Publicado 04 de Julho de 2021 - 14h34

Por Adriana Giachini

Imagens de Fabiana Ribeiro,  documentarista convidada a ilustrar edição dedicada aos africanos e 
afro-americanos

FABIANA RIBEIRO

Imagens de Fabiana Ribeiro, documentarista convidada a ilustrar edição dedicada aos africanos e afro-americanos

O que vem a ser uma Casa dos Saberes Ancestrais? A pergunta, que intitula o texto de Daniel Munduruku no livro Casa dos Saberes Ancestrais - Diálogos com Sabedorias Indígenas, também serve para iniciar a conversa desta repórter com Wenceslao Oliveira Jr., coordenador geral de cultura da Diretoria de Cultura da Unicamp (núcleo ligado a Pró-Reitoria de Extensão e Cultura da universidade).

Entender o espaço é o primeiro passo do que vem a ser um emaranhado de assuntos, atitudes e sonhos de um projeto que nasceu em 2018, quando a universidade abriu o vestibular para indígenas. Porém, sua “semente” foi plantada muito antes, quando a professora do Instituto de Artes, Veronica Fabrini, sonhou com uma OCA na Unicamp.

A ideia, que ganhou força com o apoio de outras docentes e funcionárias da Universidade, num coletivo em prol da diversidade, do respeito e da divulgação da cultura, que tinha inicialmente o objetivo de criar um espaço de diálogo para ser referência da presença indígena no campus, num encontro com os saberes, práticas e poéticas indígenas.

Da Oca (imaginada pela arquiteta Renata Maragoni) surgiu a Casa dos Saberes Ancestrais, um espaço para fomentar ações entre os que escolhem caminhar para as origens (como disse Manuel Bandeira) e que amplia o diálogo para além da importância indígena.

Exemplo prático de uma dessas ações é a coleção Jurema, um selo de livros lançado ano passado, com a proposta de levar a conversa – agora não mais presencial, por conta da pandemia da covid-19 – para as páginas de dois livros digitais.

O primeiro deles, Diálogos com Sabedorias Indígenas, teve como missão apresentar a origem da Casa dos Saberes, da Coleção Jurema, bem como as ações que precederam o lançamento do e-book.

O segundo livro, Diálogos com Sabedorias Africanas e Afro-Americanas, como diz o título, e com lançamento marcado para a próxima quinta, estende a reflexão para a cultura negra e, evidentemente, sua relevância bem como permanecente resistência na re-ocupação de seu espaço social.

“O projeto da Casa dos Saberes Ancestrais tem como essência o interesse de intensificar a conversa e o acolhimento na Universidade dessas sabedorias ancestrais, cujo tema também está ligado aos direitos humanos, uma vez que fala da luta por ampliar a presença da cultura seja dos indígenas ou das pessoas negras da Unicamp. É um projeto criado para a Universidade, mas que pode perfeitamente avançar barreiras acadêmicas e ser um diálogo com a sociedade que nos envolve, com as cidades da região metropolitana”, explica Wenceslao Jr.

Coleção Jurema

A coleção Jurema – batizada em homenagem a árvore de mesmo nome, descrita no prefácio dos livros como espinhosa e encantada, em referência aos próprios desafios do projeto e, também, por sua oralidade e essência de um nome indígena que permanece na Língua Portuguesa Brasileira – é composta por quatro títulos, incluindo os dois ligados a Diretoria de Cultura.

Ambos serão disponibilizados gratuitamente no formato digital, além da impressão de 150 exemplares de cada, para acervo e distribuição entre os que não são habituados ao universo digital.

“Este segundo livro tem quase o dobro do primeiro, em tamanho, e mobilizou um grupo de quase 50 pessoas entre autores de artigos, entrevistadores e entrevistados criação de artes e editoração. A luta da comunidade negra é atuante e tem um envolvimento antigo, por isso pudemos contar com a presença de militâncias internas e externas da universidade. Em um trabalho que mobilizou estudantes, professores, funcionários e pesquisadores, não só para contar a história, mas para ampliar a presença da cultura das pessoas negras na Unicamp”, explica Wenceslao, que é organizador da obra, ao lado de Renata Soares do Luz.

“O livro Casa dos Saberes Ancestrais – Diálogos com Sabedorias Africanas e Afro – Americanas tem como objetivo trazer para dentro da universidade maior participação da cultura e das sabedorias ancestrais presentes nas comunidades oriundas dos povos quilombolas, dos griôs, dos pais e mães de santos. Além disso, tem como intuito dar maior visibilidade aos atores negros que desempenharam, e que ainda desempenham, papel fundamental na construção da história da Unicamp e que, por causa do histórico racista da nossa sociedade, não tiveram o devido reconhecimento”, resume Renata Soares Luz.

Fotografia de memória

O livro, assim como o anterior, segue belíssimo projeto estético onde o leitor, de imediato, consegue entender que cada imagem, cada cor usada na diagramação das páginas, foi escolhida para trazer sensações de identidade com o tema, bem como valorizar os textos e sua relevância.

Para ilustrar esse título, foi convidada a fotografa e documentarista Fabiana Ribeiro que cedeu imagens de seu arquivo pessoal – atualmente com cerca de 30 mil registros. Formada em Comunicação, ela se dedica a fotografia de memória desde 2013, registrando movimentos sociais e eventos de cultura popular.

Entre seus trabalhos recentes está o projeto Matriarca, de 2019, quando fotografou mulheres relevantes da cultura popular e tradicional. “Projetos como esses são de extrema importância para a cidade, por que são registros que ficam para a história. Por isso me encanta tanto essa minha fotografia que eu ainda tento definir um nome, uma vez que ela é feita com engajamento, equidade e igualdade em relação aos grupos, fazedores e agentes culturais.”

Para o livro, ela selecionou imagens de movimentos de acordo com os autores dos textos. Estão também obras africanas da Exposição Ogbon Itan, realizada no Sesi, em 2018, com parte do acervo do Instituto Cultural Babá Toloji, e curadoria de Andrea Mendes, que participa do livro Diálogos de Saberes Ancestrais (com artigo sobre o instituto e a importância da arte africana no cotidiano das pessoas).

Escrito por:

Adriana Giachini