Publicado 28 de Junho de 2021 - 16h50

Por Chef Manuel Alves Filho

O chef Manuel Alves Filho

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O chef Manuel Alves Filho

Com a substituição dos discos de vinil pelos CDs, uma legião de apreciadores de música se sentiu duplamente órfã. Primeiro, pela perda de um som, digamos, mais orgânico, proporcionado pela tecnologia analógica. Segundo, pela privação das capas, muitas delas verdadeiras preciosidades do design gráfico nacional e internacional. Mal comparando, um processo parecido esteja atingindo as embalagens dos alimentos. Várias delas não trazem mais receitas de pratos, como ocorria com frequência na época de nossas avós, que as recortavam e colavam em cadernos guardados como verdadeiras joias de família.

Atualmente, obedecendo à lógica da sociedade digital, alguns invólucros eliminaram esse conteúdo ou passaram a oferecer um QR Code que transporta o consumidor para um ambiente virtual sem qualquer apelo afetivo. Sob o risco de ser taxado de nostálgico, confesso que começo a me sentir meio desamparado com esta tendência de mudança.

Embora não fosse exatamente um colecionador de receitas impressas em rótulos e embalagens, tornei-me, desde menino, um leitor voraz desses conteúdos.

Lembro-me perfeitamente das dicas de sobremesas inscritas no envoltório de uma conhecida marca de amido de milho. A mais salivante de todas, sem dúvida, era o manjar de coco, que depois de pronto recebia um banho lascivo de calda de ameixa. Ah, que doce memória! Também me recordo que minha avó (Maria) e minha mãe (Glória), mais que leitoras, eram o que poderíamos denominar hoje como “curadoras” de receitas gravadas nos envoltórios dos produtos alimentícios.

Elas tinham dois cadernos culinários diferentes. Um deles era preenchido com letra cursiva. As fontes das receitas nele transcritas eram livros, revistas ou preparos transmitidos oralmente por familiares e amigos. O outro era transformado em plataforma para receber a colagem dos rótulos ou das próprias embalagens, que eram habilmente recortadas por dona Maria e dona Glória, ambas cozinheiras de forno, fogão e, por óbvio, profundas entendedoras de todos paranauês da cozinha.

Do manjar de coco ao cuscuz, há dicas para todos os gostos

Felizmente, alguns fabricantes ainda mantêm a tradição de oferecer receitas culinárias nas embalagens de seus produtos. Constituem o que podemos qualificar de resistência à “modernidade”. Para produzir esta coluna, fui à despensa de casa e procurei invólucros que trouxessem dicas de pratos. No saco de farinha de milho, por exemplo, havia o passo a passo da feitura do nosso tradicional cuscuz, numa versão vegetariana e rápida.

Em outro envoltório, este de molho de tomate, a receita tinha, por assim dizer, inspiração francesa: “peixe embrulhado”, uma adaptação do clássico papillote de poisson. Os ingredientes recomendados eram, além do filé de peixe, rodelas de cenoura, fatias de alho-poró e, claro, o indigitado molho da marca. Necessário mencionar as indicações de pratos triviais, mas sempre úteis, gravadas nos envoltórios de leite condensado, como o pudim e o brasileiríssimo brigadeiro.

Por fim, também encontrei em um receptáculo de batata palha a inscrição de uma receita do indefectível estrogonofe. A indicação era de uso de alcatra, mas como o preço da carne está pela hora da morte, fica a minha sugestão: opte pelo frango, pois o resultado também é bom e o bolso vai agradecer.

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Chef Manuel Alves Filho