Publicado 05 de Dezembro de 2021 - 19h42

Por Cibele Vieira/ Correio Popular

As árvores frutíferas reconectam a população aos prazeres simples como, por exemplo, colher frutas silvestres no pé

Kamá Ribeiro

As árvores frutíferas reconectam a população aos prazeres simples como, por exemplo, colher frutas silvestres no pé

Um pé de jaca na esquina, um pouco a frente uma farta amoreira, mais uns passos chegamos na pitangueira florida e aí nos deparamos com a mangueira carregada. Se continuar o passeio vão aparecer araçás, grumixamas, acerolas e outras frutíferas que reúnem pássaros no início da manhã – quando buscam alimentos - e no final da tarde – quando retornam aos ninhos. Falando assim parece uma paisagem rural, daquelas comuns no interior. No entanto, são cenas comuns nas ruas e praças de Campinas, situadas entre altos edifícios e avenidas com tráfego intenso.

As árvores frutíferas têm um papel importante na humanização da cidade e, em Campinas, faz parte das políticas públicas há muito tempo. Cultivadas de maneira organizada pelo serviço público, plantadas aleatoriamente por moradores ou nascidas de sementes espalhadas pelos pássaros, o fato é que as árvores frutíferas reconectam a população aos prazeres simples como, por exemplo, colher frutas silvestres no pé. Também favorecem a descoberta de novos sabores, incentivam o uso coletivo dos espaços públicos e, ainda, estimulam o conhecimento e as brincadeiras com as crianças.

Nina, que em breve completa quatro anos, costuma passear por Barão Geraldo de bicicleta com o pai e já estabeleceu alguns roteiros preferidos, onde sempre encontra frutas maduras. Neles, ela aprendeu a apreciar e colher amoras, pitangas, acerolas, manga e até pitaia. Um privilégio bastante apreciado pelos moradores de Barão, tanto que criaram até um Mapa da Fruta, onde são indicados os locais públicos do distrito onde há frutíferas (https://morandoembarao.com/mapadafruta).

Diversidade urbana

Ernesto Paulella, secretário de Serviços Públicos — pasta responsável pela gestão das políticas de arborização urbana — diz que a inserção de árvores frutíferas em praças é prática já incorporada na cidade. “Tanto que temos um Viveiro Municipal que produz essas mudas para arborização pública e ainda doa para moradores que querem plantar em quintais e outras áreas”, diz. Ele calcula que Campinas tenha mais de seis mil árvores frutíferas adultas, plantadas nas ruas ou outros espaços públicos.

Há 43 anos atuando nessa área, o engenheiro agrônomo que deu suporte técnico para a criação do Departamento de Parques e Jardins da cidade lembra de alguns projetos considerados especiais. Um deles foi o programa Recanto dos Pássaros, lançado em 1987 no primeiro governo de Magalhaes Teixeira, quando foram criadas cerca de 15 praças arborizadas essencialmente com frutíferas para alimentar e abrigar passarinhos. “Nosso interesse era em plantas que atraíssem pássaros e pequena fauna (esquilos, macacos e outros pequenos animais)”, lembra Paulella.

Essas praças, que hoje já tem árvores adultas, proporcionam um belo espetáculo aos finais de tarde, com a revoada dos pássaros, além de proporcionarem momentos de prazer aos moradores – principalmente crianças - do entorno. Ele cita como parte desse projeto a praça próxima à Norte Sul (próximo ao cruzamento das avenidas Norte Sul e Orozimbo Maia), as margens dos córregos do Parque Via Norte, Piçarrão e Carlos Grimaldi, outra praça no Jardim Flamboyant (próximo à Rua Presidente Venceslau) e na Av, Moraes Sales (depois do cruzaemento com a Jesuino Marcondes), entre outras.

