JOSÉ ERNESTO

O sabonete milagroso

José Ernesto dos Santos
23/03/2013 às 07:00.
Atualizado em 25/04/2022 às 23:28

Perder o excesso de peso, de preferência com métodos simples, rápidos e mágicos, é o grande sonho da maioria das pessoas que se preocupam com a saúde ou que valorizam os padrões atuais de beleza. Pura fantasia, pois eles não existem. Nas quase quatro décadas em que atendi pessoas obesas no Hospital das Clínicas, vivi inúmeros episódios que ilustram esse comportamento, mas nenhum deles se compara ao caso do sabonete que emagrece.

Tudo começou numa manhã, como outra qualquer, quando tomei o elevador para ir ao sexto andar, onde é a secretaria do Departamento de Clínica Médica. Nele encontro dois amigos médicos, e um deles me pareceu ter perdido bastante peso. Eu lhe cumprimentei festivamente: “Parabéns, veja o que uma boa alimentação e muito tênis podem fazer por nos”. O colega ao lado, sempre atento a uma boa brincadeira, acrescentou: ”dieta, exercício e o sabonete para emagrecer que você deu para ele”.

Essa frase bastou para que as poucas pessoas presentes no elevador divulgassem a notícia: há um sabonete que faz emagrecer sendo pesquisado e desenvolvido no HC. Desde então (esse fato ocorreu em 1983), sou abordado por pessoas querendo usar o tal sabonete.

Foi muito curioso, pois os colegas autores da brincadeira, com humor aguçado, ampliaram progressivamente a fantasia dos candidatos, e quando questionados sobre a negação do fato que sempre recebiam quando me abordavam, eles diziam: “ele está escondendo, pois é um projeto muito secreto, ainda em fase experimental”.

Com esse apelo, as pessoas, mais se interessavam e me paravam frequentemente nos corredores do hospital, propondo-se a servir de cobaias para o projeto inédito. Em outras oportunidades os dois colegas (hoje hematologistas de renome em nossa cidade) “formularam hipóteses” para explicar como funcionaria o componente magico do sabonete milagroso: "o sabonete tem um substância que entra na mitocôndria das células e acelera o gasto de gorduras para fins energéticos. Ela desacopla a cadeia respiratória e isso leva ao consumo de imensa quantidade de gordura”.

Esse mecanismo de funcionamento, embora passados mais de 30 anos, continua sendo absurdo (impossível prever-se o amanhã), tornava o milagre muito mais próximo de uma grande descoberta científica e fazia aumentar o interesse em experimentar o novo milagre da ciência brasileira.

Em outra ocasião recebi telefonema de uma farmácia próxima ao campus da USP, perguntando onde encontrar o produto, pois vários clientes procuravam pelo “sabonete que emagrece”. Passado tanto tempo não é raro eu ainda ser perguntado sobre a veracidade do sabonete que emagrece. Os milagres quando mais negados, mais atraem a curiosidade.

Esse fato me faz refletir sobre a fantasia da busca de milagres para resolver problemas complexos. Ganhamos peso porque vivemos num ambiente obesogênico. Ingerimos quantidade cada vez maior de alimentos. Os alimentos que ingerimos são cada vez mais processados. Somos também vitimas da automação. Tudo é feito com aperto de botões. Além disso, estamos perdendo a capacidade de sentir saciedade, pois comemos em todas as situações.

Comemos quando estamos alegres ou tristes, satisfeitos ou não com a vida. Recentemente fui a um velório, prestar uma ultima homenagem a um amigo que se ia, e qual a surpresa ao ver que até nos velórios existe um self-service com pães de queijo, bolachas de vários tipos, sucos, refrigerantes e obviamente café à disposição dos visitantes, que embora tristes podem mastigar à vontade (ou sem vontade).

Métodos milagrosos, análogos ao do suposto sabonete, são veiculados diariamente pela mídia. Não foi até então descoberto um que dê resultados, sem levarmos em consideração que alguns deles são perigosos. Para perder peso (e mantê-lo em valores de menor risco para a saúde) faz-se necessário um trabalho sério, profundo e contínuo.

Quanto aos sabonetes, eles continuam sendo de uso exclusivo para a nossa higiene corporal. Temos hoje no mercado alguns produtos maravilhosos, mas usados para o fim que se destinam. Não, eles não emagrecem.

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