O avô babão estava na sala de parto. Que emoção! Logo eu que recebi centenas de recém-nascidos
Na última quinta-feira (16) nasceu o Enzo, irmão do Bruno, primo da Melissa, chega o príncipe do lar (significado de Enzo), quase quatro quilos e cinquenta centímetros, um garotão! O avô babão estava na sala de parto. Que emoção! Logo eu que recebi centenas de recém-nascidos, um ato quase automático: recebe das mãos do obstetra, estimula, ausculta, aspirar, examina e, nossa! Hoje fiquei paralisado, só vendo a colega fazer seu trabalho. Passa-se um filme de anos em minutos, parece que foi ontem o nascimento daquela menininha que hoje está sendo mãe. No dia a dia comentamos, missão cumprida, filhos casados, cada um morando em sua casa, agora só quero sossego, silêncio e tranquilidade, mas na hora H... O choro dos bebês e a correria das crianças provocam uma saudade da juventude, uma volta ao passado, mas agora com mais tempo, sabedoria, serenidade e paciência. Ser avô é ser o pai ideal. Passadas as primeiras emoções, logo após a alta hospitalar, começam os problemas que diariamente vemos no consultório: o leite não desce! Ele chora! Estou com dor nos pontos! E por aí vai. Mas hoje estamos com um probleminha a mais, na casa onde moravam papai, mamãe e o primogênito Bruno, chega o Enzo, e agora? Desde Caim e Abel a relação entre irmãos tem se mostrado complicada. Eu adoro um livro chamado “Irmãos: Como entender essa relação” do psiquiatra francês Marcel Rufo. Ele usa diversos casos clínicos para ilustrar situações, com frequência tumultuadas e às vezes patológicas, que já foram vivenciadas por qualquer pessoa que tenha um irmão. Eu sou leigo neste tema, afinal sou filho único, filho de mãe filha única, me considero um caso à parte, talvez por isso tenha adorado tanto este livro que aborda os problemas e situações da irmandade: uma disputa por carinho e atenção, o ciúme entre irmãos, a dúvida da existência de um filho preferido e a arte de saber compartilhar. A chegada de um bebé e a perda do posto de filho único é um acontecimento difícil para algumas crianças, gera aquela sensação incontrolável de ciúmes. Entretanto, como escreve Winnicott, o ciúme é normal e saudável, especialmente quando associado ao nascimento do irmão mais novo. No caso do Bruno é mais problemático e difícil de gerir. Ele, com quatro anos, está justamente na fase de liberação do cordão umbilical emocional mãe e filho, começa a ter os seus amigos e seus primeiros passos de independência como dormir na casa do amigo ou dos avós, mas agora chega o Enzo! O ciúme na criança geralmente é associado a pensamentos difíceis de compreender pela própria criança, de expressar ou controlar: “Os meus pais já não vão ter mais tempo para mim”; “Ele é bebé e por isso é mais engraçado”; “Os meus pais vão gostar mais dele do que de mim”; “Vão dar-me menos mimos porque têm de dar ao meu irmão”. Enfim, são angústias da antecipação do que será a vida de filho partilhada com um irmão, faz parte da vida e que por vezes levam a consequências diversas como: comportamentos negativos para chamar a atenção, comportamentos regressivos, típicos de idades mais precoces (xixi na cama, voltar a pedir mamadeira, quer andar ao colo, dormir com os pais etc.). O ciúme cumpre uma função, é normal, não podemos eliminá-lo, mas é possível ajudar os mais novos a conseguirem controlá-lo, a compreenderem-no, a fazer com que se manifestem com menor intensidade e, principalmente, conseguir enfrentá-lo quando se sentir “atacado” pelo ciúme. Com a ajuda dos pais, ultrapassar a fase de ciúmes será um motor de desenvolvimento e de maturidade para o seu filho mais velho, que sentirá que tem competências e é capaz. É também nesta hora que entram os avós, com a experiência, sabedoria, calma, sensatez e, principalmente, o amor incondicional a toda ascendência e descendência. Evitar comparações, nunca tentar “comprar” com presentes, beijos e abraços o irmão mais velho, é difícil, mas ele tem que sentir que tudo continua igual, o irmão chegou para somar e não dividir. Estou testando toda essa teoria na prática, daqui uns meses conto ao leitor o resultado, por enquanto, com licença, vou pegar o Enzo que está chorando, e Bruno está tentando dar um pirulito para ele chupar e parar de chorar...