Publicado 29 de Novembro de 2021 - 17h37

Por Cibele Vieira / Caderno C

Friburgo é um bairro é afastado, bucólico, sedia uma produção rural diferenciada, mas sofre com o abandono

Divulgação

Friburgo é um bairro é afastado, bucólico, sedia uma produção rural diferenciada, mas sofre com o abandono

Eles são festeiros, gostam de chopp e joelho de porco. Mas não perdem os cultos luteranos realizados na centenária igreja do bairro, preservam suas tradições e cultura, além de trabalhar muito nos sítios. Estamos falando da comunidade alemã no bairro Friburgo, região Sudeste de Campinas. Considerado um pedacinho da Alemanha incrustrado na divisa de Campinas com Indaiatuba e encostado no aeroporto de Viracopos, o bairro é afastado, bucólico, sedia uma produção rural diferenciada, mas sofre com o abandono.

Quem percorre seu núcleo no meio da semana chega a comparar com um bairro fantasma, empoeirado e sem ninguém nas ruas, embora os patrimônios históricos estejam bem preservados.

Nos arredores a produção agrícola familiar é forte: hortas (estufas e hidroponia), uva, café, milho, feijão e pecuária de corte. Vários pesqueiros com restaurantes povoam a região, junto a muitas chácaras de lazer. Nos finais de semana as atividades acontecem no núcleo histórico, onde ficam a Igreja Luterana, a Associação Escolar e o Cemitério dos Alemães, pontos que valem a pena conhecer. As famílias e turistas que andaram afastados por conta da pandemia começam a voltar. Mas são os eventos da comunidade alemã (confira a agenda) que movimentam o bairro centenário com festas e atividades culturais sempre realizadas no pátio da Igreja Luterana, um imovel tombado pelo patrimônio histórico.

Guardião da história

Hedio Ambrust Júnior, mais conhecido como Hedinho, é da terceira geração de imigrantes. Seus bisavós eram alemães mas ele nasceu no bairro há 52 anos, onde mora até hoje, cuidando da produção de uvas Niagara na propriedade que é da família há 130 anos. Entusiasmado com a história e as tradições, é um dos maiores incentivadores da preservação dos costumes e cultura. Se precisar de informações sobre o bairro, a história, as festas, a indicação é a mesma sempre: fala com o Hedinho! Ele comenta que hoje apenas cerca de dez famílias de descendentes moram e produzem no local. Boa parte foi embora com as desapropriações para a ampliação do aeroporto de Viracopos.

Em 2008, quando foi divulgada pela Infraero que o bairro perderia uma área de 30 mil metros quadrados - incluindo os prédios históricos da igreja, escola e cemitério – a comunidade iniciou uma batalha jurídica que durou cerca de três anos para impedir sua derrubada. “Foi uma luta triste e trabalhosa”, lembra Hedinho, mas pelo menos os prédios históricos foram mantidos. Muitas residências foram derrubadas e, segundo relato na época da historiadora Daisy Ribeiro, nenhuma construção de Viracopos será feita naquela área, pois é um local com restrições de ocupação chamada de curva de ruído.

Um projeto para incluir Friburgo no roteiro turístico de Campinas, com qualificação e quantificação da oferta turística da colônia alemã chegou a ser feito em 2005. Mesmo com a conclusão do projeto de recuperação da memória, das imagens e documentos do bairro feita pelo Centro de Memória da Unicamp e do planejamento turístico feita pelos alunos da Faculdade de Turismo da PUC-Campinas, a desapropriação da área desanimou parte da comunidade. Mesmo assim, relata Hedinho, eventualmente chegam grupos de turismo pedagógico organizados pela Prefeitura ou pelo Sesc, com pessoas interessadas em conhecer a tradição e são recebidos pelo grupo de dança Tanzgruppe Friedburg (que também se apresenta em eventos).

Vivências na roça

O Sítio São José pertence a várias décadas à família de Vico Abacherly, de origem Suíça. Localizado no bairro Friburgo, desde 2003 começou a ser projetado pela terceira geração da família para ser incluído no circuito de turismo rural. Em 2014 essa ideia ganhou força com os descendentes, que resolveram implementar a estrutura necessária. Vitória, que é casada com Guilherme Abacherly (neto do fundador) conta que hoje são cinco famílias morando e produzindo no local, onde cultivam café, feijão, milho, goiaba e uva. Seus produtos abastecem o armazém aberto ao público nos finais de semana, com vinhos, doces, pamonha e curau, café, fubá, mel, queijos etc.

Aos sábados, domingos e feriados toda a propriedade é aberta a visitantes das 8 h às 17 h. Em instalações simples e rústicas a família Abacherly serve seu café na roça, almoço caseiro no fogão de lenha e ainda petiscos na lanchonete. Vitória explica que as crianças podem passear no bonde (puxado por um trator), andar de pônei e visitar o recanto dos animais (com coelhos, porquinhos da Índia e cabras), enquanto os adultos podem sair a cavalo por uma trilha de 2 km na mata. Há ainda a tulha de artesanato (com objetos em cerâmica, enfeites, sabonetes artesanais etc.), a plantação vertical de morangos (cultivados em sacos com palha de arroz queimada) e o orquidário (orquídeas, cactos e suculentas). Para conversar com o pessoal do sítio pode usar o Whatsapp (19) 99879 8146. E para saber a rota de chegada, basta colocar no Google Maps: Sítio São José Turismo Rural.

