Publicado 31 de Agosto de 2021 - 18h49

Por Cibele Vieira/ Correio Popular

A psicóloga e psicoterapeuta Maria Aparecida Paschoal Goes

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A psicóloga e psicoterapeuta Maria Aparecida Paschoal Goes

Uma pessoa com deficiência física - que não consegue andar, tem os movimentos limitados e pouca interação social - pode trocar a cadeira de rodas pela sela de um cavalo? Sim, pode e deve! É o que recomenda a Associação de Equoterapia de Campinas (AEC), que usa os cavalos como recurso terapêutico para ajudar na reabilitação de pessoas com algum tipo de deficiência (física, psicológica ou cognitiva). A psicóloga e psicoterapeuta Maria Aparecida Paschoal Goes, fundadora da entidade, trabalha há 23 anos nessa área e registra melhorias na coordenação motora, força, equilíbrio e concentração dos praticantes.

A ecoterapia tem sido utilizada com embasamento científico como tratamento complementar para o desenvolvimento físico e mental de pessoas com deficiências ou necessidades especiais, conta Aparecida. É recomendada em casos de síndrome de Down, autismo, paralisia cerebral, derrame, esclerose múltipla, hiperatividade, deficiência motora, crianças muito agitadas ou com dificuldade de concentração, adolescentes depressivos, entre outros. A AEC tem sede no distrito de Sousas, onde atende a rede de saúde pública e, também, convênios médicos privados.

O trote terapêutico

A marcha do cavalo simula o andar de uma pessoa. Se alguém ficou muito tempo sem andar, fica sem tônus muscular e precisa reaprender como se faz. E o cavalo é capaz de estimular o movimento correto. É como se o animal emprestasse suas pernas ao paciente e o ensinasse a reordenar seus impulsos. Isso ocorre porque os movimentos tridimensionais do dorso do animal – para cima e para baixo, para um lado e para o outro, para frente e para trás - provocam uma série de reações no corpo do cavaleiro. Ele é levado a contrair e relaxar as pernas e o tronco, melhorando suas percepções, funções motoras e o equilíbrio, explica a terapeuta.

Ao se deslocar, o cavalo exige do cavaleiro ajustes tônicos para promover seu equilíbrio a cada movimento. Basta fazer as contas, explica Maria Aparecida: cada passo do cavalo produz de 1 a 1,25 movimento por segundo, o que significa que em 30 min de exercício o cavaleiro executa de 1.800 a 2.250 ajustes tônicos. Os deslocamentos da cintura pélvica produzem vibrações que são transmitidas ao cérebro, via medula, desencadeando movimentos de resposta. Essa é a grande vantagem da utilização do cavalo, salienta.

Evolução passo a passo

O paciente é, muitas vezes, incapaz de gerar movimentos por si só. Nesse caso, o cavalo gera os movimentos, transmite ao cavaleiro e seu corpo responde. Enquanto está montado tentando se equilibrar, o praticante fortalece a musculatura e a coordenação. Seu metabolismo também é estimulado, melhorando o sistema cardiovascular. Até a respiração é trabalhada, influenciando a fala. Ao subir em um cavalo uma pessoa com deficiência percebe também que é capaz de superar seus medos e trabalha a autoconfiança. A especialista diz que esses são apenas alguns dos benefícios dessa terapia.

Os exercícios praticados ao ar livre, em contato com a natureza, também promovem bem-estar. Aparecida complementa que ao aliar técnica, movimento e ambiente, o paciente recebe outros impulsos que impactam o lado psíquico e emocional. Em contato com o animal ele consegue compreender melhor os padrões de comportamento, aceitar regras e limitações, enquanto nas seções os terapeutas estimulam também o tato, a orientação espacial, memória, raciocínio, percepção visual e auditiva.

