Eles precisaram transpor obstáculos inesperados e venceram; hoje nos inspiram com nossas histórias
"Passei a refletir sobre as coisas que realmente são importantes na vida: saúde e família" ( Cedoc/ RAC)
Destino, acaso, infortúnio. Pode-se chamar como quiser, mas não é raro as pessoas se depararem com situações difíceis que parecem sem solução e transformam a vida. Muitas vezes, de um minuto para outro. Esses obstáculos no caminho podem dificultar a realização de objetivos, mas também servir de estímulo para uma nova tomada de decisões que melhoram a vida. Basta encarar cada situação e superar os limites para os novos caminhos.A lição vem de pessoas que poderiam ter desistido. De uma hora para outra, elas sofreram acidentes ou descobriram uma doença. Tiveram de interromper carreiras e reconstruir a vida. Mas os relatos de superação fazem com que todos reavaliem conceitos. Afinal, é sempre saudável se espelhar na experiência de pessoas que deram a volta por cima com perseverança e determinação.É o caso da ex-miss Campinas Aline Rodrigues, que realizou o sonho de ser coroada em 2004, aos 21 anos. Mas logo depois descobriu que tinha um Linfoma de Hodgkin, que atinge o sistema linfático, interrompendo a carreira de modelo que se iniciava. “Eu conquistei o título de mais bela de Campinas com a ajuda de tratamentos estéticos, cirurgias plásticas e exercícios. Porém nunca estava contente. Me olhava no espelho e queria mais, nada me satisfazia. Até descobrir o câncer, aos 23 anos. Depois disso, passei a refletir sobre as coisas que realmente são importantes na vida: saúde e família”, relata. Foto: Cedoc/ RAC "Passei a refletir sobre as coisas que realmente são importantes na vida: saúde e família" Se alguém pensa que Aline desistiu, ela dá a dica. “Isso não me abalou, pelo contrário. A vontade de viver foi tamanha que a cura veio com os tratamentos. E, com ela, o propósito de fazer com que as pessoas enxerguem que a beleza exterior tem que estar em conjunto com a interior. Tanto que passei a ser voluntária no Hospital Boldrini”, conta. Quando tudo parecia caminhar para dias melhores, um novo baque. Um novo câncer. Dessa vez, uma leucemia, que atinge os glóbulos brancos do sangue. “Fiz o transplante e os resultados foram muito bons. No mês de outubro recebi a notícia de que estou curada novamente. Agora é só fazer os acompanhamentos”, revela.Aline, além de voluntária em campanhas de combate ao câncer e de doações de medula, é coordenadora na Organização Não Governamental (ONG) Casa Amor e Vida, que atende pessoas com câncer dando apoio humano e emocional,além de financeiro. Ela também é palestrante motivacional, designer de interiores, paisagista, modelo e, principalmente, mãe, como ela mesma se define, pois realizou também o sonho de ter um filho logo depois de concluir o tratamento do primeiro câncer.Era um simples pulo na piscinaO funcionário público Alexandre Galgani viu sua vida mudar em segundos após pular na piscina e bater a cabeça no fundo, quando tinha 18 anos. A manobra mal calculada resultou na quebra do pescoço. Galgani ficou tetraplégico,mas com tratamento adequado voltou a estudar e trabalhar e se especializou em tiro. Neste ano, entrou para a história do esporte paralímpico brasileiro ao conquistar o inédito quarto lugar em uma prova do Mundial de Tiro Esportivo Paralímpico, realizado na Alemanha. Todos os recordes conquistados na categoria em que Alexandre compete pertencem a ele.“Eu sempre gostei de esportes. Jogava basquete e cheguei ao profissional antes do acidente. Foi um momento complicado, de desânimo, mas não fiqueirevoltado. Claro que tive a ajuda de familiares e amigos, o que foi fundamental. Sem eles não estaria nem aqui hoje”, comenta. Foto: Divulgação Alexandre Galgani, atleta, depois de acidente busca por vaga na Paralimpíada Rio 2016 A ideia de tornar-se um atleta paralímpico surgiu no ano passado. Galgani diz que sempre gostou de tiro esportivo e resolveu treinar de forma profissional. Começou com duas ou três vezes por semana, mas agora o treinamento é diário. “Ainda tenho que superar todos os obstáculos e treinar pra valer para tentar buscar, em 2015, uma vaga para a Paralimpíada do Rio 2016. Para isso, tenho que ficar entre os três primeiros colocados no campeonato mundial e ganhar a vaga direto”, diz.“O meu sonho agora é sobreviver do esporte. Hoje ainda não consigo, pois tenho que trabalhar. Em outros países os atletas conseguem patrocínio, mas no Brasil é mais difícil. Então, acordo às 5h, treino das 6h às 8h e vou trabalhar. Também faço faculdade à noite, mas espero conseguir superar mais esses obstáculos”, afirma.Quando o erro é do outroA triatleta Rosana Merino sempre foi esportista. Estudou educação física e participava de competições no Brasil e no Exterior. Sua história começou a mudar em 2011 quando sentiu dores na coluna. No início, tentou ignorar o problema, até que não conseguia nem mais dormir por conta de uma hérnia de disco. Procurou um especialista no assunto, que indicou a cirurgia e afirmou que era um procedimento cirúrgico simples. “Entreguei, então, minha coluna a ele, que disse que em 15 dias eu poderia até viajar. Fiz a cirurgia e quando voltei da anestesia estava tetraplégica,com uma lesão na medula”, lembra.Rosana diz que estava na Unidade de Terapia Intensiva e não conseguia mexer nada. E o pior, não tinha informações sobre o que tinha acontecido. Recebeu a notícia pelos funcionários da UTI. “Fiquei mais