JORGE MASSAROLO

O sino de Tapir

Jorge Massarolo
02/03/2013 às 05:01.
Atualizado em 26/04/2022 às 02:32
ig - Jorge Massarolo (CEDOC)

ig - Jorge Massarolo (CEDOC)

O “vecchio taliano” não entendeu nada. Ele acordou com o som do sino da igreja, mas como foi só uma badalada, achou que estava sonhando e voltou para debaixo das cobertas naquela noite gelada. Antes de voltar a dormir, ainda comentou com a mulher:

— Vecchia, tamo atrasado para a missa.

Ela não respondeu, pois estava dormindo, mas ele também não percebeu e caiu no sono profundo.

Algumas horas depois, antes de o galo cantar, o casal foi acordado com os gritos desesperados do padre. Assustados, pularam da cama, colocaram um agasalho e foram ver o que acontecia.

Exasperado, o padre contou que o sino da capela, com exatos 305 quilos de bronze puro, havia desaparecido na madrugada. Logo a comunidade toda de Linha Tapir, uma colônia de italianos no interior do Rio Grande do Sul, comentava indignada o roubo.

Ninguém entendeu como os ladrões tiraram o pesado sino da torre de quatro metros, ao lado da igreja, sem causar barulho, afinal, o silêncio na comunidade é tão profundo que dá até para ouvir a raposa comendo uva no parreiral.

Foi então que o “vecchio taliano” percebeu que não havia sonhado.

— Porco cane, Dio Santo — blasfemou ele —, eu ouvi o sino tocar, mas achei que era sonho.

Irado, o padre pensou em dar um sermão no italiano por não ter olhado pela janela para ver o que acontecia, mas ficou quieto, pois ele mora ao lado da igreja e também deveria ter ouvido o badalar na madrugada. Por fim, foi chamado o delegado da cidade.

O policial ficou imaginando o esforço dos ladrões para carregar o sino, com todo o cuidado para que o badalo não tocasse. Vai que alguém desperta meio desorientado, coloca a gravata, o chapéu e sai para a missa de madrugada achando que é domingo? Não conteve um pequeno riso com a cena.

A princípio, pareceu uma brincadeira de um grupo de amigos ou então resultado de alguma aposta entre fanfarrões. Mas não foi. O sino sumiu e ninguém mais teve notícias. O que aconteceu em Tapir é um reflexo do lucrativo negócio de comercializar cobre. Aqui em Campinas, o roubo de fios elétricos e cabos telefônicos ou de TV a cabo tornou-se rotina. Bairros inteiros ficam sem energia elétrica ou comunicação devido a esse comércio ilegal.

Mas, voltando a Tapir, a comunidade ficou desconsolada, pois o sino é para eles uma forte referência religiosa e de costumes. O badalar marca o tempo, encontros, orações, sagrações, festividades e também avisos de tragédias. É um aglutinador da comunidade.

E agora que os ladrões descobriram que é fácil carregar sino de bronze nas igrejas das colônias, as demais paróquias da região vão redobrar o cuidado. Diante da ousadia da malandragem, o “vecchio taliano” resolveu dormir com um olho aberto, pois nem os santos conseguem proteger seus patrimônios.

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