Publicado 22 de Outubro de 2021 - 11h23

Por Cibele Vieira

Os animais da PM chegam por doação, compra ou da reprodução do canil da Polícia em São Paulo. Eles são acompanhados 24 horas por um enfermeiro veterinário, mensalmente passam por exames de avaliação pelo médico veterinário e se alimentam com ração especial com grande quantidade de proteína

Baep

Os animais da PM chegam por doação, compra ou da reprodução do canil da Polícia em São Paulo. Eles são acompanhados 24 horas por um enfermeiro veterinário, mensalmente passam por exames de avaliação pelo médico veterinário e se alimentam com ração especial com grande quantidade de proteína

Ele tem cara de bravo, latido grosso, mordida potente, é muito ágil e tem uma resistência física invejável. Figura no livro de recordes - o Guinness World Records - como o maior farejador de drogas já registrado. Inteligente e dotado de ótima capacidade para aprender e executar comandos, tem sido o preferido por agentes de segurança em todo o mundo. A raça é pastor-belga malinois (lê-se “malinoá”), o cão policial que integra as equipes do 1º Batalhão de Ações Especiais da Polícia (Baep), sediado em Campinas.

A unidade da Polícia Militar local tem 12 cães de trabalho e cada um tem um policial responsável por sua condução. “Eles chegam pequenos, com três meses de idade e durante dois anos recebem um intenso treinamento. É o período em que aprendem a patrulhar, farejar, imobilizar, buscar fugitivos, proteger”, conta o capitão Alexandre Antunes Ribeiro, que comanda o Canil e a Cavalaria sediados no 1º Baep. Quando estão prontos, passam a integrar as operações policiais de investigação.

Aprendizado intenso

Durante o treinamento - feito por condutores habilitados em cursos de cinotecnia e faro – os animais passam por um período de adaptação à rotina e aos policiais, de identificação da personalidade e de reconhecimento de diferentes situações que fazem parte do policiamento, conta o capitão Antunes. Por essa razão, eles são expostos a locais barulhentos (veículos, fogos de artifício, tiros), matas fechadas, recantos escuros, fogo e outras, para entender que aquilo faz parte do seu trabalho e aprender a agir sem perder o foco com interferências externas.

A maioria das apreensões de drogas tem envolvimento do canil, relatam os condutores, lembrando que diversas operações só foram concluídas com sucesso graças à intervenção canina. Além de drogas, os cães são treinados para localizar armas (pelo cheiro da liga metálica, óleos lubrificantes ou pólvora), explosivos e pessoas. Antunes salienta que entre as características comportamentais desejáveis de um cão farejador estão a capacidade e motivação para o cheiro, a concentração na busca ignorando os estímulos externos, o temperamento, a vontade de procurar sem se desencorajar com a falta de sucesso e a capacidade de trabalhar efetivamente em situações estressantes.

A fama de bravo do pastor-belga malinois parece se desfazer quando ele encontra com o condutor, pois vira um grande brincalhão e faz muita festa. Há uma grande sintonia e amizade nessa dupla, mas na hora de trabalhar ambos mudam a postura, se concentram no trabalho. É o que relata o soldado Luiz Cláudio Danielato, atual condutor do Luther - um cão com dois anos e meio - em fase final de treinamento operacional. Na sua opinião, o mais importante na condução é o vínculo e a afinidade entre o policial e o cachorro.

Só falta carteira assinada

Os animais da PM chegam por doação, compra ou da reprodução do canil da Polícia em São Paulo. Eles são acompanhados 24 horas por um enfermeiro veterinário, mensalmente passam por exames de avaliação pelo médico veterinário e se alimentam com ração especial com grande quantidade de proteína (porque são muito exigidos fisicamente). Esse tratamento Vip é acompanhado por uma rotina de trabalho de seis horas diárias e sistema de folgas (24h X 48h). Eles não são castrados para não perder o instinto de caça. Após os seis anos de trabalho são avaliados para ver se podem continuar trabalhando até a idade máxima permitida, que é de oito anos.

Após esse período eles se aposentam, recebem baixa do policiamento e são doados, ou para o condutor ou outro interessado. Mas não vão para qualquer lugar, o adotante tem que comprovar que tem espaço, que poderá manter uma rotina de exercício e outras condições para garantir uma aposentadoria digna ao trabalhador canino. Na última semana dois destes cães se aposentaram e foram adotados. Questionado se eles se adaptam uma vida tranquila após viver tão intensamente, o capitão Antunes responde que sim, “a impressão é que eles cansaram e gostam de ter o merecido descanso, interagindo bem com a família que adota”.

O quarto homem

No treinamento os cães policiais desenvolvem habilidades que já são instintivas, comenta o condutor Danielato. “Eles têm o costume natural de farejar e caçar. Nós apenas estimulamos e desenvolvemos esses hábitos de maneira mais intensa, direcionando para o trabalho policial, com obediência aos comandos.” O soldado conta que até pela forma como o condutor segura na guia durante uma ação, o cachorro já sabe qual a conduta deve adotar.

Ele ressalta ainda que as viaturas policiais normalmente conduzem equipes formadas por quatro homens. “Na viatura do canil são três homens e o cachorro, ele é o quarto homem, um membro da equipe policial. Nós entendemos assim e ele também. Onde não enxergamos, ele conduz pelo faro, muitas vezes percebe antes as situações de risco. Em área de mata encontra suspeitos com facilidade, em inspeções nas rodovias ou aeroportos identifica drogas, armas ou explosivos pelo faro.”

Nem todos são iguais

Yanke, o cão que se aposentou em setembro ao completar oito anos, era um ótimo farejador. Seu condutor conta que entre as muitas ações que participou, recentemente numa fiscalização de rotina na rodovia Fernão Dias em parceria com a Polícia Federal, identificou uma mala com sete tijolos de maconha. Essa é uma rotina comum, mas para chegar a esse ponto, eles recebem treinamentos bem direcionados. Uma dúvida comum é se esses cachorros não ficam ‘viciados’ de tanto cheirar drogas, hipótese repudiada pelo Capitão Antunes. Ele explica que isso não acontece porque o cachorro não tem contato com as drogas, no treinamento são usadas minúsculas porções embaladas e quando localiza ele apenas avisa o condutor.

Alguns ficam prontos até antes do tempo. É o caso do Athos, considerado a maior promessa dessa nova turma. É ótimo de faro e vidrado nas recompensas (brinquedo), se empenha muito para fazer certo e ganhar. Já está no treinamento operacional – interno e em ambientes externos controlados – e é muito focado no serviço, comentam os treinadores. Já o Tor, caçula do canil, não tem o mesmo perfil e está sendo avaliado. Com apenas um ano, não demonstra muito interesse nas recompensas, falta concentração, parece ter uma personalidade mais adequada para ser um pet do que um policial, comenta o capitão. Há dúvidas se conseguirá completar o treinamento com sucesso.

O Canil da Polícia Militar de São Paulo existe desde 1950, mas em Campinas foi criado em agosto de 1985. Após a pandemia, deve ser retomado o programa de vistas abertas ao canil, antes realizadas semanalmente.

Escrito por:

Cibele Vieira