COMPORTAMENTO

Bordadeiras fazendo arte

Elas são mulheres simples, da periferia, que aprenderam a bordar a vida e a lutar por melhorias na comunidade

Cibele Vieira
22/04/2022 às 10:09.
Atualizado em 22/04/2022 às 16:05

As ‘folhas’ bordadas serão usadas na montagem da árvore (Diogo Zacarias)

O barracão comunitário localizado na região do Satélite Iris é bastante simples, mas guarda muita sabedoria. É nele que um grupo de 15 mulheres se reúne toda semana, por duas horas, para bordar. A maioria nunca havia se dedicado à arte das linhas e agulhas e, no início, as rodas de bordado pareciam uma terapia. Depois, se tornou espaço de conversa, de autoconhecimento. Até que os encontros se transformaram em ativismo, em construção comunitária. Hoje, representa um espaço de mudanças, onde as mulheres traçam estratégias sociais e militam por melhorias na área de saúde, por preservação ambiental e buscam sua identidade.

É tudo muito simples, calmo e às vezes silencioso. Mas o trabalho é poderoso. E parte dele poderá ser visto em maio, quando elas pretendem fazer uma instalação artística e expor para o público sua “Árvore da Vida”. Para isso, estão recebendo contribuições bordadas em formato de coração por outras mulheres de várias regiões do País. Elas foram convidadas via redes sociais a colocarem no tecido, ponto a ponto, a mensagem: “o que vem no seu coração?”. As contribuições já chegam a centenas, vindas de outros bairros de Campinas, de cidades da região, de São Paulo, da Bahia e até do Rio Grande do Sul. 

Um projeto de vida

O grupo de mulheres moradoras da região do Jardim Satélite Iris passou a se reunir periodicamente para bordar em 2019, já realizou duas exposições e lançou um livro (bordado). Elas bordam situações do cotidiano enquanto discutem preocupações comuns. Agora, para montar a “Árvore da Vida”, elegeram como símbolo a Sangra D’Agua, uma árvore ancestral e nativa descoberta em uma área de preservação que tentam manter no bairro. Esta planta produz uma seiva vermelha com propriedades curativas e as folhas têm formato de coração. Então, decidiram bordar folhas em formato de coração para dar voz aos desejos coletivos. 

“Tudo começou com as oficinas de bordados no Centro de Referência em Assistência Social (CRAS), numa unidade que atende os bairros Ouro Preto, Marialva, Jardim Uruguai e São Judas”, conta Juliana Maria de Siqueira, agente cultural da Secretaria Municipal de Cultura e doutora em Museologia Social. Ela lembra que “nos primeiros meses, as mulheres aprenderam pontos de bordado à mão livre e criaram um catálogo de pontos. Depois, a realidade ensinou a bordar a vida, então se transformou em ativismo”.  

“A ideia da árvore se tornou símbolo de cura da comunidade, que está localizada em uma área de ocupações e com poucos serviços públicos”, conta Juliana. Ela explica que “elas não bordam para se distrair, mas para transformar o espaço onde vivem”.  Quando enfrentaram problemas de atendimento médico no bairro, bordaram a gota vermelha pela saúde da mulher. Depois um livro sobre a história das mulheres negras. E também para o Dia Nacional dos Quadrinhos, para registrar a horta comunitária e contar a a história da área ambiental que querem preservar. 

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