INTERNACIONAL

Historiador russo luta para tirar vítimas de Stálin do esquecimento

Há 30 anos, o historiador russo Anatoli Razumov trabalha para trazer à tona os nomes daqueles que foram executados nos expurgos de Stálin em Leningrado, atual São Petersburgo, um trabalho que tirou milhares de vítimas do anonimato

AFP
29/01/2018 às 12:50.
Atualizado em 22/04/2022 às 09:59

Há 30 anos, o historiador russo Anatoli Razumov trabalha para trazer à tona os nomes daqueles que foram executados nos expurgos de Stálin em Leningrado, atual São Petersburgo, um trabalho que tirou milhares de vítimas do anonimato."Não encontrei nenhuma lógica. Era desumano e inexplicável", disse o historiador à AFP depois de anos de um meticuloso trabalho, em meio a um ambiente de indiferença.O trabalho de memória histórica continua sendo difícil mais de 80 anos depois do apogeu do regime de terror de Stálin, o qual provocou a morte de milhões de pessoas e enviou milhões para trabalhar nos "gulags" em condições insalubres, à beira da morte por inanição.As autoridades russas - com o presidente Vladimir Putin à frente - buscam minimizar essas páginas sombrias do passado, usando a carta da unidade nacional.Nos 13 volumes de "Martirológio de Leningrado" (tradução literal em português do título original), redigidos desde 1987 sob a direção de Razumov, estão nomes, datas de nascimento e de óbito, ocupação e destino daqueles que um dia desapareceram das ruas de Leningrado. Desvaneceram-se como se nunca tivessem existido.No melhor dos casos, seus familiares eram informados de sua "condenação sem direito a receber correspondência", mas sem nunca chegar a saber o que, de fato, aconteceu."Iniciei minhas investigações em 1987, na época da Perestroika, assim que foi possível", contou Razumov à AFP.Filho de um militar soviético que não foi engolido pela repressão, Razumov mergulhou na tarefa de prestar uma última homenagem a esses homens e mulheres, sem importar sua ocupação. Homens e mulheres que foram caluniados e executados durante esta época de terror.O escritório de Razumov, de 62 anos, fica no centro da cidade, antiga capital imperial, dentro do enorme edifício que abriga a Biblioteca Nacional.O local está repleto de armários cheios de livros e de documentos que ele conseguiu recuperar. Entre eles, destacam-se os arquivos da Polícia política de Stálin, a NKVD. O historiador também tem em mãos os papéis enviados pelas famílias das vítimas.Razumov mostra um deles: os trechos dos interrogatórios e o veredicto do processo contra Nina Dubrovskaya, uma estudante de 28 anos procedente da Polônia. Foi acusada de ser uma espiã polonesa e terminou executada em 11 de dezembro de 1937.- 'Máquina punitiva' -"O período conhecido como 'o Grande Terror' durou cerca de um ano e meio, até o outono de 1938. As execuções tiveram um caráter de massa: matava-se todas as noites. Não havia tribunais", explica.Os acusados compareciam diante de pequenos comitês de duas, ou três, pessoas que pronunciavam o veredicto. "Era uma verdadeira máquina punitiva", conta.Segundo o historiador, nesse breve período de tempo, um "plano de liquidação" elaborado por Stálin e por seus subordinados provocou a morte de 40.000 pessoas.O historiador afirma que nunca recebeu muita ajuda do Estado, apontando que há uma "indiferença" em relação aos expurgos stalinistas. Em seu trabalho, enfrenta, muitas vezes, a hostilidade das autoridades - relata.Anatoli Razumov conta que acaba de viajar para Petrozavodsk, na República da Carélia, pertencente à Rússia, para apoiar seu colega Yuri Dmitriyev, um historiador membro da ONG Memorial. Dmitriyev também é conhecido por suas pesquisas sobre os desaparecidos desse período.Dmitriyev passou mais de um ano na prisão por acusações de pornografia infantil. A ONG denunciou essas acusações como falsas, com único objetivo de obstaculizar suas investigações sobre o passado.As autoridades russas raramente fazem referência à repressão, e o presidente Vladimir Putin não assiste ao evento anual realizado pela organização sobre esse tema.Nesse contexto, muitos familiares ainda desconhecem o paradeiro de seus entes queridos, ou as acusações que um dia pesaram contra eles.Razumov afirma que continuará sua pesquisa, sem se importar com a postura do Estado."Tenho a impressão de trabalhar para eles, que, mais tarde, vão querer compreender. Estou fazendo isso e vou continuar o que tenho de fazer, apesar de tudo", completou.mak/tbm/gmo/ak/an/acc/tt

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