Exemplos que motivam

Esta é uma das características de Campinas que gosto bastante, comenta a jornalista especializada em Meio Ambiente, Marlene Simarelli. “É preciso diversificar e plantar árvores - frutíferas ou não - do nosso bioma, a Mata Atlântica”, salienta. Há cerca de um ano ela participou de uma ação promovida pela Associação Amigos do Bairro Parque Prado. (AABPP), que usou um terreno da entidade para fazer um mini bosque de frutíferas, com 24 tipos diferentes. “São poucas, mas farão diferença para os pássaros e saguis da região, além dos gambás e lagartos. Eu e outros moradores nos revezamos para regar no período da seca”, comenta.

Outra iniciativa coletiva semelhante acontece no Jardim Colonial, onde alguns moradores cuidam de uma praça pública antes abandonada. Aos finais de semana eles se reúnem para cortar o mato e cuidar das mais de 50 frutíferas que foram plantadas nos últimos dois anos. O jornalista Gilberto Gonçalves, um dos voluntários e incentivador desse trabalho conta que há desde amoras, pitangas, grumixamas e romãs até outras pouco comuns como ingá, uvaia, seriguela, cajamanga, jenipapo e até uma rara castanheira do Pará. Para manter as mudas viçosas, ele armazena água da chuva e leva em galões para regar as plantas.

A Associação Amigos do Jardim Botânico do IAC trabalha para diversificar as árvores em diversos pontos da cidade, inclusive nas escolas. Francisco de Moraes, um dos voluntários, relata que “a inclusão de muitas espécies em áreas públicas e escolas é feita com frutas diferentes, menos conhecidas, para que as pessoas possam compreender melhor o significado, a dimensão e importância da diversidade”. Ele sugere que “por uma questão humanística, pensando na segurança alimentar em tempos difíceis, as escolas deveriam projetar jardins com frutíferas, para sobremesa de qualidade, sucos, frutos processados e oficinas de culinária”.

Pegar e plantar

O Viveiro Municipal Eng. Otávio Tisselli Filho está localizado no Parque Shangrilá (Rua Argeu Pires Neto) em área de 100 mil m2. Produz mudas para reflorestamento de matas ciliares e bosques da cidade, mas qualquer cidadão pode retirar gratuitamente no local, no limite de seis mudas por pessoa a cada 30 dias. Há espécies nativas, algumas frutíferas silvestres, ipês, manólias, palmeiras e plantas ornamentais, entre outras espécies. O viveiro funciona de segunda à quinta-feira, das 7h às 11h e das 13h às 16h30. Às sextas-feiras, das 7h às 11h e fecha nos finais de semana.

Mas não basta ter a muda para sair plantando por aí. É preciso saber o que e onde plantar. Para isso, existe o Guia de Arborização Urbana de Campinas (Gauc), criado em 2007 e disponível gratuitamente no portal da Prefeitura. Em linguagem acessível ele traz orientações como não plantar embaixo de fiação aérea e evitar em locais onde transitam pessoas algumas frutas que podem causar acidentes (por serem muito pesadas ou por tornarem a calçada escorregadia).

Sugestões de colheita. Boa safra!

Manga: o canteiro central da Avenida Theodureto Camargo – que liga o Taquaral à Avenida Brasil – foi cultivado com mangueiras em toda sua extensão. Tem também na Avenida Diogo Alvares (Parque São Quirino), na marginal do Piçarrão, na praça central do bairro Santa Genebra e na Praça Eunice do Espirito Santo Dini (J.Colonial). Produzem entre setembro e janeiro.

Jambo: tem árvores no Centro de Convivência, nos arredores da Unicamp, na Praça em frente ao Colégio Dom Barreto e no ponto de táxi da Avenida Norte Sul (direção centro-bairro). Colhido entre janeiro e março.

Jaca: na praça da Rua Domingos Borges de Barros (Santa Genebra), no cruzamento das ruas Adelino Martins com Alberto Belintani (Mansões Santo Antonio), na Praça Conde Francisco Matarazzo (Vila Industrial) e em alguns pontos da avenida Washington Luiz. Produz entre janeiro e julho.

Amora: várias ruas do Parque Taquaral, Chácaras Primavera, Barão Geraldo, Sousas e na marginal do Piçarrão têm amoreiras produzindo, basta olhar com atenção. Estão maduras entre setembro e novembro.

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Cibele Vieira/ Correio Popular