GUSTAVO MAZZOLA

Felizes para sempre

Gustavo Mazzola
12/06/2013 às 05:01.
Atualizado em 25/04/2022 às 12:30

O expresso da Sorocabana vinha de longe, rasgando a ferrovia pelo meio do Estado em direção à Capital. Eu, que embarcara fazia um bom tempo, ainda procurava um assento vago na Segunda Classe, já meio sem esperanças: o trem estava lotado! Olha aqui, olha ali, e não é que aparece uma poltrona livre... de corredor. Não havia escolha: tinha que ser ela.

Malas para cima, pacotes no chão, ia me arrumando como podia, já notando um companheiro de viagem, ao lado. Ainda jovem, expressão séria, pareceu-me de pouca conversa. Bem, resolvi que o melhor mesmo era apreciar a viagem, ler um bom livro, coisas assim.

A composição segura e suave nos trilhos, já se aproximava da próxima estação. De repente, o rapaz levantou-se e, sem sequer pedir licença, passou por mim apressadamente. Ganhou o corredor, sumiu pela porta de batentes de borracha. Diabo! Por que tanta pressa, sair assim estabanado. Deixa pra lá. Mas, ao folhear as primeiras páginas do meu Graciano, notei que alguma coisa havia sido esquecida no banco, agora vazio: um livro? Um caderno? Não, descubro surpreso... era um diário.

Deveria procurar o dono, deixar o meu lugar? O carro estava completamente tomado, os corredores intransitáveis. Além do que, aquele diário era uma tentação: que segredos guardariam? Trouxe-o para mim e, meio sem jeito, comecei a folheá-lo. Ah! Ele registrou ali, em destaque, sua semana toda. Resolvi dar uma olhada, só uma olhadinha. Fui de todo, assim, àquela leitura indiscreta.

Quarta feira: “hoje, a vi pela primeira vez, na estação, bem junto à plataforma: linda, de cabelos castanhos caindo pelos ombros, um sorriso misterioso nos lábios bem pintados”.

Quinta feira: “novamente por aqui, no mesmo lugar. Assim que descer, vou chegar até ela, somente para um bom dia. Quem sabe um papo qualquer, uma conversinha de jogar fora, bobagens como‘que dia, heim’?! ‘Muito calor, não’? ‘Vai chover’? Vamos ver se ela entra na minha”.

Sexta feira: “marcamos um encontro no barzinho perto da casa dela. Só pra gente se conhecer melhor. ‘Pode ser’? Estou cada vez mais caidinho por ela”.

Sábado: “Saímos para jantar. Depois, quem sabe, uma continuação do programa, mais atrevido. Hum! Ela não quis saber de nada. Meus planos foram todos por água a baixo”. Vamos ver amanhã”.

Domingo: “Depois de muita conversa, finalmente, ‘ficamos’, pela primeira vez. Foi maravilhoso, melhor do que eu imaginava. Fizemos planos para muito tempo para frente”.

Segunda feira: “Hoje, ela chegou meio brava: ficou sabendo que eu tinha uma namorada na minha cidade. Expliquei que era um caso que estava terminando. Mas, não adiantou, brigamos, brigamos feio. Acho que está tudo encerrado”.

Terça feira: “Que falta ela está fazendo! Não aguento mais de saudade. Não consegui dormir a noite toda, só pensando nela”.

Quarta feira: “Ah! Ela está lá na estação: bonita, como sempre. Lembrei-me de tudo o que conversamos. Não dá mais para aguentar. Vou contar pra ela que acabei de vez o namorico sem graça lá de casa. Agora, o que eu quero é sair daqui correndo, e cair nos seus braços”.

Naquele instante, o trem ia parando na estaçãozinha. Pela janela, eu vi o meu desconhecido companheiro de viagem correndo por toda a extensão da plataforma em direção à amada. Olharam-se, um nos olhos do outro. Abraçaram-se. Não havia dúvida, seriam mesmo felizes para sempre.

E o diário? Deixei-o onde foi esquecido, no banco do trem. Talvez, mais tarde, viriam perguntar por ele para o chefe da estação, pois havia uma bonita história de amor a ser continuada em suas páginas. Mas, era o Dia dos Namorados, e a preocupação deles era outra. Bem outra, não.

De minha parte, segui aquela viagem sozinho, deixando quilômetros para trás: o trem correu célere pelos campos, passou por túneis, atravessou viadutos, correu por planícies de horizontes distantes, como a minha vida: caminhos tortuosos pela frente, paisagens de grande beleza, estações com histórias, que iria contar um dia para meus netos. A certa altura da viagem, estava reservada para mim uma surpresa, um encontro maravilhoso, que eu não poderia deixá-lo esquecido como aqueles apontamentos num banco de trem. Talvez devesse, também, registrá-los num diário. Por que não?

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