A pobreza e a riqueza são dois estados absolutamente antagônicos, mas, de certa forma, irmãos. O paradoxo é apenas aparente, pois, em certas narrativas, daquelas em que a vida imita a arte, os dois extremos da condição humana trafegam como realidades praticamente inconsúteis. Dos ricos recentes que as circunstâncias da vida trazem à tona, me atrevo a afirmar que um dos mais fascinantemente literários é o nunca assaz louvado Eike Batista. Primeiro porque nem faz muito tempo a revista "Forbes" chegou a especular que não seria de admirar se, em poucos anos, ele se tornasse o homem mais rico do mundo. Segundo porque chegou ao noticiário não pelo seu potencial de crescimento nas finanças, sim porque, em determinado ponto, garfou e depois casou com a (ainda) estonteante Luma de Oliveira. Não foram, assim, os muitos dólares que catapultaram o rapaz para o noticiário. Sim a formidável beldade que, tendo posado nua para algumas revistas, alimentou fantasias de um ou dois Maracanãs lotados.Pois ultimamente o bilionário começou a desmoronar, levando à perplexidades os que acompanham sua saga. A pergunta que mais se tem ouvido ao longo de muitos meses acabou por ser só uma: como é que um sujeito com tanta grana começa, de repente, a ficar pobre?Está claro que, neste caso, se faz necessário abrir um parêntesis: Eike ainda está muito longe, e talvez nem chegue a tanto, de ir se posicionar na esquina de Conceição com Barão de Jaguara para estender a mão à caridade pública. Porém, para quem tinha tanto dinheiro, a situação conduz a que, pelo menos simbolicamente, possamos ver o Midas brasileiro deste século quase com a imagem medonha do pedinte. A quem o veterano atleta campeoníssimo Carlos Mossa, a caminho do Café Regina, poderia atirar algumas moedas ao colo...Bom, voltemos à pergunta que não quer calar: como um sujeito tão rico começa, de repente, a ficar pobre? As análises podem se estender ao destrinchamento das variáveis que permeiam os grandes mercados, encharcadas de dados que gotejam desde os compêndios de Adam Smith, até as fidúcias do que pensa dona Janet Yellen, a futura nova presidente do Banco Central americano em substituição a Ben Bernanke. Ou, quem sabe, alcançam as preocupações econômicas da alemã Ângela Merkel, sorvidas em Rosa de Luxemburgo, John Maynard Keynes e Joseph Schumpeter.Nossa imprensa tem esplêndidos analistas econômicos, entre os quais Celso Ming, do Estadão, Carlos Alberto Sardenberg, que escreve para vários lugares, Giuliano Guadalini, da "Veja", e Hélio Pascoal, colega deste Correio, entre muitos outros. Certamente cada um poderia explicar muito melhor do que eu as causas da derrocada econômica de Eike. Todavia, jamais conseguiriam tirar da minha cabeça aquela que aponto como a real causa da queda do personagem em questão.Para mim os maus ventos sobre as finanças de Eike Batista não começaram a soprar agora. E sou obrigado a reconhecer que, mesmo combalido pelo tremendo safanão que levou, o bilionário até que resistiu bravamente.Sempre que se fala em grandes desastres em qualquer área, não é incomum recorrer ao acontecido no longínquo ano de 1912 quando, prestes a terminar o dia 14 de abril naufragou, nas águas geladas do Atlântico Norte, o navio inglês Titanic. Sobre o fato a pergunta que não cala até hoje é como um colosso de 259 metros de comprimento deslocando 46 mil toneladas, foi ao fundo após choque com um mixuruca iceberg. Pois com o nosso milionário cuja grana está a escapar por um grande rombo, ocorreu o mesmo.Os analistas econômicos, como já disse, podem apresentar mil razões para justificar o fato. Porém, tenho a ousadia de não concordar com nenhum deles. O que, de resto, expus em crônica aqui mesmo neste espaço quando escrevi mais ou menos isto: se eu tivesse arrancada de minha vida uma deusa como a Luma de Oliveira, certamente acabaria meus dias maltrapilho em algum desvão do Viaduto Cury com um cão sarnento a lamber minha cara. Apesar do efeito tardio, simbolicamente, não é nada diferente o que agora ocorre com o ex-mais-rico-do-Brasil. Que viu a beldade que com ele dividia a alcova abandoná-lo por um bombeiro que ganhava R$ 1.238,25 por mês. Ninguém sai inteiro de uma dessas. A esquina da Conceição com Barão de Jaguara arrisca receber Eike Batista.