Publicado 30 de Setembro de 2021 - 18h28

Por Karina Fusco/ Caderno C

A pesquisadora Margareth Brandini Park, organizadora do livro. A direita, o médico Gilson Barreto que representa a comunidade portuguesa em Campinas

Arquivo pessoal

A pesquisadora Margareth Brandini Park, organizadora do livro. A direita, o médico Gilson Barreto que representa a comunidade portuguesa em Campinas

Por si só, já seria atrativo um livro de capa dura com 120 páginas recheadas de histórias, receitas e fotos de comidas que fazem parte da vida de famílias de imigrantes que escolheram a Região Metropolitana de Campinas (RMC) para ganhar a vida. Mas a publicação Comidas de Nossa Gente, recém-lançada pela Editora Adonis, de Americana, é muito mais do que um livro bonito e de agradável leitura, que pode ter lugar garantido na decoração da casa ou ser destaque em uma bela estante.

Organizado pela renomada pedagoga e pesquisadora da área de memória Margareth Brandini Park, o livro reúne as memórias culinárias de representantes de 10 grupos étnicos que vivem em cidades da RMC. Campinas, por exemplo, é representada pelos imigrantes portugueses, que chegaram em três períodos distintos. O médico e escritor Gilson Barreto é quem dá voz a eles, através de histórias e receitas preparadas por sua avó Nazareth, na década de 1930. Os pratos que ele descreve são sarravulho, porco na lata e sardinha frita.

A publicação documenta parte da cultura gastronômica presente em Nova Odessa, por meio dos letos; em Holambra, através dos holandeses; em Hortolândia, representada pelos afrodescendentes; em Artur Nogueira, pelos espanhóis; em Valinhos, pelos japoneses; em Vinhedo, por italianos; em Americana, por alemães; em Jaguariúna, por libaneses e em Engenheiro Coelho, por belgas.

Como explica Margareth, o fio condutor do projeto foram as memórias gastronômicas de grupos importantes das 10 cidades escolhidas. Foram eleitos representantes de cada lugar e estas pessoas foram convidadas a escrever um texto relatando o histórico de suas famílias e a relação com a comida. “Além de aceitar escrever o relato, cada representante tinha que compartilhar três receitas típicas, sendo um prato salgado, um doce e um complemento, que poderia ser uma bebida ou uma conserva. Isso foi muito desafiador para as pessoas, mas o desafio era um elemento importante”, ressalta.

Como se trata de um projeto múltiplo, além dos relatos para o livro, os co-autores também fizeram vídeos, que podem ser conferidos no canal do Youtube da Editora Adonis, e fotos que ilustram de uma forma muito atrativa as páginas da publicação. A produção audiovisual é assinada pela BigMidia Produtora e o projeto gráfico é de Paulo R. Masserani.

Histórias, surpresas e descobertas... e, claro receitas!

O mergulho nas histórias e memórias das famílias que integram esse projeto, fez com que Margareth se deparasse com muitas surpresas. Ela afirma que uma delas foi a trajetória da família Hereman, de Engenheiro Coelho. O patriarca Joannes Franciscus Hereman veio para o Brasil em 1887 com a esposa e os 21 filhos e aqui prosperou com a lavoura de café. “Eu saliento esse detalhe porque para o imigrante a mão de obra era fundamental e o Joannes já chegou aqui com isso.

Eles trabalharam muito, tinham a marca de café Estrella Brazileira e com os negócios em progresso, uma parte da família voltou para a Bélgica e começou a comercializar o produto na Europa. Foi muito satisfatório encontrar essa informação, pois sabemos que esse retorno à terra natal é raro”, diz.

Outra descoberta que surpreendeu Margareth foi a de que Doné Eleonora, ou mãe Eleonora, do Ponto de Cultura Flor do Dendê, de Hortolândia, era a baiana do acarajé da feira hippie de Campinas. “Quantas vezes eu comi acarajé lá. Quem é campineiro, passa pela feira e certamente tem muitas memórias com aquela baiana vestida de branco, impecável”, ressalta.

Mas, claro, ao ter em mãos um livro de memória gastronômica, é quase impossível não querer reproduzir em casa algumas das 30 receitas compartilhadas ali. E um reforço vem com o material audiovisual, que pode ser acessado por meio de QR Codes que acompanham as receitas publicadas. A versão digital do livro estará disponível para download, no site da Editora Adonis.

Agora, se deliciar com os relatos e saborear delícias que eram presença garantida na mesa dos imigrantes da nossa região, é uma tarefa designada a cada um. Boa leitura e bom apetite!

Escrito por:

Karina Fusco/ Caderno C