de um ano de cama, com sonda e enfermeiros 24 horas por dia. Mas eu sempre acreditei que voltaria a ser como antes e comecei a ter uma atitude diferente para conseguir retomar os movimentos. É claro que no começo foi difícil, pois perdi todos os movimentos musculares. Eu nem respirava. Ainda no hospital comecei a tentar me movimentar, fazia muita força, mas nada acontecia. Até o dia em que movi a ponta do dedão do pé”, lembra.A triatleta conta que depois que foi para casa, com a família sempre ajudando, manteve a cabeça forte para não esmorecer. Ela não se lembra se chorou alguma vez ou não. “E se chorasse, não iria respirar. Então, era pior. Fui tentando resolver os conflitos. Hoje, depois de três anos, minha vida é normal. Já moro sozinha, faço as atividades do dia a dia. Tudo foi devagar e ainda tenho muitas dores no corpo, mas quis voltar a trabalhar e não me aposentar por invalidez. Agora trabalho com atletas de alto rendimento”, conta.Rosana diz que nunca lhe falaram que a paralisia seria permanente. E isso a ajudou a ter forças. “Também consegui por causa do trabalho mental que conquistei com o esporte. A vida voltou quase ao normal. Ainda sou lenta, demoro mais para pegar as coisas. Antes almoçava em cinco minutos, agora demoro bastante. A minha alma está igual, mas o corpo não reage da mesma forma”, observa. Foto: Cedoc/ RAC Rosana Merino, ex-triatleta, ficou tetraplégica após cirurgia; hoje recuperou os movimentos Novos caminhosO massagista Antonio Ângelo Almeida enxergou tudo, mesmo que com dificuldade, até os 26 anos. Mas sabia que perderia totalmente o sentido, pois desde a infância tinha aniridia, doença rara que consiste na falta congênita da íris do olho. “Levei dois anos para aceitar. Foi difícil por causa da locomoção, do trabalho. Isso mudou a minha vida”, comenta. Foto: Leandro Ferreira/ AAN Antonio Ângelo, massoterapeuta, perdeu a visão aos 26 anos Após a revolta inicial, Almeida decidiu ir à luta. “E tive uma força que não é minha. Vem de Deus, da fé, para ir superando as dificuldades. Aprendi braile e fui para São Paulo porque em Campinas não tinha campo de trabalho para deficientes visuais. Hoje, quase 30 anos depois, a história é diferente. E eu voltei”, ressalta.Almeida, mais conhecido como Toninho, é especializado em reflexologia, massoterapia e shiatsu. “Acredito que toda vez que um sentido se perde, a pessoa desenvolve mais um outro. No meu caso, o tato se desenvolveu com a falta de visão. Mas eu já tinha esse dom também, de fazer o bem para as outras pessoas de alguma forma. Superei as dificuldades com força de vontade, além de ter encontrado pessoas interessadas em me ajudar, como a minha esposa, Lourdes”, destaca.O massagista diz ainda que tem um conselho para as pessoas. “Todos têm algo bom para fazer. Por menos capacidade que acha que tem, pode construir algo de bom para as outras pessoas. Não são as deficiências que levam a pessoa a se entregar para a vida e não adianta invejar os que vencem. Todos podem ajudar a construir um mundo melhor”, fala. Saia dessa com força e apoioA cultura contemporânea traz para cada pessoa um legado que pode ser uma grande ilusão, de que se pode ter o controle total das próprias vidas. “Mas, em alguns segundos esses sentimentos de controle e poder caem por terra, com acidentes, doenças, perda do emprego. Enfim, eventos que vêm mostrar que a segurança que vivemos, e a própria vida de cada um está protegida por uma película extremamente frágil”, diz o professor do Instituto de Terapia e Estudo do Comportamento Humano da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) Wilton de Oliveira.Ele defende que, a partir do evento, a pessoa tem de vivenciar e estar atenta a sentimentos com alta carga de sofrimento (medo, tristeza, angústia, impotência, desânimo e desespero, entre outros). Além disso, precisam reconhecer que eles são produto do acontecimento e, portanto, serão alterados na medida em que novos acontecimentos ocorrerem, principalmente os produzidos por ações subsequentes, como a busca de um novo trabalho ou de forças para enfrentar a dor. “Mais do que nunca é preciso ter organização, disciplina e resistência para encontrar em seu repertório a força para superar o período. Além disso, a presença, a dedicação e o amor das pessoas, geralmente familiares, amigos e profissionais gabaritados, torna-se imprescindível”, destaca.O tempo para superação do problema depende de algumas variáveis, como o aprendizado do indivíduo em lidar com as adversidades ao longo da vida. “O apoio de amigos e familiares é, sem dúvida, fator determinante, tanto para ampliar a motivação diária diante das adversidades enfrentadas por meio de atitudes afetivas (carinho e compreensão) ou com pedidos de exigências, principalmente quando acompanhados de amor, quanto para estabelecer condições para um entendimento sobre o sentido mais profundo de tudo que está sendo vivido naquele momento”, ensina.O especialista afirma, ainda, que todos precisam elaborar significados sobre para que e para quem lutam e enfrentam os sofrimentos impostos pela vida. “Sendo assim, as pessoas que elaboram significados para tais experiências conseguem resistir e enfrentar com mais efetividade situações de extrema dificuldade, do que as que não conseguem elaborar o sentido dessas experiências. Na solidão, no vazio e na ausência de amor, é muito mais difícil uma pessoa conseguir sentir e construir tais significados”, ressalta o professor da PUC.