Baú de Histórias

Esquecida em sua terra natal

Elegante, bela e talentosa, Anna Stella Schic era dona de um sobrenome que combinava com sua fina estampa. Foi uma das mais importantes pianistas brasileiras de todos ...

Janete Trevisani
faleconosco@rac.com.br
14/11/2013 às 15:06.
Atualizado em 26/04/2022 às 12:49

Elegante, bela e talentosa, Anna Stella Schic era dona de um sobrenome que combinava com sua fina estampa. Foi uma das mais importantes pianistas brasileiras de todos os tempos, mas raros são os campineiros que sabem de seu vínculo com a cidade, onde ela nasceu em 30 de junho de 1922. Em 2009, morreu na França. Famosa em Paris e esquecida no Brasil. Para a filha Sandra Lechartre, fez um último pedido: que suas cinzas fossem enviadas à Campinas. Considerada a grande intérprete de Villa-Lobos, foi a pianista brasileira de maior destaque no século XX, herdeira direta da tradição de Guiomar Novaes. Passou a maior parte da carreira radicada na França, com uma bolsa de estudos patrocinada pelo governo de Getúlio Vargas. "Fui esquecida no Brasil. Talvez seja minha culpa, mas o País me esqueceu", disse, em uma entrevista publicada no ano de 1994. A importância de sua dedicação à obra de Villa-Lobos é considerada histórica. Estudou a quase totalidade das peças para piano do autor ao lado dele, registrando suas impressões no livro Villa-Lobos: o índio branco, lançado primeiro na França e, mais tarde, traduzido para o português. "Ele foi um homem profundamente intuitivo e de grande sensibilidade ao som e à melodia", definia. Nos anos 1970, reuniu e gravou na França toda a obra do autor para o piano. Em 1981, o pacote ganhou edição brasileira pelo selo Eldorado. Mas não dá para resumir a carreira da talentosa pianista a Villa-Lobos. Anna Stella desenvolveu um gosto especial pela pesquisa e esmiuçou as obras de outros dois autores, Mendelssohn e Scarlatti. Os trabalhos podem ser apreciados no CD lançado em 2002, dentro da série Grandes Pianistas Brasileiros. Detalhe: desde que o marido, o compositor francês Michel Philippot morreu, em 1996, Anna parou de tocar piano.  Em 2001, em sua última visita ao Brasil, Anna Stella Schic concedeu entrevista a Nelson Rubens Kunze, publicada na Revista Concerto. Questionada sobre a sua ligação com o Brasil, respondeu: "Eu vim desta vez porque, como eu logo farei 80 anos, achei que era o momento". "A senhora vai fazer 80 anos? Pelo que consta em sua biografia, será em 2005". Ao que a exímia pianista respondeu: "Não, não, será ano que vem, em 2002. Todo mundo tem a data errada. Talvez a culpa seja minha. Pode ser que, na época de minha juventude, eu tenha tentado me remoçar um pouquinho. É possível, vaidade feminina, não é? Então, quando me perguntavam de que ano eu era, dizia 25. Mas, na verdade, eu sou de 1922."  

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