A equoterapia é personalizada, com planejamentos individuais. Os pacientes chegam de várias formas, mas normalmente são encaminhados pelo Neurologista ou pela escola, com autorização médica (principalmente do Ortopedista que avalia a coluna e quadris). A terapia complementa outros tratamentos e deve ser praticada em centros regulamentados, com pessoas habilitadas e cavalos treinados. O atendimento pela rede pública segue o trâmite das Unidades Básicas de Saúde, que solicitam a avaliação do Centro de Referência em Reabilitação, também localizado em Sousas.

Um co-terapeuta especial

O cavalo é um grande amigo do homem. Ao chegar no centro, o paciente com condições físicas participa de etapas do manejo do animal, como alimentação e higiene. Isso é importante para criar uma maior aproximação, empatia e confiança entre o cavalo e o praticante, explica o equitador Luis de Paula Góes. O próximo passo é preparar o cavalo para a montaria, aprendendo a encilhar e a montar. Luis diz que dessa experiência nasce uma amizade entre cavaleiro e cavalo.

Há registros históricos de que os cavalos já eram usados em tratamentos terapêuticos há mais de dois mil anos na Grécia Antiga. O pai da medicina ocidental, Hipócrates (458 a 377 a.C.), já aconselhava a prática equestre em livro. Ele recomendava a atividade para regenerar a saúde, preservar o corpo de muitas doenças e no tratamento de insônia, além de mencionar que cavalgar ao ar livre melhorava o tônus dos cavaleiros.

Na era moderna, após a Primeira Guerra Mundial, os soldados que voltavam da guerra com sequelas físicas e mentais eram colocados para cavalgar, pois havia muitos animais disponíveis. Eles passaram a apresentar melhoras em todos os aspectos, chamando a atenção dos observadores. Mas a técnica só começou a integrar os estudos acadêmicos depois da década de 60. A ciência revela que os cavalos são inteligentes e tem ótima memória. Se aprendem alguma técnica, nunca mais esquecem. E tem grande facilidade de interação com as pessoas.

O primeiro centro de equitação para pessoas com deficiência foi criado em 1967 nos Estados Unidos. No Brasil, o método passou a ser valorizado a partir da década de 80, sendo reconhecida em 1997 pelo Conselho Federal de Medicina e regulamentada por Lei Federal em 2020, disciplinando seu uso nas áreas de saúde, educação e equitação voltada ao desenvolvimento biopsicossocial da pessoa com deficiência. Atualmente, a técnica terapêutica é praticada em mais de 30 países.

Apoiar para superar

Maria Aparecida Paschoal Góes, conhecida como Dona Cida, é Psicóloga e Psicopedagoga de formação, mas a empatia e o apoio para superação de dificuldades vieram de sua própria experiência. Quando jovem sofreu um acidente de moto e ficou em coma por 15 dias, perdendo parte da visão e da audição. Ao lidar com suas próprias limitações, acabou moldando sua atuação no terceiro setor, com foco direcionado à inclusão e um olhar mais próximo da realidade das crianças com deficiência. Assim ela começou um novo projeto de vida como profissional.

Escolheu o curso de Habilitação para Equoterapia e se especializou, com o sonho de trazer a prática para Campinas. Em 1998, depois de atuar na terapia com crianças deficientes usando os cavalos do 35º Batalhão da Polícia Militar de Campinas, fundou a Associação de Equoterapia de Campinas (AEC).

A entidade oferece a equoterapia para problemas físicos, neurológicos e cognitivos, além da equitação lúdica. As seções têm duração de 30 minutos e são realizadas uma vez por semana com acompanhamento de uma equipe de profissionais. A entidade é credenciada pela Associação Nacional de Equoterapia (Ande-Brasil).

ANOTE

ASSOCIAÇÃO DE ECOTERAPIA DE CAMPINAS (AEC)

Telefone: (19) 3029-1520

Av. Sócrates Potyguara Luiz de Camargo, s/n - Condomínio Bosque de Notre Dame - Lote 089 - Caminho 3

Horário: de segunda a sexta, das 9h às 17h

http://aecampinas.org.br  

ASSOCIAÇÃO DE ECOTERAPIA DE CAMPINAS (AEC)

 

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Cibele Vieira/ Correio Popular