Publicado 15 de Junho de 2021 - 19h47

Por Adriana Giachini

Pandemia do Coronavírus expandiu o home office

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Pandemia do Coronavírus expandiu o home office

E lá se foram 15 meses desde o início da pandemia da covid-19 no Brasil. Neste período, muito do que imaginávamos ser provisório, como o distanciamento social ou o uso de máscaras, tornou-se o novo normal. Assim como o home office que, na tradução do inglês para o português, significa escritório em casa.

Diante da necessidade de ficarmos em casa, o trabalho precisou mudar e a modalidade apareceu repleta de vantagens. O trabalhador ganharia o tempo de deslocamento. Haveria redução da circulação e reunião de pessoas, o que consequentemente também diminuiria a contaminação pelo vírus. E os empregadores poderiam economizar, seja na conta de luz e de água, ou até mesmo no aluguel da sede da empresa, dependendo do negócio.

Também os recrutadores passaram a ressaltar a oportunidade de contratar profissionais de quaisquer regiões do país. Da mesma forma, surgiu a possibilidade de concorrer a vagas que, presencialmente, talvez não fosse possível.

Neste novo normal do mundo do trabalho bastava um computador, um cantinho em casa, acesso à internet e flexibilidade!

Porém, nem tudo é um mar de rosas. Vivendo em uma sociedade que glamouriza a ocupação do tempo quase de forma integral e busca, a todo custo, normalizar o acúmulo de funções e jornadas, muitos trabalhadores brasileiros estão ficando doentes e, de forma evidente, cansados!

Pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) que analisou o impacto da pandemia e do isolamento social na saúde mental de trabalhadores essenciais, mostrou que sintomas de ansiedade e depressão afetam 47,3% desses trabalhadores durante a pandemia no Brasil.

Já estudo do Instituto Ipsos, encomendado pelo Fórum Econômico Mundial, divulgado no mês passado, revelou que, para 53% dos brasileiros, sua saúde emocional e mental piorou desde o início da pandemia. E para muitos, o home office está entre os fatores de alto impacto na queda da qualidade de vida, uma vez que está difícil desligar-se do trabalho quando ele está dentro de casa.

“A primeira coisa que precisamos entender é que estar em home office é diferente de estar em isolamento social. Tem gente que não tem a prerrogativa de fazer regime misto de trabalho e precisou se adaptar dentro de casa. Mas porque a adaptação é tão difícil? Porque era para ser provisória. Improvisamos um cantinho na sala de casa para fazer reuniões e conseguir conciliar trabalho com as aulas das crianças. E continuamos assim”, explica a psicóloga Sabrina Amaral, do espaço Epopeia Desenvolvimento Humano.

Não por coincidência, alerta a psicóloga, é cada vez mais comum o diagnóstico da Síndrome de Burnout, que é um transtorno psíquico, com sintomas parecidos com os do estresse, da ansiedade ou depressão, mas associado à vida profissional do paciente. Segundo pesquisas daIsma-BR(International Stress Management Association no Brasil) de 2019, o Burnout acomete cerca de 33 milhões de brasileiros.

A síndrome, que foi incluída na Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2019, pode causar falta de concentração; lapsos de memória, distúrbios do sono; sensação de cansaço permanente, irritabilidade diante de tarefas rotineiras; falta de autoestima ou sentimentos de angustia e culpa. “Burnout é uma síndrome do esgotamento profissional, que é diagnosticada quando a pessoa se sente sem energia e exaurida por um tempo já expressivo. Colocar limites no home office é uma das tarefas prioritárias para evitar quadros assim”, diz Sabrina.

Para a fisioterapeuta Patrícia Lacombe, do Instituto que leva seu nome, é preciso considerar dois momentos do home office quando se analisa saúde mental e física do trabalhador. “O primeiro foi uma consequência da realidade da pandemia, com a adaptação da maneira possível, e que trouxe aumento nos casos de ansiedade ou consequências físicas como tensões musculares generalizadas e até bruxismo com piora da qualidade do sono.”

“Já atualmente, mais de um ano depois, estamos em um segundo período, onde podemos visualizar que a realidade pode ser ainda pior, se nada for feito. Temos casos de afastamento dentro da própria residência”, completa.

Neste cenário, o Instituto Patrícia Lacombe desenvolveu ainda no ano passado o Protocolo Covid-19 com intenção de auxiliar empresas no bem-estar de seus trabalhadores. Usando o Método Ginástica Holística, com uma sequência de movimentos que favorecem a bioergonomia, consta de aulas semanais e diárias, que podem ser acessadas pelo usuário quando e onde ele quiser pela plataforma FisioClub. “São programas de exercícios pensados para quem está em home office.”

BOA NOTÍCIA

Para Sabrina Amaral, a boa notícia para quem está cansado da modalidade é que o cérebro humano tem a habilidade natural de se reinventar com facilidade. Para tanto, a ideia não é sonhar com a volta ao trabalho presencial – o que não sabemos quando será possível – mas criar uma nova rotina, com planejamento, organização e autoconhecimento que ensine mente e corpo quando é trabalho e quando é o momento de desligar.

“O primeiro passo, que todo mundo sabe que precisa fazer mas não faz é planejar a semana pensando em como conciliar a demanda profissional com a vida pessoal. Outro ponto importante é entender seu ritmo e explorar os momentos nos quais você percebe que é mais produtivo”, aconselha Sabrina.

Para o consultor de carreira Wagner Thiele a chave para encontrar o equilíbrio entre vida profissional e pessoa em tempos de home office também é disciplina. “Trabalhar em casa é estabelecer uma mudança de olhar para um ambiente que já está todo construído com uma imagem do lugar de descanso”, diz.

A dica é criar um ambiente específico para o local de trabalho, mesmo que seja apenas uma mesa, mas desde que o trabalhador não faça nenhuma outra atividade no espaço. “Ao fazer isso você ensina ao seu cérebro que aquele lugar representa a vida profissional”, explica.

Já a psicóloga Rosana Daniele Marques, que é gerente de gestão de pessoas da Crowe, aponta que um dos segredos para viver bem, apesar das dificuldades do momento, é impor limites. “Muito da euforia inicial de, por exemplo, não perder o tempo do deslocamento se converteu em acúmulo de função, com ampliação da jornada. E como solucionamos isso? As empresas podem e devem contribuir com políticas de incentivo e principalmente promovendo desenvolvimento e treinamento de suas lideranças para que elas conversem sobre hábitos saudáveis na pandemia até mesmo recomendando que o trabalhador se desligue das notificações de trabalho após o expediente, por exemplo”.

“A empregabilidade realmente mudou a partir do home office. Ficou mais ágil, os serviços ficaram 100% on-line, foram feitas grandes contratações on-line, o que mostrou uma flexibilidade que já deveria existir antes da pandemia”, diz Tadeu Ferreira, Consultor de carreira e diretor da Aprimorha. Porém, e apesar de entender que as pessoas estão atualmente 100% adaptadas; a ideia de “acordar e dormir trabalhando” terá seu peso, cedo ou tarde. “Não acredito que o home office ficará para sempre e vejo que as empresas deverão apostar em um sistema híbrido. No entanto, ainda estamos um pouco longe disso, devido ao fim da pandemia”, completa.

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Adriana Giachini