Técnicos e ex-jogadores reconhecem o atraso para alguns adversários, mas talento poderá falar mais alto
Vinicius Junior deve estar na lista de Ancelotti e vai disputar a sua segunda Copa do Mundo (Rafael Ribeiro/CBF)
Desde a derrota para a Croácia, em 9 de dezembro de 2022, a Seleção Brasileira busca um rumo, processo atrapalhado pela crise política dentro da própria Confederação Brasileira de Futebol, que assistiu à saída de Ednaldo Rodrigues em 15 de maio do ano passado e a ascensão de Samir Xaud. Ao mesmo tempo, os técnicos Ramon Menezes, Fernando Diniz e Dorival Junior tentaram dar uma cara ao escrete canarinho. Sem sucesso. Enquanto isso, a Argentina sagrou-se campeã do mundo e venceu a Copa América, enquanto a Eurocopa consagrou a Espanha. Neste período, França e Inglaterra demonstraram trabalhos consistentes e aparecem entre as principais candidatas ao topo do futebol mundial.
Apesar dos percalços, existe a crença, dentro do mundo do futebol, de que a Seleção Brasileira pode construir uma campanha capaz de superar as duas últimas edições da Copa do Mundo, quando caiu nas quartas de final. Ex-zagueiro que atuou no Guarani na década de 1980, Edson Magalhães faz questão de enumerar outros candidatos que não podem ser ignorados, mas que podem ser superados pela Seleção Brasileira. “Não podemos esquecer Alemanha, Portugal e Holanda. Há também seleções que podem surpreender, como Colômbia, Equador, Uruguai e até africanos como Marrocos, Senegal e Costa do Marfim”, disse. Ele não deixa de apostar na força de conjunto do escrete canarinho. “Esperamos muito de Vini Jr, Endrick, Raphinha, Danilo e Gabriel Magalhães. A coletividade será o ponto forte da Seleção Brasileira”, analisou.
“Hoje, mais do que nunca, precisaremos de uma seleção que esteja bem coletivamente, organizada e com intensidade para conseguir enfrentar essas grandes seleções e outras consideradas de segunda linha”, disse o técnico Felipe Conceição, que tem passagens por América-MG, Cruzeiro e Guarani.
Figura de destaque da Ponte Preta na década de 1990, o exatacante Claudinho procura ponderar outros aspectos que demonstram que Carlo Ancelotti não terá vida fácil para superar os adversários. “O futebol atual é muito competitivo e parelho devido à evolução dos treinamentos, ao acesso à informação e à capacitação profissional, que elevaram o técnico, tático e físico de muitas seleções, que contam com seus principais atletas disputando ligas competitivas pelo mundo. Tecnicamente, os jogadores se equiparam, com poucas exceções, e os destaques individuais muitas vezes não conseguem fazer diferença frente a um trabalho coletivo forte”, explicou o ex-jogador, que completou: “Não vejo o Brasil como favorito embora tenha bons jogadores. O futebol, às vezes, é imprevisível. Porém, não existe mais aquele respeito aos jogadores brasileiros como antes, quando resolviam partidas com o talento”, completou.
Ex-zagueiro com passagens por Cruzeiro, Goiás, Ituano, Corinthians e Guarani, André Leone diverge dos outros integrantes do mundo da bola e acredita de que é possível fazer a história na primeira Copa do Mundo realizada em três países. “Mesmo atrás no ranking, o Brasil sempre será favorito em qualquer jogo ou competição. Temos grandes talentos que se destacam em seus clubes e, mesmo sob desconfiança, se o Brasil conseguir encaixar seu jogo, vai crescer e ganhar muito peso, respeito e poderá surpreender”, afirmou o ex-jogador.
Se quiser fazer valer o peso da camisa, a Seleção Brasileira terá que superar o retrospecto irregular refletido no ranking da Fifa. Após a data Fifa realizada em março, a França assumiu a ponta da classificação com as vitórias sobre Brasil e Colômbia, aliadas ao empate da Espanha com o Egito. A Seleção Brasileira, após vencer a Croácia, ficou com a sexta colocação. Argentina, Inglaterra e Portugal ocupam da terceira à quinta posição.
CONVOCAÇÃO CONFIRMA PREDOMÍNIO ESTRANGEIRO NO FUTEBOL BRASILEIRO
A estreia da Seleção Brasileira na Copa do Mundo, no dia 13 de junho, contra Marrocos, será um marco na história do futebol nacional. Pela primeira vez, a equipe será dirigida por um técnico estrangeiro e essa distinção será concedida ao italiano Carlo Ancelotti, que anuncia hoje a convocação final.
O cenário exige uma reflexão por parte dos profissionais que estão envolvidos com a prancheta e a vida de instabilidade do treinador no Brasil. Técnicos estrangeiros passaram a ocupar espaço em todas as divisões, o que provoca dúvidas sobre a competência dos nativos. Felipe Conceição, ex-treinador do Guarani, é adepto da tese de que tudo é reflexo daquilo que vivemos em sociedade. “Não acho que seja só o treinador brasileiro, acho que é todo o sistema do nosso futebol que está precisando evoluir. Paulo Autuori já dizia que o futebol é reflexo da sociedade. O treinador brasileiro que se preparou, ou que pensa em desenvolvimento de trabalho a médio longo prazo, tem muita dificuldade de desenvolver seu potencial no mercado em que se vive o imediatismo e a falta de visão de gestão dos processos de cada clube”, explicou o treinador.
Enfático em dizer que não tem nada contra os treinadores estrangeiros, Conceição pede uma reflexão sobre a qualidade exibida em outros processos existentes em um clube de futebol. “Nós precisamos avaliar com uma amplitude maior as dificuldades do nosso futebol, e não só do treinador. Exemplo: porque estamos importando tantos atletas estrangeiros se sempre fomos fornecedores de jogadores para o mundo todo?”, indagou o técnico, que completa: “Por que os atletas promissores e jovens estão sendo cobiçados em outros mercados e o nosso apenas repatria atletas que estão em declínio físico? São respostas que nos trarão o tamanho dos problemas que temos no nosso futebol”, completou.
Professor da Faculdade de Educação Física da Unicamp e participante da CBF Academy, o professor João Paulo Borin é outro que pede discernimento para buscar as raízes da crise do futebol nacional. “Os técnicos brasileiros passam por um período de transição. A CBF Academy tem proporcionado um espaço de discussão para a formação do treinador brasileiro. Muitas vezes essa quebra de espaço ou de credibilidade vem muito mais na formação”, disse o professor da Unicamp.
Para ele, a busca da evolução é fundamental para deixar conceitos ultrapassados no passado. “Nós tínhamos uma geração de atletas muito bons, em que o treinador fazia a gestão do grupo apenas dentro do campo. Hoje não é mais assim. Existem uma série de áreas do conhecimento que assessoram o treinador e ele precisa ser o líder e conhecer minimamente essas áreas, como fisiologia, nutrição, medicina esportiva ou análise de desempenho”, completou.
Apesar dos obstáculos, sua visão é otimista sobre o futuro. “A CBF Academy tem procurado, por meio das suas diferentes licenças, dar essa oportunidade do treinador brasileiro essa formação mais ampla, semelhante ao que os técnicos europeus recebem ao longo do tempo. Temos ótimos treinadores brasileiros e não tenho dúvida que, em um período muito curto aí, eles terão oportunidade de contribuir muito com o futebol Brasil”, completou João Paulo Borin.