José Bonifácio, o Boni, um dos fotógrafos mais antigos de Piracicaba abre o coração

Bonifácio foi homenageado durante a comemoração dos 110 anos da Guarda Civil Municipal de Piracicaba (Del Rodrigues)
Para ele, literalmente, uma imagem vale mais do que mil palavras. Aos 73 anos, o fotógrafo e membro da GC (Guarda Civil) de Piracicaba, José Bonifácio, o Boni, se orgulha por ter pautado sua vida nos últimos 45 anos nas lentes de câmeras fotográficas. Do tempo das antigas máquinas de filmes, ele diz que acompanhou a evolução da fotografia até a era digital e que não se imagina em outra profissão. “A fotografia é minha vida e minha maior paixão. É um dom que Deus me deu. Hoje, eu não consigo imaginar minha vida de outra forma”.
Esta semana, Boni foi homenageado na GC pelos serviços prestados durante tantos anos à corporação. Ele também foi responsável pela organização da exposição de fotos com imagens raras. Além da profissão, foi reconhecido também como pesquisador e historiador.
Bonifácio começou a trabalhar em 1968 na GC. Era fotógrafo de eventos quando entrou na guarda, mas recebeu um convite da Polícia Técnica de Piracicaba para atuar nesta área, já que precisavam de um fotógrafo e o mercado estava escasso de profissionais. Nessa época, teve o apoio do fotógrafo Joaquim Ferraz, o Quincas, que se tornou um grande amigo e é considerado por ele como um professor.
O convite para entrar para a Polícia Técnica (área de fotografia), surgiu em 1985. Ele confessa que foi a melhor coisa que podia ter acontecido na sua vida. “Aprendi muito e devo tudo a esse trabalho que me projetou profissionalmente. Sou muito querido pela entidade”, contou. Hoje, apesar de aposentado, ainda atua na GC. “Criei o acervo de fotos da corporação e todo ano faço exposições”. O capitão Silas Romualdo destacou na cerimônia da GC que Boni é um exemplo de perseverança e de amor à profissão. “Ele é aposentado e nem precisaria dar expediente, mas faz questão de estar aqui e de mostrar o seu carinho e dedicação à guarda. Ele faz parte desta história”.
Além das homenagens na festa de aniversário de 110 anos da GC, Boni também foi homenageado este ano pela Sociedade Brasileira de Heráldica e Humanística, que o congratulou comendador, integrante da Ordem do Mérito Cívico e Cultural, pela portaria 153, de 1965 do Ministério da Educação e Cultura. O título (número 3.050), segundo a instituição, é destinado somente a pessoas que prestaram serviços importantes à sociedade. Entre eles, estão o ex-governador de São Paulo, Mário Covas, e o ex-técnico da Seleção Brasileira de futebol, Mário Jorge Lobo Zagallo. “Nem sei se mereço tantas honras, mas tenho que dividir tudo isso com vocês que me ajudaram a construir essa história”, diz.
DIFICULDADES
Boni relembra das dificuldades que teve durante o trabalho na polícia, causadas em grande parte, pela falta de recursos, como pouca ou nenhuma iluminação e também a inexistência de flashes. Ele conta que para auxiliar o trabalho quando havia algum acidente na estrada, por exemplo, era necessário parar alguns veículos na pista e pedir para que eles iluminassem o local. “Por incrível que pareça, as fotos ficavam ótimas e saíam bem melhores do que se tivesse uma iluminação montada. Com o tempo, foram surgindo os flashes e facilitando a fotografia para todos nós, mas não me esqueço das nossas improvisações. No final, dava tudo certo”.
Ele diz que os momentos que mais o marcaram, infelizmente, foram os que teve de registrar acidentes graves ou quando envolviam morte de crianças. “Por mais duro que fosse, eu aprendi que tinha de ter um certo distanciamento para conseguir cumprir com o meu trabalho de fotógrafo. Naquela hora, por mais duro que fosse prá mim, eu tinha que congelar o sentimento e fazer a foto, mas depois do trabalho realizado vinha a emoção, pois afinal sou um ser humano como qualquer outro ” .
A queda de uma aeronave em Santa Maria da Serra foi o momento mais difícil de sua carreira como fotógrafo. Boni conta que o local onde caiu a aeronave era de difícil acesso e que toda equipe de peritos necessitou da ajuda do Corpo de Bombeiros para escalar a área onde estavam as vítimas com cordas. “Os corpos tiveram que ser retirados naqueles caixões de zinco. Esse, sem dúvida, foi um trabalho muito difícil de ser concretizado porque ver aquelas pessoas sendo transportadas daquele jeito foi chocante”.
Por outro lado, fotografar coisas diferentes, principalmente, paisagens, ainda o fascina. Ele conta que um dos seus lugares preferidos em Piracicaba é o Engenho Central. “Posso voltar um milhão de vezes ali que sempre sairei com uma imagem diferente. É um lugar mágico e encantador, que dá muitas possibilidades para os fotógrafos”. Boni faz questão de dar dicas aos mais novos que estão ingressando na carreira apontando que, apesar de todos os avanços e modernidade, que a fotografia necessita mais do que nunca de um ingrediente que não é possível comprar: a sensibilidade. “Se você não tiver isso não tem como captar aquela imagem que deseja. A fotografia requer paciência. Muitas vezes para fazer uma boa foto é preciso esperar o momento ideal. Não é simplesmente disparar o automático. Tem que ter um olhar diferenciado”.