'Capitão Phillips', de Paul Greengrass, recoloca o ator entre os grandes nomes do cinema
O uso da câmera na mão, marca do britânico Paul Greengrass para caracterizar intensidade ou sugerir aspectos documentais em um filme ficcional, poucas vezes foi tão necessário como em 'Capitão Phillips' ('Captain Phillips', EUA, 2013). Talvez tanto quanto em 'Voo United 93' (2005), do mesmo diretor, o melhor filme sobre os atentados ao World Trade Center, em 2001. Nos dois casos, as histórias são reais — daí a procedência e adequação da câmera tremida. Ela não só imprime tensão à narrativa como nos lembra que o suspense a que assistimos não é ficção.Escrito por Billy Ray a partir do livro 'Dever de Capitão' ('Richard Phillips', Intrínseca, R$ 19,90), o filme narra a história de Richard Phillips, ocorrida em 2009, em que o experiente oficial da marinha mercante dos EUA assume o comando do navio cargueiro Maersk Alabama a fim de transportar toneladas de alimentos de Omã, na península Arábica, para o Quênia. No golfo de Áden, Norte da costa da Somália, quatro piratas abordam o navio em um pequeno barco e fazem o oficial de refém.O longa remete a uma espécie de subgênero cinematográfico: o dos filmes de resgate, do qual 'A Hora Mais Escura' (Kathryn Bigelow, 2012) e 'Argo' (Ben Afleck, 2012) são os exemplos mais recentes. A estrutura, a abordagem e o conceito são idênticos. Assim como o espírito patriótico de um país bélico como os EUA que, uma vez atacado, exige resposta oficial contundente. Para isso, usa tecnologia de ponta e poderosas armas de guerra.O espectador contrário à ideologia americana cultiva certa desconfiança com esse tipo de filme porque ele acentua o patriotismo exagerado e reafirma o poderio do país. Mas aqui o próprio filme se critica. Em dado momento, o protagonista argumenta com o líder dos piratas que o navio leva alimento aos famintos da África e este responde com ironia: “Ricos têm mania de dar esmola para pobres”. Depois, Phillips diz ao pirata que ele não precisaria fazer aquele trabalho sujo. A resposta, igualmente, irônica: “Talvez nos EUA, não na Somália”.Mas esqueça as ideologias e o belicismo americano. Não só estamos no cinema como numa história real. Sim, lá está a parafernália tecnológica do império se impondo de forma irremediável contra quatro piratas pés-rapados que roubam e ganham uma miséria porque por trás deles está uma máfia e esta controla a pirataria e o dinheiro. Mas lá também está um cinema eficiente que produz um suspense de primeiríssima classe.Só com muita má vontade o espectador não se envolve e não elogia a maneira como Paul Greengrass comanda a sequência inacreditável de fatos e reviravoltas, especialmente na parte final que se passa numa baleeira — bote de salvamento. Em ritmo acelerado e estudado para alternar as emoções do público, ele gera adrenalina capaz de nos tirar o fôlego e nos prender na tela do começo ao fim. E não só por causa dos acontecimentos, por si só, espetaculares, mas pela qualidade da direção e de outros elementos coadjuvantes, como a trilha, o elenco, a fotografia etc.E, por fim, há a interpretação de Tom Hanks. Há muito, talvez desde 'Filadélfia' (Jonathan Demme, 1993), quando ganhou o segundo Oscar da carreira, o ator não tenha realizado um trabalho tão brilhante. Na verdade, há muito ele atuava ligado no automático e caminhava célere para se tornar um canastrão fazendo caras e bocas em filmes ruins.Pois em 'Capitão Phillips' ele se redime completamente. Faz um personagem no qual acreditamos, herói que tem controle sobre o drama desde os primeiros momentos, com postura firme e enérgica, mas que também é capaz de chorar, de fraquejar e de dizer “eu não aguento mais” — o que o humaniza e com o qual, portanto, nos identificamos definitivamente. Todo o filme, ainda mais as emocionantes sequências finais, devolvem de vez a Tom Hanks o merecido lugar entre os grandes atores do cinema.