A colônia e seu patrimônio

Quando a abolição da escravatura começou a ser discutida no Brasil, fazendeiros paulistas ficaram preocupados com a possível falta de mão de obra e se anteciparam em buscar trabalhadores imigrantes. A imigração de alemães e suíços foi incentivada pela escassez de terras em seus países de origem, agravada pela fome e altos impostos. A região cafeeira de Campinas recebeu grandes grupos (vindos principalmente de Schleswig-Holstein, norte da Alemanha, mas também com algumas famílias do Cantão de Berna, na Suíça) que trabalharam nas fazendas para pagar as dívidas da viagem e juntar recursos para comprar terras próprias.

A área de cerca de 800 alqueires cortada por vários riachos no centro do triângulo formado entre as cidades de Monte Mor, Campinas e Indaiatuba chamou a atenção de 34 famílias que se mudaram para o local, batizado de Friedburg, que significa Castelo da Paz. A historiadora Mirza Pellicciotta registra que a colônia de Friburgo surgiu entre 1864 e 1877. Eles começaram plantando culturas de subsistência (batata, arroz, feijão, milho e café) atém de manter rebanho de leite, e a produção era comercializada em Campinas. No século 20 o nome mudou para Friburgo, facilitando a compreensão.

Sem escolas públicas próximas, as famílias assumiram a construção de uma escola local e assim nasceu, em outubro de 1879, a Sociedade Escolar do Bairro Friburgo. Todas as atividades sociais eram concentradas no prédio da escola, tradição que se mantém até hoje, 142 anos depois. Outra necessidade dos moradores da época era ter um cemitério, já que o transporte dos mortos para o Cemitério Protestante - que ficava em área onde hoje é a Avenida João Jorge, na Vila Industrial em Campinas - era difícil e caro. Depois de muito entrave burocrático o cemitério foi inaugurado em fevereiro de 1886.

Já no final dos anos 1920, os sitiantes de Friburgo decidiram erguer sua capela luterana, inaugurada em 1934, para sediar os cultos dominicais antes realizados nas residências. Mas foi somente em 2009 que o Conselho de Defesa do Patrimônio Artístico e Cultural de Campinas (Condepacc) reconheceu que o bairro Friburgo, implantado por alemães, é parte importante da história de Campinas e tombou como patrimônio histórico os imóveis da escola, da Igreja Luterana e o Cemitério dos Alemães.

AGENDA FESTEIRA

Acompanhe os principais festejos típicos da comunidade alemã do bairro Friburgo, divulgados pelo Facebook e Instagram @coloniaalemafriburgo. A pandemia deixou esses eventos suspensos por quase dois anos, mas eles começam a ser retomados e a expectativa é que em 2022 toda a agenda seja realizada. Os eventos são abertos ao público e realizados no pátio da Igreja.

Fevereiro – Almoço da fazenda para lembrar as comidas dos antepassados.

Abril – Comemoração da fundação da Igreja Luterana com culto, almoço, bingo, leilão.

Maio – Apresentações folclóricas de danças típicas da cultura alemã, com participação de grupos de várias regiões. Danças, comidas e bebidas.

Julho – Participação na Festa das Nações de Indaiatuba com danças folclóricas e comidas típicas.

Agosto – Festa da Colheita, onde é servido frango com polenta. Agradecimento da Igreja Luterana pelo sustento obtido da terra.

Setembro – September Fest é a tradicional festa do chopp, comemorando a chegada da Primavera. Tem campeonato do chopp de metro, danças e comidas típicas.

Outubro – Festa de aniversário de fundação da Sociedade Escolar, no 3º final de semana.

Dezembro – No início do mês tem almoço típico em prol da comunidade. Na véspera de Natal tem celebração especial na Igreja Luterana.

Os cultos na Igreja Luterana são realizados duas vezes ao mês, abertos a quem se interessar: no 2º domingo às 9h30 e no 4º sábado às 17h30.

COMO CHEGAR

Para chegar ao núcleo do bairro Friburgo, o motorista que parte de Campinas deve seguir pela Avenida das Amoreiras, continuar pela Avenida Ruy Rodrigues, passar pelo Terminal Ouro Verde, Terminal Vida Nova, Avenida Cambucci e seguir pela estrada Friburgo por cerca de 4 km. Esse trajeto demora aproximadamente 40 minutos, se partir do centro de Campinas. Se for utilizar aplicativos de trânsito (como Waze ou Google Maps), basta digitar Colônia Alemã de Friburgo ou Comunidade Luterana Campinas que a melhor rota é traçada.

NÃO CONFUNDA

É bem comum o bairro Friburgo ser confundido com Helvétia, pela proximidade e semelhança dos costumes, mas são bairros e municípios diferentes. Helvétia, também conhecido como núcleo rural do Fogueteiro, é um bairro formado originalmente por uma colônia de famílias suíças e fica no município de Indaiatuba.

Escrito por:

Cibele Vieira / Caderno C