morte física ou, que tudo se reduz ao cemitério ou ao crematório. É um tema que como nunca está no imaginário popular, atrai atenção e fascínio de multidões. Outrora no domínio da filosofia, as religiões dela se ocuparam para impor suas necessidades e domínio. Tudo, contudo, passou a mudar a partir dos séculos XIX e XX vendo florescer novas doutrinas e crenças que descortinaram o véu do obscurantismo teológico imposto aos fiéis. Com Darwin terminou o homem de barro e a mulher da costela. Com Galileu, a Terra como centro do universo e da criação. Com Giordano Bruno e Camille Flammarion, nosso isolamento cósmico. O mundo atual vê a ciência empenhada cada vez mais em aprofundar conhecimentos sobre a vida além da vida. Filmes, documentários na TV, livros e revistas monopolizam o interesse e até universidades encontram-se envolvidas no tema. Apesar disso, pesquisas atuais mostram que 3,5% das pessoas são ateus. Para eles, o que sobrevive após o último suspiro é o nada, o vazio. Para o pesquisador Alexander Almeida, diretor do Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde da Universidade Federal de Juiz de Fora, MG, “o materialismo não é uma hipótese, não é um fato cientificamente comprovado como muitos acreditam”. Ateus e materialistas não aceitam sair de um plano temporal para viver noutro com a entrada no túnel espaço-tempo que irá transportar a outra dimensão. Nela não há possibilidade de escolha indo ao lugar que for merecedor. Os previdentes, melhor preparados , estão aptos a entender e vislumbrar os cenários que se abrem a sua frente. Morte, viagem de volta a vida . Na madrugada do dia 27/01/2013, na Boate Kiss em Santa Maria (RS), uma tragédia abalou o País e o mundo: 242 pessoas, a maioria jovens universitários perderam a vida num fogaréu surgido repentinamente sem que a boate tivesse suficientes saidas de emergência. 680 pessoas algumas muito feridas, conseguiram sobrevier. O desespero e sofrimentos das famílias, algumas perdendo seus dois únicos filhos, levou os pais a depressão, descontrole emocional precisando de acompanhamento médico e atendimento de grupos religiosos. Enquanto esses se concentraram somente em orações submetendo tudo como ‘vontade de Deus’, grupos espíritas além de esclarecimentos sobre a vida espiritual, aventaram a possibilidade de ser aberto um canal, um portal, para um contato mediúnico com os jovens. Saber como estão seria a mais consoladora mensagem de suas vidas, o mais lenitivo dos remédios. 14 famílias viram-se envolvidas e propuseram a viajar para diversos centros espíritas como os de Uberaba e cidades vizinhas como Sacramento e Araxá, MG. Em Uberaba principalmente, centro de extraordinária irradiação espiritual, foram abertos os canais, o portal para a maioria das cartas e mensagens dos jovens. 14 psicografias, algumas mais de uma vez, todas com o estilo da caligrafia, assinatura e contendo dados e particularidades que só os pais sabiam. Não só em Uberaba, mas outras mensagens também foram recebidas em outros centros espíritas do País. Alguns relatos falam do encontro deles com familiares já falecidos, principalmente avós e sempre com muita alegria, carinho e com os nomes como eram tratados. Todos narram os momentos de sofrimento que antecederam seu desligamento do corpo físico e a paz e tranqüilidade que sobreveio. Muitos falam do sofrimento que compartilharam com os pais e que choraram com eles. Note-se que as cartas e mensagens foram recebidas por médiuns a grande distância de Santa Maria conferindo assim indubitável autenticidade das mesmas. Todos falam que estão vivos. Todos esse fatos resumidamente expostos, podem ser encontrados no livro Nossa nova caminhada da jornalista Lidiana Betega. No livro encontra-se fotos dos jovens. Por fim, o recado dessas famílias é que as pessoas se unam através da fé e que também busquem a mesma paz e consolo que elas adquiriram través das cartas e mensagens. A saudade existe nesses dois mundos e que passemos a compreender que estamos aqui para aprender e evoluir espiritualmente cumprindo nossa missão da melhor forma para que, ao partirmos, todos chorem e só nós sorrimos.A vida continua linda, bela e prossegue triunfante do outro lado das lápides frias, tantas vezes umedecidas pelas lágrimas saudosas dos afetos que na Terra ficaram. Nelson Travnik é astrônomo e membro titular da Sociedade Astronômica da França.

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