Publicado 28 de Junho de 2021 - 16h36

Por Adriana Giachini / Caderno C

A alpinista campineira Aretha Duarte

Arquivo pessoal

A alpinista campineira Aretha Duarte

Em 23 de maio de 2021, às 01h39m (horário de Brasília), a campineira Aretha Duarte tornou-se a primeira mulher negra a atingir o cume do Everest, a montanha mais alta do mundo – e apenas a sexta mulher do Brasil a alcançar tal façanha. Mas engana-se quem pensa que o topo do mundo é o suficiente para ela. De volta a Campinas, onde nasceu e mora há 37 anos, a montanhista revela planos que ocupam a agenda de forma compartilhada com os inúmeros pedidos de entrevistas de jornalistas de todo o país, interessados em contar sua história de superação e conquista – trajetória que a Metrópole registrou em sua edição de março, quando ela deixava o Brasil rumo ao Nepal.

O que vem depois do Everest? “Agradeço a todos, desde quem apoiou com uma latinha, quem torceu, quem orou, aos patrocinadores. Agora vamos dar o próximo passo, juntos, rumo a um futuro melhor. E o futuro começa pelas crianças. Quero que meninos de periferia não sejam atraídos pelo crime como única oportunidade de melhorar de vida, mas que tenham esporte, cultura e educação para que tenham orgulho de onde vivem”, afirmou a montanhista, sem esconder as lágrimas e a emoção, assim que retornou ao Brasil.

A jornada de Aretha é muito anterior a decisão de escalar o Everest – e toda a aventura que viveu nos meses de abril e maio, quando atingiu o cume. Nascida e criada no Jardim Capivari, bairro da periferia da cidade, ela bancou quase 40% dos 400 mil reais investidos na viagem ao Nepal com recursos vindos da reciclagem – o restante do valor veio de patrocínios e até mesmo da sua participação no programa The Wall, apresentado por Luciano Hulk.

“Eu não consigo compreender o futuro sem que a gente comece a pensar hoje nos princípios da sustentabilidade. A reciclagem é necessária, assim como eu acredito que a compostagem. Eu entendo que não existe a produção de lixo, mas de algo que pode ser reciclado ou que pode retornar a natureza, no caso da compostagem, de modo a gerar recursos e matéria-prima para novos produtos sem sacrificarmos o Planeta”, diz Aretha.

Seu discurso, naturalmente, destaca sua relação com a reciclagem. E não quando se recorda do árduo trabalho de recolher resíduos - foram 130 toneladas no total, todos os dias antes de viajar -, mas principalmente quando fala de futuro e da preocupação em conscientizar as pessoas ao seu redor sobre a necessidade de um estilo de vida em harmonia com o Planeta para que a vida continue sendo prioridade. Aretha é, sem dúvida, uma visionária e sonha com bairros sustentáveis nos quais a reciclagem do lixo seja trampolim também para uma vida mais digna.

Entre os planos futuros, fala de cooperativas que possam arrecadar os recicláveis, dar à eles os destinos corretos, com renda revertida em prol da comunidade. “Pode ser cesta básica, mas pode ser também aquecedores solares ou mudas de plantas”, diz a montanhista.

Pioneira

Primeira da família a cursar uma universidade - é formada em Educação Física - Aretha conheceu o montanhismo no segundo ano da faculdade, após visita a Agência Grade 6, na qual ela trabalha como guia de escaladas. Foi onde ela preencheu os requisitos para subir o Everest: ter experiência de uma década no montanhismo, condicionamento físico, conhecimento de escalada em rocha e gelo, apoio logístico e vivência de superar desafios como o Aconcágua, na Argentina (cinco vezes), o ponto mais alto fora do Himalaia, e o Monte Kilimanjaro, maior montanha da África, além Elbrus (Rússia), Monte Roraima (Venezuela), Pequeno Alpamayo (Bolívia), Vulcões (Equador), entre outros.

Viajar pelo mundo apenas reforçou o que ela descobriu ainda na infância, que poderia ser ela própria um exemplo de superação e inspiração para a comunidade. Ela lembra, por exemplo, que a reciclagem entrou na sua vida porque queria comprar um par de patins e os pais não tinham condições.

E desde então, sua missão é a de incentivar sonhos, sendo ela a referência de que tudo é possível quando existe vontade. Por isso, ela faz questão de compartilhar sua história ali, na comunidade onde cresceu e continua vivendo. Com aqueles que a ajudaram a recolher resíduos, a organizar bazares de roupa usadas e até mesmo onde ela pretende inaugurar uma biblioteca (tem cerca de 1500 livros doados já guardados) e uma parede de escaladas para treinos das crianças do local. “Nunca achei que seria impossível”, escreveu em sua página no Instagram, logo após o cume.

 

Aretha Duarte e o seu sherpa (guia que acompanha os montanhistas): "Foi uma ligação espiritual e uma grande realização"

Foi possível, mas...

Mas a chegada ao cume, em que pese seu preparo físico e emocional durante o ano anterior, não foi fácil. Além da aclimatação, quando precisou até de antibióticos, a decisão exigiu o que ela chama de conexão espiritual com seu sherpa. “Nós deixamos o acampamento às 23h30 e estava muito frio. Meu sherpa (guia local, na foto) esfregava as mãos e as pernas demonstrando estar sofrendo. Ele estava esgotado após o esforço dos últimos dias, já que são os sherpas que montam os acampamentos e garantem a estrutura. E chegou a me dizer que deveríamos voltar, mas pedi para seguir em frente sozinha. Ele não disse nada e continuou.

Não queria realizar minha conquista às custas do sofrimento de outra pessoa. Me aproximei e dei um tapinha nas suas costas. Quando ele se virou, eu retirei os óculos de proteção e a máscara de oxigênio para dizer que eu queria muito chegar ao cume e estava me sentindo forte, mas que, se ele não estava bem, eu voltaria. Nesse momento, ele enxugou minhas lágrimas, recolocou minha máscara e óculos. Não disse nada, apenas se virou e seguimos a caminhada. Incrivelmente, a partir desse momento, ele não deu mais sinais de sentir frio e seguimos até o cume. Foi uma ligação espiritual e uma grande realização”, contou Aretha.

Escalada para todos

Ao mesmo tempo em que atualmente se concentra para instalar uma parede de escalada para crianças e jovens do Jardim Capivari, como forma de difundir seu trabalho e possibilitar que outros tenham o mesmo sonho e possibilidade de torná-lo real, Aretha ganhou local de treinos em Campinas. Trata-se do PowerBloc, maior ginásio de escalada do interior paulista que, além de servir como espaço de treinamento para integrantes da Seleção Brasileira - este ano a escalada estreia como modalidade na Olimpíada de Tóquio, em julho - também venderá ingressos, como opção de diversão. São 300 metros quadrados de paredes escaláveis, dentro de uma estrutura com 600 metros quadrados, seguindo padrões de qualidade desenvolvidos em grandes centros internacionais, como Europa e Estados Unidos.

Escrito por:

Adriana Giachini / Caderno C