EDITORIAL

De Aristóteles a Neruda, uma visão poética

Do Correio Popular
19/11/2023 às 12:14.
Atualizado em 19/11/2023 às 12:14
Para o filósofo, a amizade baseada na virtude é a verdadeira. Porém, ela somente poderá se estabelecer entre duas pessoas virtuosas (Divulgação)

Para o filósofo, a amizade baseada na virtude é a verdadeira. Porém, ela somente poderá se estabelecer entre duas pessoas virtuosas (Divulgação)

A relação entre verdade e percepção é intrínseca à essência poética. No epicentro dessa reflexão, encontramos as visões de Aristóteles, o filósofo grego cuja "Poética" delineou princípios fundamentais da mimesis poética, e de Pablo Neruda, o poeta chileno cujas palavras mergulham nas profundezas da experiência humana. Aristóteles estabeleceu as bases para a compreensão da poesia como imitação da realidade. A verdade poética, para ele, reside na habilidade do poeta em representar a natureza humana e o mundo de maneira verossímil. A poesia, para Aristóteles, é uma forma elevada de conhecimento, capturando a essência das coisas através de uma representação artística que ressoa com a verdade interior.

Contudo, ao trazer o foco para o século XX, encontramos em Pablo Neruda uma exploração mais subjetiva e visceral da verdade na poesia. Em obras como "Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada", Neruda não apenas imortaliza a realidade objetiva, mas transcende para a verdade subjetiva da emoção. Se Aristóteles vislumbrava a poesia como espelho da natureza, Neruda a concebe como um portal para as profundezas da alma humana. Neruda desafia a ideia de uma verdade objetiva e universal, preferindo mergulhar na verdade da experiência pessoal. Em seus versos, a verdade é moldada pela paixão, pela intensidade das emoções que ecoam nas linhas.

Aristóteles e Neruda convergem na crença de que a poesia transcende a mera representação literal. Para ambos, a verdade poética está enraizada na habilidade do poeta de evocar uma resposta emocional e intelectual do leitor. No entanto, divergem na fonte dessa verdade. Enquanto Aristóteles a encontra na imitação fiel da realidade externa, Neruda a descobre na expressão autêntica das emoções internas. A verdade na poesia, portanto, é um fenômeno complexo e multifacetado. É a verdade da natureza e a verdade do eu. É a verdade imortalizada em formas estéticas e a verdade que pulsa nas veias da emoção humana. A poesia, como uma expressão artística, desafia fronteiras e oferece uma visão única do que é verdadeiro, tanto no contexto de Aristóteles quanto na visão mais subjetiva e pessoal de Neruda.

Essa análise comparativa entre Aristóteles e Neruda destaca não apenas a evolução do conceito de verdade na poesia, mas também a riqueza e a diversidade de interpretações que essa forma de expressão artística pode oferecer ao explorar as complexidades da condição humana. O diálogo entre esses dois gigantes literários revela que a verdade na poesia é tão variada quanto as nuances do próprio ser. Bom domingo!

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