Segundo a mitologia grega, Pigmaleão, além de dedicar seu tempo aos afazeres administrativos de todo rei, costumava, nas horas vagas, dar umas cinzeladas aqui e ali até o dia em que, ao ter esculpido uma bela figura feminina, apaixonou-se por suas formas e a deusa Afrodite, apiedada com tais afetos reais, resolveu transformar a estátua numa mulher de carne e osso, com quem, depois, nosso rei casou-se — e teve descendência. A literatura sempre interpretou o mito de Pigmaleão, que se entregara ao celibato desde a juventude, na linha da ideia redentora do amor que triunfa sobre a morte. Aliás, nada mais romântico que um destino que resolve despertar uma dimensão adormecida, preenchendo-a por completo. Terminada essa minha elucubração num debate virtual sobre a maternidade hoje, recebi a seguinte resposta: “esse mito ‘pré-histórico’ representa a eterna submissão da mulher ao homem!”. Como era de se esperar, na linha pouco generosa que a atual corrente do feminismo dispensa a todos machos da espécie indistintamente, que mistura muito voluntarismo simbólico (“toplesszaço”), alguma ignorância (como a do tal mito “pré-histórico”) e uma diuturna pregação antinatalista (atrasar os filhos ou sequer tê-los), de fato, o rei de Creta está mais para um machista que esculpe uma mulher, a fim de que ela cumpra seus desejos falocêntricos e lhe dê uns filhos. É o mesmo raciocínio pedestre que fundamenta afirmações como a de que “a mulher é culpada de ser mulher” ou de que o “machismo onipresente é a causa da existência de estupradores”. Naquele mesmo debate, apenas repliquei afirmando que a mulher, naturalmente, deseja, a partir de uma certa fase de sua vida, a maternidade. E suas livres escolhas irão ditar a concretização ou não dessa tendência natural. Depois, minha adversa virtual deu o grito do Ipiranga, ao bradar que “os homens deveriam renunciar à paternidade, em razão do machismo que ele carrega consigo”, acompanhada de uma série de adjetivos impublicáveis... Seguramente, misturar alhos com bugalhos não é uma estratégia inteligente. E reconhecer uma realidade ajuda a superar os reducionismos ideológicos: a maternidade não é um estorvo, mas a consumação do eros conjugal. O feminismo radical, ao propor para essa agenda antinatalista um nome que implicaria num atraente estado de desembaraço existencial — liberdade sem filhos —, no fundo, fez uma propaganda enganosa, porque uma vida sem crianças, fruto de uma livre opção, significa uma vazio no coração da mulher. O Dia das Mães passa em branco, ignora-se a experiência do café da manhã na cama num domingo descompromissado e das cansativas, porém, alegres festas de crianças. A primeira fase do feminismo motivou as mulheres a buscar a realização de muitos sonhos, sobretudo do trabalho profissional; mas vieram a segunda e terceira fases históricas e absolutizaram esse legítimo sonho, tomando o lugar da maternidade na vida e no coração. Assim, a mulher preocupou-se em alcançar, antes, o ápice profissional de sua carreira para, depois, começar a pensar na maternidade. Nem que isso significasse esperar até os 40 anos. Mas o feminismo esqueceu-se de que, nessa faixa vital, os níveis de fertilidade são baixíssimos. Então, como efeito, no lugar dos filhos, vieram a depressão e o desespero para muitas mulheres. Hoje, para um grande número delas, a busca mais feminina de todas é ser mãe de alguém a maior parte do tempo possível. Nesse ponto, a cartilha feminista reza que isso seja visto como uma imposição machista patriarcalista superada. Eventual inconformismo deve ser silenciado arbitrariamente, porque seria uma heresia uma mulher ter sonhos de maternidade. Em suma, esse feminismo dogmatizante reivindica por todas, mas, na verdade, fala apenas por algumas. Retornamos ao mito grego: foram décadas de sutiãs queimados em praças públicas para que as mulheres deixassem de estar submetidas ao suposto cinzel machista de nosso rei-escultor dado ao falocentrismo. Todavia, ninguém esperava que, uma vez no gozo da tal liberdade feminista sem limites, grande parte das mulheres voltasse a se submeter ao mesmo cinzel, que nunca foi machista, mas estritamente biológico, pois a mulher deseja naturalmente ser mãe. Nesse ponto, o feminismo trilhou pela marcha da insensatez, porque, antes, deveria ter combinado com a antropologia e a biologia. Com respeito à divergência, é o que penso.