A comédia dramática faturou sete estatuetas, inclusive Melhor Filme, Direção, Roteiro Original e Atriz para Michelle Yeoh

Elenco do filme "Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo" na cerimônia do Oscar, em Los Angeles (Divulgação)
Talvez exista uma realidade alternativa em que o filme "Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo" não faça tanto sucesso, não divida opiniões, não termine premiações acumulando estatuetas. Mas não é a nossa. O longa que mescla ficção científica, comédia e drama para contar a história de uma mulher comum que precisa acessar suas versões em universos paralelos para impedir a destruição de tudo foi o grande vencedor do Oscar 2023 na noite de domingo.
Era esperado, uma vez que o filme venceu muitas premiações anteriores, mas a somatória de estatuetas é impressionante. Além de Melhor Filme, faturou Edição e Atriz Coadjuvante para a veterana Jamie Lee Curtis, mas a dupla de cineastas Daniel Kwan e Daniel Scheinert também levaram Direção - superando Steven Spielberg por "Os Fabelmans" - e Roteiro Original. Um dos destaques nas vitórias para o longa foi a do vietnamita Ke Huy Quan, de 51 anos, que ganhou como Ator Coadjuvante, pois sua história é impactante: quando criança fez parte dos elencos de "Os Goonies" e "Indiana Jones e o Templo da Perdição", mas depois não conseguiu novos papéis e precisou trabalhar nos bastidores. Até que recebeu o convite para estrelar "Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo". "Eu morei em um acampamento de refugiados e, de alguma forma, vim parar aqui, no maior palco de Hollywood. Dizem que histórias assim só acontecem no cinema. Este é o sonho americano", disse, aos prantos, levando a plateia às lágrimas.
Michelle Yeoh, que tem 60 anos e nasceu em Ipo na Malásia, completou as premiações do longa ao desbancar Cate Blanchett (por "TÁR") ao ser a primeira asiática coroada a Melhor Atriz. "Para todos os meninos e meninas que se parecem comigo e estão assistindo essa noite, este é o farol de esperanças e possibilidades. Esta é a prova de que sonhos sonham alto, e os sonhos se tornam realidade. E mulheres, não deixem que ninguém lhes diga que vocês já passaram do seu melhor momento", disse.
Brendan Fraser, que passou muitos anos afastado da indústria, também foi premiado na categoria de Melhor Ator no filme que marca sua volta aos cinemas, "A Baleia". Já o filme alemão "Nada de Novo no Front" foi o segundo mais premiado da noite: conquistou Melhor Filme Internacional, Fotografia, Direção de Arte e Trilha Sonora Original. O longa tem um produtor brasileiro, o mineiro Daniel Dreyfuss. "A partir dessa noite… eu sempre serei o produtor de um filme vencedor do Oscar - apesar de tudo, isso permanecerá", escreveu em postagem no Instagram.
Reflexo dos tempos
'Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo' é o filme do momento. Não porque é necessariamente o melhor filme, mas é o que melhor canaliza a linguagem e estética que vem dominando a indústria do entretenimento nos últimos anos", aponta Ricardo Pereira, curador de cineclubes do MIS Campinas. Ele não acredita que os diretores, conhecidos como "Os Daniels", são tão inovadores assim em sua produção. "Mas a grande sacada deles, e isso tem que ser elogiado, é a de pegar uma história bem conhecida desse público mais jovem, que é o conflito familiar, o conflito entre o que jovem quer e o que os pais desejam para ele, e embalar essa história com elementos que essa geração conhece muito bem", analisa, citando a temática do multiverso, linguagem de videogame e tantas outras referências pop. Para o curador, o público mais velho pode ter mais dificuldade para se conectar com a narrativa por causa do seu formato. O filme, que teve um orçamento de apenas US$ 25 milhões, foi um grande sucesso de público.
Tendências da indústria cinematográfica
De acordo com Ricardo, é possível enxergar com o Oscar a tendência da indústria do cinema de Hollywood. Se alguns anos atrás existia uma divisão entre filmes blockbusters e produções populares em contraponto com os "filmes de Oscar", executados por diretores e atores mais renomados, hoje este muro tem sido derrubado. "Raramente esses blockbusters disputavam o Oscar em categorias mais destacadas e concorriam somente nas categorias técnicas. Mas nos últimos anos a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas tem mudado isso". É o caso de grandes sucessos, como “Top Gun: Maverick”, que apesar de ter conquistado apenas Melhor Som, estava indicado também às categorias "mais nobres" de Melhor Filme e Roteiro Adaptado.
Outras tendências do mercado do cinema que podem ser identificadas no evento, segundo o curador, é o fortalecimentos de mulheres reconhecidas nos prêmios de maior destaque, também a presença artistas negros e o reconhecimento ao cinema internacional - no domingo Sarah Polley venceu a categoria de Roteiro Adaptado com o filme feminista "Entre Mulheres"; a figurinista Ruth Carter, atuante na luta antirracista, conquistou segundo Oscar pelo trabalho com "Pantera Negra 2: Wakanda Para Sempre"; e a música do filme indiano "RRR - Revolta, Rebelião, Revolução" superou as composições interpretadas por Lady Gaga e Rihanna e levou Melhor Canção. "Essa edição do Oscar consolida essas temáticas que vêm vindo nos últimos anos: a presença das mulheres e negros, uma maior diversidade, um olhar para fora dos Estados Unidos e essa derrubada da parede entre os filmes chamados blockbuster e os ditos filmes mais sérios. Isso está impactando na produção cinematográfica que vem de Hollywood", conclui Ricardo.