Professora usa ritmos e sonoridades para trabalhar o respeito às diferenças em projeto sobre a África

A professora Sílvia Beraldo, ao piano, com livro usado para orientar trabalho na sala de aula e capas dos dois CDs lançados por ela ( Leandro Ferreira/AAN)
Sílvia Beraldo tinha tudo para se dedicar à biologia: gostava de estudar os seres vivos e até fez faculdade para ser professora da disciplina. Mas, com o passar do tempo, entrou para o conservatório de piano e, assim, o som e a musicalidade passaram a atraíla mais do que os mamíferos, celenterados, células e sais minerais que ela estudava outrora. Afinal, onde há vida há sonoridade e, onde ela existe, pode haver ritmo e música. Há13 anos, Sílvia, que já tem dois CDs gravados, é professora no Colégio Progresso, no Cambuí, em Campinas, e usa a música para ensinar diversidade cultural e respeito às diferenças. O colégio mantém, para os alunos do Ensino Fundamental 1 (até o 5º ano), uma aula semanal de educação musical. Sílvia, sempre que possível, alia o desenvolvimento do seu conteúdo com projetos que estejam sendo produzidos pelos professores das outras disciplinas. Foi o que ocorreu, no ano passado, com o projeto Herança Cultural Africana. Como a professora do 4º ano trabalhava, nas aulas de história e geografia, as características da África e a cultura afrobrasileira, por lei, precisa ser inserida nos conteúdos das escolas, Sílvia encontrou uma oportunidade de levar um novo universoaos estudantes. “Nossos alunos, de um modo geral, têm acesso a muita tecnologia e conseguem, facilmente, ter acesso à música de caráter mais comercial. Nas aulas, então, preciso levar aeles novas visões, novas abordagens, que fujam do que eles já conhecem”, afirma a professora.Para trabalhar o projeto, Sílvia contou com o apoio da professora de artes da escola, coincidentemente, sua irmã, Stela Beraldo. Para que os alunos pudessems e envolver com a proposta, Sílvia optou por iniciar o trabalho por meio da emoção. Para isso, pesquisou músicasafricanas até chegar a Siyahamba, originária do cancioneiro popular místico da África do Sul e interpretada pelo grupo Mwamba Childrens Choir. “Os alunos se emocionaram quando assistiram ao vídeo com a música e a coreografia”, lembra-se. O semblante dos alunos, em média com10 anos, ficou marcado. “Muitos se emocionaram e, depois, começaram a trazer suas própriasreferências, como é o caso do filme Rei Leão, que todos conheciam.”Depois de sensibilizados, Stela e Sílvia, cada uma em suas disciplinas, esboçaram a finalização da atividade, com a realização de uma coreografia, apresentada na mostra cultural do colégio, aberta aos pais. Com Stela, a garotada desenhou e produziu máscaras de papel-machê e túnicascom as quais se apresentaria. Enquanto isso, nas aulas de música, Sílvia analisava as características da canção, trabalhando aspectos como ritmo,sonoridade, harmonia, presençade instrumentos e relação com a cultura africana.DescobertasOrientada pelo livro Música Africana em Sala de Aula, de Lilian Abreu Sodré (Editora Duna Dueto, 2010), Sílvia pesquisou outras canções para que, dessa vez, a turma criasse sua coreografia. A música selecionada foi Chai, Chai, do cancioneiro popular da África do Sul. A canção, cujo autor é desconhecido, é utilizada tradicionalmente no momento em que os cereais são socados empilões. Depois que a letra e a melodia foram estudadas, a turma desenvolveu a coreografiae os próprios instrumentos. Com garrafas pet, foram feitos chacoalhos com arroz e feijão.“Além do som que conquistaram, isso fazia mais sentido, pois a música está relacionada à colheita”, explica Sílvia. Além disso, as máscaras de papel-machê foram afixadas no alto de cabos de vassouras que as crianças seguravam nas mãos durante a dança. O bater da madeira no chão ajudava a dar o tom. Também foi possível contextualizar a atividade da disciplina com o reaproveitamento de materiais, tema constante nas propostas pedagógicas do Ensino Fundamental.“O projeto foi desenvolvido no ano passado e, com a receptividade e o resultado que tivemos, com as crianças aprendendo que a música é uma estratégia de conhecimento cultural, decidimos repeti-lo agora”, afirma. A mostra cultural do Colégio Progresso de 2013 deve ser realizadaaté o mês de setembro.