Publicado 15 de Agosto de 2021 - 17h42

Por Cibele Vieira/ Correio Popular

Os voluntários Bertoldi, Alfredo, Cláudia e Francisco cultivam espécies diferentes pela cidade

Kamá Ribeiro

Os voluntários Bertoldi, Alfredo, Cláudia e Francisco cultivam espécies diferentes pela cidade

Cuidar da vida. Essa é a proposta do Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira, instituição quase centenária localizada no distrito de Sousas. E quem cuida bem da vida, cuida da natureza. Com esse pensamento, há exatos 20 anos começou a ser feito um cuidadoso e paciente trabalho de plantio de uma coleção diversificada com mais de 200 espécies da flora nacional e de outros países - exóticas, em risco de extinção, pouco conhecidas ou nativas – para que, futuramente, seus jardins pudessem se tornar um Jardim Botânico aberto ao público e com atividades educacionais.

Esse trabalho tem sido conduzido de forma voluntária pela Associação dos Amigos do Jardim Botânico do IAC, uma entidade sem fins lucrativos que implanta coleções de plantas diversificadas em vários pontos da cidade. O presidente Alfredo Morel explica que para ser regulamentado como um Jardim Botânico é preciso cumprir uma série de requisitos que, pela característica voluntária do trabalho, nem sempre é ágil. Mas ressalta que o mais importante, que são as árvores plantadas, já foi feito e se mantem em constante crescimento.

Agora, as duas associações buscam recursos para avançar nas exigências legais necessárias antes de finalizar o projeto. Entre elas está a catalogação e identificação de todas as plantas, ampliação do viveiro de mudas, a construção de infraestrutura necessária para receber visitantes, um programa de educação com visitas monitoradas, entre outras. “Além da saúde mental temos um olhar para a sustentabilidade e o Jardim Botânico está sintonizado a essa missão”, afirma Sandrina K. Indiani, presidente do Conselho da Associação Cândido Ferreira.

Um jardim do mundo

Quem passa pela entrada do Cândido Ferreira deve entrar e conhecer, pois pode usufruir de um rico passeio pelos jardins do mundo, gratuitamente. Basta caminhar pela praça que fica logo na entrada, onde se misturam vegetações variadas em espécies, cores e tamanhos. Olhares atentos podem observar a Lofântera (da Amazônia, com exuberantes cachos de flores amarelas), a Montezuma (das montanhas do México, crescem até 40 m), a rara Brownea (com cachos de flores vermelhas nos troncos), o Baobá replantado recentemente (de Madagascar, considerada a mais longeva do mundo), entre muitas outras árvores especiais.

Para chegar ao lago das ninfeias, o visitante passa por um curioso pomar com mais de 40 tipos diferentes de jabuticabeiras, inclusive com frutos brancos. É uma coleção tão especial que foi tombada pelo Patrimônio Histórico. São alguns poucos exemplos da riqueza vegetal implantada no local, pois tem muito mais para se admirar, num passeio que enche os olhos e alimenta a alma. Alimenta e acolhe também pássaros de várias espécies e pequenos animais como esquilos e saguis, que se sentem em casa.

Um dos voluntários da Associação Amigos do Jardim Botânico, Francisco de Moraes, colabora desde o início com a seleção de espécies implantadas no local e comenta: “A sociedade está doente porque se afastou da natureza, se surpreende em locais assim porque não tem ideia da diversidade tropical”. Por isso, a entidade tem criado coleções diversificadas em escolas, praças, avenidas e instituições, para ampliar o conhecimento que gera amor e, assim, preservar as espécies.

A cidade perdeu seu jardim

O único Jardim Botânico que existia formalmente em Campinas era o do Instituto Agronômico, com uma coleção de aproximadamente 5 mil espécies de árvores e 700 palmeiras de diversas regiões do Brasil e outros países. Ele teve origem no Complexo Botânico Monjolinho, que fica dentro da Fazenda Santa Elisa, mas inclui também o Parque da Sede (na Av. Barão de Itapura). Foi criado pelo pesquisador Hermes Moreira de Souza, que durante as décadas de 40/80 viajou o mundo em busca de espécies raras, com interesse ecológico, econômico e para pesquisa.

Entretanto, em 2018 a direção do Instituto Agronômico tirou o Jardim Botânico de seu organograma e o descredenciou. Embora as árvores continuem no local, estão sem manutenção e podem se perder, alerta o arquiteto e urbanista Alfredo Morel, que é especialista em Gestão Ambiental. Ele explica que os voluntários da Associação Amigos do Jardim Botânico do IAC agora estão focados em multiplicar e espalhar coleções pela cidade, para que as pessoas possam conhecer e aprendam a preservar. Hoje já são 10 coleções em diferentes pontos da cidade.

É por esse histórico que a formação do Jardim Botânico do Cândido Ferreira ganha importância e precisa de apoio para ser formalizado, lembra Cláudia Ismeriz, atual presidente do Conselho Gestor da Área de Proteção Ambiental de Campinas (Congeapa). Ela ressalta que “é um local acessível, aberto ao público, com boa estrutura e com uma diversidade relevante em quantidade e qualidade”. E lembra que o foco na saúde da instituição é também um ponto importante no espaço para relacionamento com a natureza.

Saúde com trabalho e arte

Além de preservar o espaço ambiental, os usuários do Cândido praticam vários aprendizados nas oficinas terapêuticas, que ajudam na sua autonomia. Uma delas é a técnica de mosaico, uma arte que usa pastilhas de vidro, azulejos e pisos cerâmicos para decorar peças utilitárias e de decoração. Para revitalizar a praça aberta ao público, os 42 bancos serão revestidos de mosaico por esses oficineiros, que ganham bolsa auxílio para sua produção. O jardim também abastece com folhas, sementes e outros insumos vegetais a fabricação de papel artesanal de fibras, em outra das 12 oficinas ativas.

Quem vai para a oficina agrícola aprende jardinagem incorporando conhecimentos técnicos sobre as espécies cultivadas no local, aprende a fazer mudas, além do cultivo orgânico de frutas, verduras e legumes. Uma cooperativa com 350 usuários faz o rateio mensal do que é produzido nas oficinas. Sandrina Indiani salienta: “se em 1917 essas terras foram compradas para acolhimento de quem precisava de cuidados na saúde mental, em 2021 continua com essa missão preservando um espaço humanizado, que acolhe pessoas e cuida do meio ambiente”.

O Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira é sediada no distrito de Sousas e atende gratuitamente pessoas com transtornos metais ou dependência química. São 40 unidades de atendimento, cuidado e convivência em Campinas, por onde passam 6.500 usuários e familiares/mês. Inaugurado em 1924 como hospício, reformulado como sanatório na década de 70, fechou as alas de internação nos anos 90, quando abriu unidades de tratamento e convivência.

A sede do Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira é aberta ao público e fica na Rua Helena Fabrini s/n (próximo ao 118) – Distrito de Sousas - Campinas; tel.: (19) 3758 8600 / E-mail: [email protected]

Escrito por:

Cibele Vieira/ Correio Popular