Referência quando o assunto é a análise desse tipo de material, o perito em fonética forense Ricardo Molina, sempre esteve ligado a casos de grande repercussão no País

Escutas telefônicas e gravações ocultas ganham as manchetes quase que diariamente no Brasil. Elas escancaram interesses, comprovam crimes, mancham reputações, derrubam ministros e revoltam a opinião pública. Em meio a tantos escândalos, um gravador parece ser a melhor forma de se fazer justiça ou, pelo menos, se livrar das grades. Referência quando o assunto é a análise desse tipo de material, o perito em fonética forense Ricardo Molina, que dirigiu o departamento de Medicina Legal da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e hoje tem seu próprio laboratório, sempre esteve ligado a casos de grande repercussão no País. Ele produziu laudos relacionados à ainda rumorosa morte do empresário PC Farias, tesoureiro do ex-presidente da República Fernando Collor de Mello, ao massacre de sem-terra em Eldorado dos Carajás (PA), à renúncia do senador Antônio Carlos Magalhães após a descoberta de uma violação no painel de votação da Casa e aos criminosos de farda da Favela Naval, na Grande São Paulo. Também participou de investigações sobre o acidente aéreo que matou os Mamonas Assassinas, a Máfia do Apito que manipulava resultados no futebol brasileiro, uma carta inédita do piloto Ayrton Senna, então com 19 anos de idade, e fez justiça à cantora Elizeth Cardoso, que nunca recebeu os direitos autorais devido a falta de crédito a ela na faixa Manhã de Carnaval, do filme Orfeu do Carnaval. Essa lista de respeito é apenas uma parte dos 25 anos de carreira do profissional, que continua sendo muito requisitado. Mais recentemente, Molina atendeu a um pedido de advogados que representam pessoas ligadas ao Palácio Planalto para se debruçar sobre as conversas telefônicas da presidente afastada Dilma Rousseff e o seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, gravadas com autorização da Justiça. Em ano eleitoral, seu telefone também toca com frequência. “Os casos políticos aumentam, mas não tenho ligação com nenhum partido”, afirma. Com tanto material guardado, o perito se aliou ao jornalista Ricardo Lima para a produção de um livro sobre os casos de maior destaque em sua vida até o momento. Com o sugestivo título de O Brasil na Fita, lançado pela editora Record, a obra é uma espécie de diário de Molina. Ele conversou com a reportagem do Correio e, entre outras coisas, comentou que já gravou algumas de suas próprias conversas e que tem fôlego para encarar mais desafios e polêmicas: “Não pretendo parar tão cedo”, garante. Veja, a seguir, o que o perito pensa sobre o atual momento do País e o seu trabalho: Correio Popular - Um gravador é, hoje, a melhor arma para se fazer justiça? Ricardo Molina - Não há dúvidas de que as gravações estão provocando mudanças importantes na política brasileira. Como atos de corrupção raramente deixam rastros documentais, a única forma de se provar esse tipo de ação ilícita acaba sendo a palavra dita, daí a importância das gravações. O senhor foi convocado pelo Palácio do Planalto para analisar o conteúdo das gravações entre Dilma e Lula antes do impeachment. O objetivo era provar que a escuta havia sido feita de forma irregular. Fale disso... Essa notícia saiu um pouco distorcida na imprensa. Uma revista publicou que “emissários do Planalto” teriam me procurado. Na verdade, foram advogados que defendiam pessoas ligadas ao Planalto, os quais não posso, obviamente, revelar. É evidente, no entanto, que o objetivo seria desqualificar a gravação e é também evidente que o Planalto tinha interesse direto nisso. A questão é, no entanto, delicada, pois envolve sigilo profissional. Não posso me estender muito sobre isso. Recentemente, uma avalanche provocada por gravações feitas por Sérgio Machado (ex-presidente da Transpetro) contra Romero