JOSÉ ERNESTO

O ladrão "high tech"

José Ernesto dos Santos
28/02/2013 às 18:16.
Atualizado em 26/04/2022 às 02:54

A vida de estudante universitário não é fácil. Muitos até acham o contrário, mas realmente é muito sacrificada. Essa afirmação é particularmente verdadeira para os estudantes de medicina. O curso médico, com seis anos de duração, é feito em tempo integral e exige dedicação, entusiasmo e convivência diária com as dores do ser humano.

A vida do João não era diferente. Veio do interior de Minas, mora em uma república com mais quatro colegas, longe da família e da namorada. Têm aulas em tempo integral, alguns plantões que já começam aparecer e a preocupação de um novo “vestibular” no final sexto ano para conseguir uma vaga na residência médica.

Aquela segunda-feira tinha sido em especial cansativa. Levantou-se cedo, café da manhã corrido (café de república!), aula das sete ao meio dia, almoço no “bandejão” da faculdade (sempre as mesmas comidas e diferentes comidas com o mesmo gosto!), mais aula das duas as seis, com um professor exigente e, por que não dizer, chato.

Termina a aula, sete horas, e ele voltava cansado com a perspectiva de ainda ter de estudar à noite. Preparar a historia clinica que discutirá com o professor exigente o dia seguinte. Quando desce do carro, em frente de sua casa, um vulto se aproxima. Um pivete com a mão ameaçadora na cintura e anuncia:

- Oh, cara! Vai passando a grana e o celular se não eu te espeto!

A vontade foi de reagir, porque o pivete era franzino e ele tinha feito vários anos de judô. Mas passou por sua memória inúmeras reportagens da TV mostrando os resultados desastrosos desse tipo de reação. Por segundos pensou ainda na família, na namorada, enfim na vida. Enfiou a mão na carteira e entregou todo o dinheiro.

- Pô mano! Só trinta pila.

- É o que tenho (alias era o que gastava por semana para almoçar na faculdade).

- Passa o celular!

- Posso retirar pelo menos o chip. Você não vai usá-lo.

- Passa logo! Passa logo!

Abriu cuidadosamente o celular, retirou o chip e passou pesarosamente ao pivete. Afinal era seu celular havia muito tempo. O garoto pegou o celular examinou cuidadosamente e com raiva exclamou:

- Pô mano! Esse não tira fotografia, nem manda mensagem, nem dá para ver um filminho?

- Não. Não faz nada disso.

O pivete examinou mais uma vez cuidadosamente o celular, pensou por alguns segundos e o jogou de volta à sua mão dizendo:

- Esse eu não quero!

Imediatamente saiu correndo e desapareceu nas ruelas mal iluminadas do bairro. João entrou em casa, sentou-se no sofá, tomou um copo de água, esperou as pernas se reequilibrarem. Aquela noite não conseguiu estudar. Quanto ao celular, continua funcionando bem. Como telefone somente.

José Ernesto dos Santos é médico e professor da FMRP-USP

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