Publicado 23 de Julho de 2021 - 21h13

Por Cibele Vieira/ Correio Popular

Turma Infanto Juvenil da professora Karen Garcia treina na Arena Fight

Ricardo Lima

Turma Infanto Juvenil da professora Karen Garcia treina na Arena Fight

Gingar, tocar o berimbau, bater palmas, jogar, tudo junto e dentro da roda. É dança, é luta ou é jogo de malandragem? É a capoeira, uma expressão cultural tipicamente brasileira e reconhecida pela Unesco como patrimônio imaterial da humanidade. A novidade é que ela pode se tornar matéria obrigatória nas escolas municipais de Campinas. Pelo menos é o que pretende a vereadora Guida Calixto (PT), que protocolou no final de junho um Projeto de Lei na Câmara Municipal com essa proposta.

A capoeira une arte marcial, esporte, dança, música e cultura em uma única atividade. A vereadora acredita que a modalidade é adequada para jovens e crianças, pois proporciona brincadeiras, favorece a coordenação motora, a flexibilidade, o campo visual, a musicalidade e a criatividade. Mas também é fundamental para estimular, por meio do conhecimento, o debate antirracista e sua articulação com a realidade histórico-social brasileira, afirma Guida.

RESISTÊNCIA HISTÓRICA

A capoeira foi criada no século XVII pelo povo escravizado da etnia banto e se difundiu por todo o Brasil, sendo considerada hoje um dos maiores símbolos da cultura brasileira. Sua prática teve origem quando entre 3 e 5 milhões de africanos foram trazidos para trabalhar como escravos no País. Estes, proibidos de praticar qualquer tipo de luta pelos senhores de engenho, disfarçavam os movimentos de combate com música e dança, criando assim a capoeira. Era, nessa época, uma forma de luta e resistência dos escravos.

A palavra capoeira significa ‘o que foi mata’, referência às áreas de mata rasa do interior do Brasil, percorridas pelos fugitivos da escravidão. Esses foram os primeiros capoeiristas, dizem alguns historiadores. Mantida pelos descendentes de escravos, a capoeiragem é símbolo de liberdade e sobrevivência. Durante muito tempo foi proibida no Brasil, por ser malvista e considerada perigosa. “Toda essa história poderá ser trabalhada nas escolas, dentro de um projeto pedagógico amplo e integrado”, defende a parlamentar.

FERRAMENTA DE EDUCAÇÃO

A professora Josi Silva, do Instituto De Pernas Pro Ar, considera importante a prática da capoeira nas escolas não apenas pela capacidade de desenvolvimento físico e motor dos praticantes, mas pelos valores culturais que ela abrange. “É uma modalidade que permite trabalhar a identidade afro com sua história e legado para a cultura brasileira, influências, musicalidade e todos os demais valores que a tornam um patrimônio cultural”.

Josi é autora do livro infantil De Pernas Pro Ar – Recontando a Nossa História, onde relata a história da capoeira, seus mestres e como ela se expandiu para mais de 150 países. O Instituto trabalha gratuitamente com cerca de 60 crianças do Jardim São José (região Sul da cidade), promovendo manifestações culturais e esportivas - como a capoeira - além de apoio escolar, social e alimentar no contraturno escolar.

PARCERIAS E CAPACITAÇÃO

O projeto é interessante por todos os benefícios que a capoeira pode trazer, concorda a contramestra Karen Garcia, professora de capoeira há 19 anos também em escolas particulares. Entretanto, alerta que será necessário promover uma capacitação para os educadores que irão trabalhar na disciplina, caso a lei seja aprovada, para garantir que essa ferramenta de educação seja aplicada de maneira profissional e adequada.

De acordo com o Projeto de Lei, estabelecimentos de educação básica poderão firmar parcerias para as aulas com pessoas físicas, associações, ligas e federações ou outras entidades que representem e congreguem mestres e demais profissionais de capoeira. Para se tornar lei, o projeto precisa ser aprovado em duas votações (legalidade e mérito) e ser sancionado pelo prefeito.

É BONITA DE SE VER

Jogar capoeira é, ao mesmo tempo, uma luta e uma arte. Dentro da formação de uma roda, o jogo depende do ritmo ditado pelo atabaque, pelo berimbau e pelo agogô, instrumentos que a caracterizam. Normalmente eles são acompanhados por cantos e palmas. Dois parceiros, de acordo com o toque do berimbau, executam movimentos de ataque, defesa e esquiva, simulando uma luta. O gingado é a base da capoeira, um movimento ritmado que mantém o corpo relaxado, mas em constante deslocamento, permitindo os movimentos de ataque ou contra-ataque. É uma mostra de habilidade e força, além de integração e respeito entre os jogadores, que nunca ficam parados. Todo esse movimento cadenciado torna a capoeira muito bonita de se ver.

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Cibele Vieira/ Correio Popular