Jucá, Renan Calheiros e José Sarney abalou a República. O ser humano é um “peixe que morre pela boca” ? Nunca o ser humano vai deixar de se comunicar. A conversa falada ainda é o meio mais seguro. Imagine se tudo o que foi dito e gravado estivesse escrito! Acho que, por muito tempo ainda, surgirão gravações comprometedoras, por falta de outra opção de comunicação. Já foi pressionado a dar um laudo que seria contrário ao resultado técnico? Já lhe ofereceram dinheiro ou alguma vantagem? Sim. Esse tipo de pressão é comum na área pericial. É apenas uma questão de ser honesto ou não. Estou há 25 anos trabalhando como perito e acredito que tenha muita credibilidade. Ninguém consegue se manter tanto tempo sendo corrupto. O senhor acompanhou muitos dos casos, criminais e políticos, de grande repercussão nacional. Sua vida já esteve em risco por isso? Tem medo de morrer, já que é um arquivo vivo? Não acredito que eu seja um arquivo vivo. Depois que o perito entrega o laudo, ele deixa de ter informações relevantes. Não conheço nenhum perito que tenha sido de fato ameaçado seriamente. O perito não julga nem acusa. Mais perigosa é a vida de promotores e juízes, estes sim são muito ameaçados. Qual o terreno mais complicado: o policial ou o político? O político, sem dúvida. No campo da política os interesses são muito grandes e sempre há um lado que se sente prejudicado e “perseguido”. Muitas vezes o perito é injustamente acusado de “tendenciosidade” em casos políticos. É mais ou menos como no futebol. Por mais neutro que seja o juiz, a torcida do time perdedor sempre vai achar que houve tendenciosidade... Como garantir que determinado material não foi plantado para causar um efeito? Como perceber que os participantes mentem para criar um fato ou que há algo editado ali para levar os resultados para outro caminho? É preciso separar as coisas. Quando falamos de “autenticidade” de uma gravação estamos nos referindo à sua autenticidade material, ou seja, se foi editada, montada, se teve trechos cortados, a ordem cronológica dos eventos trocada etc. Quanto à “veracidade” de um diálogo, ou seja, se os interlocutores estão mentindo ou não, não cabe ao perito avaliar. É claro que existem casos — e já examinei alguns assim — nos quais se tentou “criar” um diálogo artificial, ensaiado. Mas normalmente esse tipo de armação é facilmente detectável. Observe-se que há uma diferença entre um diálogo “armado” e a “veracidade” do que é dito. Um diálogo pode ser absolutamente natural e espontâneo, mas tudo o que foi dito é inverídico. Qual a sua relação com partidos políticos? Estamos em um ano eleitoral, o senhor tem recebido contatos para trabalhar? Em anos eleitorais os casos políticos aumentam. Não tenho ligação com nenhum partido. Faço a perícia sem considerar aspectos políticos e é exatamente por isso que todas as tendências acabam me procurando, pois sabem que mantenho neutralidade técnica. Em sua trajetória, qual foi o caso mais emblemático? Acho que o caso da quebra do sigilo do Senado, que levou à renúncia de Antônio Carlos Magalhães, foi o mais relevante politicamente, para mim e para o País. O Caso PC (1996) talvez tenha sido o mais famoso, mas para mim o Caso ACM (2001) teve consequências mais importantes. Algum erro seu já prejudicou uma investigação? Todo mundo comete erros. A questão não é nunca errar, é errar o mínimo possível. Quando se detecta um erro, se corrige o erro. Não há nenhum problema nisso. Muitas vezes, informações incompletas ou mesmo falsas podem induzir o perito a erro. Quando isso acontece, faz-se uma correção. O senhor costuma gravar suas conversas? Já fiz gravações para questões de ordem pessoal, como qualquer outra pessoa. Mas nunca usei esse recurso juridicamente. O que Molina ouve em casa? Atualmente só escuto música erudita. Em especial Mozart e Wagner. Mas gosto de alguns modernos também: Schönberg, Boulez, Berio.