PERFIL

Mãos de fada para os penteados

Ondina Paes Leme de Lima escolheu Campinas para realizar o sonho de ser cabeleireira; aqui empreendeu, tornou-se uma referência e sua escola já formou mais de 81 mil alunos

Karina Fusco
26/04/2022 às 14:59.
Atualizado em 26/04/2022 às 14:59

A visionária empreendedora começou a participar de campeonatos de cabeleireiros promovidos por fabricantes de produtos de beleza (Arquivo pessoal)

Ela nasceu em Franca, em 1933. Casou-se e teve filhos muito jovem, como era comum na época e, mesmo sem o apoio da família, deixou a fazenda onde morava e veio para Campinas somente com dois filhos pequenos e a determinação de realizar o sonho de ser cabeleireira. Na cidade grande, mesmo sem ter concluído o que equivale hoje ao Ensino Fundamental, ela foi aprendendo cada vez mais sobre o ofício, foi conquistando uma boa clientela, abriu seu próprio salão, depois uma escola de cabeleireiros, até que se tornou conhecida internacionalmente. 

A história de vida de Ondina Paes Leme de Lima, hoje com 89 anos, daria um livro ou até um filme. Em qualquer formato, inegavelmente, seria uma narrativa sobre empreendedorismo em um tempo em que nem se mencionava tal termo e um exemplo da resiliência e da força da mulher. 

Como conta seu neto Ricardo Gimenes, atual gestor do Grupo Ondina, “existe uma lenda de que logo que ela chegou na cidade, parou na delegacia e o delegado arrumou um salão para ela trabalhar. Mas a verdade, que meu pai contava, é que ela atendia as pessoas em casa e não teve essa história de delegacia”.

Foi em 1960 que Ondina abriu o seu primeiro salão, no bairro Taquaral. A escola de formação de profissionais da beleza surgiu em paralelo pela necessidade de mão de obra e foi se expandindo até que, em 2001, se tornou um centro técnico de formação. “Temos uma foto muito bonita dela em 1960, toda impecável e perto de um quadro negro, onde já dava aula”, revela Ricardo.

O atual gestor do negócio defende que o nível de empreendedorismo de Ondina nunca foi amador, pois ela chegou a ter vários negócios ao mesmo tempo e sempre ajudando muitas pessoas. “Na época, cabeleireira era sinônimo de prostituta. Minha avó lutou contra o preconceito, a falta de dinheiro e de apoio da família em nome de sua escolha”, diz.

Destaque em  campeonatos

Conforme foi espalhando a fama da excelente cabeleireira que Ondina era, sobretudo para fazer penteados e arrumar noivas, a clientela foi crescendo. A visionária empreendedora começou a participar de campeonatos de cabeleireiros promovidos por fabricantes de produtos de beleza. “Minha avó ganhou mais de 400 troféus e medalhas e assim se destacou nacionalmente”, relata Ricardo. Mas, não parou por aí. Campeonatos internacionais, como o ibero-americano realizado no Chile, em 1981, também foram conquistados por ela.

No início da década de 1980, com o crescimento dos negócios, Ondina decidiu que era a hora de separar a escola do salão para potencializar a expansão de ambos. Os netos, que já trabalhavam com ela desde muito novos, foram assumindo novos postos. Enquanto Ricardo focou na parte administrativa. Rodrigo escolheu seguir os passos da avó e se tornou cabeleireiro. “Eu sempre achei que minha avó tinha um talento diferenciado porque ela aprendeu sozinha. Ela criava movimentos para fazer no cabelo para facilitar o jeito de trabalhar, muitas vezes utilizando ferramentas que não eram de cabeleireiro, e assim se destacava com os penteados”, diz Rodrigo Gimenes, até hoje à frente do salão que funciona no Cambuí.

Rodrigo se recorda de uma ocasião em que a avó inventou uma modelagem que ela batizou de ‘casinha de abelha’, uma vez que o cabelo ficava de uma forma que realmente se parecia com um favo de mel. “Ela ganhou um campeonato com isso. Eu estava com ela e acompanhei tudo. Ela tinha uma facilidade muito grande. Depois, quando fui estudar para aprender, vi que eram usadas técnicas diferentes das que ela criou. Minha vó era como uma escultora”, diz, orgulhoso.

Afastada, mas jamais esquecida

Além da rotina agitada em Campinas entre o salão e a escola, Ondina viajava pelo Brasil ministrando cursos e se apresentando em eventos em seu ramo de atuação. Os netos contam que ela estava na ativa de domingo a domingo e assim seguiu até os 74 anos. “Ela trabalhou até quando o Alzheimer começou a dar os primeiros sinais. Foi se afastando bem devagar das atividades e mesmo assim foi bem sofrido porque ela era uma mulher acostumada a comandar, vivia nos palcos, fazia apresentações no Brasil inteiro”, diz Ricardo.

Comandando o Grupo Ondina ao lado da esposa, Aline, Ricardo diz que diariamente se inspira no exemplo de garra da fundadora. “Minha avó caiu muitas vezes na vida e sempre se levantou. Foi até fazer faculdade de Direito aos 70 anos. Agora, nesse retorno da pandemia, meu maior desafio é manter a veia empreendedora dela e nunca desanimar, pois tanto o salão como a escola foram fortemente impactados”, diz. 

Hoje, Ondina já não reconhece mais os familiares e não tem lembranças de sua trajetória, conforme relata Ricardo. “Mas, ela continua carinhosa porque essa é uma característica dela”, afirma. No entanto, para os mais de 81 mil alunos formados em sua escola - vindos, inclusive, de países como Japão, Angola, Portugal e Austrália - os inúmeros clientes atendidos e as dezenas de funcionários, aquela elegante senhora com uma mexa avermelhada no cabelo e um sorriso no rosto certamente jamais será esquecida.

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