
Ao falar de feminismo, a escritora Ruth Manus sentiu a necessidade de dar um passo para trás e abordar o antimachismo: tema de seu oitavo livro (Divulgação)
Com o objetivo de trazer para o centro das discussões um debate básico, mas fundamental, a escritora e advogada Ruth Manus publicou o seu oitavo livro, "Guia Prático Antimachismo - Para pessoas de todos os gêneros" (Editora Sextante, 2022). Um dos principais objetivos com a obra é provocar reflexões no leitor. Entre os diversos temas abordados ao longo das cerca de 150 páginas estão patriarcado, masculinidade tóxica, parentalidade, estereótipos femininos, violência, orientação sexual e identidade de gênero.
"As pessoas vão para lugares muito básicos quando falamos em antimachismo. Muitos não se consideram machistas porque respeitam as mulheres. Mas, espera, em primeiro lugar, que mulheres?", questiona a escritora. Ela, que estará em Campinas nesta quarta-feira (18) à noite para o lançamento, na Livraria Leitura do Parque D. Pedro Shopping, argumenta que é fácil respeitar uma mulher branca, heterossexual e cisgênero no seu ambiente de trabalho, e provoca perguntando se esse mesmo respeito é estendido à empregada, à mulher negra, gorda ou transsexual. Em um segundo momento, seu questionamento avança: "E que respeito seria esse? A mulher pode ser alguém que é mãe, que amamenta, que menstrua, que tem emoções normalmente associadas ao feminino. Neste momento, o respeito pela mulher no ambiente de trabalho desaparece. Só existe enquanto ela é uma representação masculina de saias", analisa.
A ideia do novo livro surgiu logo após o lançamento do seu título anterior, "Mulheres não são chatas, mulheres estão exaustas: Direitos, trabalho, família e outras inquietações da mulher do século XXI" (Editora Sextante, 2019). "Por causa dele, eu comecei a fazer muitas palestras e fui percebendo que faltava uma obra que, antes de convidar as pessoas para falar sobre o feminismo, discutisse o machismo. É um passo prévio, portanto a ideia é falar de coisas básicas", explica Ruth em entrevista ao Correio Popular. A escritora parte da ideia de que o machismo existe dentro de todas as pessoas, independente de gênero ou educação, uma vez que nascemos dentro de sociedade que é construída sobre esse princípio. "O primeiro passo é entender que todos temos isso em alguma intensidade, assim como temos dentro de nós racismo e gordofobia. É um ato de coragem reconhecer e começar a mudar os caminhos e o nosso comportamento".
Ruth alerta para o que seria um antimachismo de ocasião. "Por exemplo, para algumas pessoas não é um problema ter uma chefe mulher. Mas para essa mesma pessoa é um grande problema ter uma filha que começa a namorar com 15 anos. Ou então, alguém que aceita bem as duas situações anteriores, mas tem um super bloqueio para concordar que mulheres transsexuais merecem o mesmo respeito que mulheres cisgênero", adverte. Ela propõe que cada uma das situações exemplificadas no livro sejam aberturas para o leitor repensar seus próprios comportamentos e analisar onde o seu machismo se manifesta de forma mais intensa.
Desconstrução constante
Ruth entende que seu livro não vai destruir o machismo dentro de cada leitor, mas garante que ele deve alertar para os gatilhos. "A pessoa vai começar a visualizar situações e perceber que alguns comportamentos não são mais aceitáveis", explica.
Para a escritora, o trabalho é constante e vai muito além da leitura de seu título. Ao longo das páginas ela insere sugestões de outras publicações, filmes, podcasts e séries que ampliam e aprofundam o debate sobre o tema. Ruth admite que ela mesma estuda constantemente o tema e continua se deparando com novas considerações. "Quanto mais nós lemos, debatemos e refletimos, mais percebemos que ainda há muito o que melhorar. A Olympe de Gouges, uma das mulheres cabeças da Revolução Francesa, mas que nem estudamos sobre ela nas escolas, já estava propondo todas essas mudanças há 200 anos. Por outro lado, estudos da Organização das Nações Unidas (ONU) projetam que só teremos igualdade salarial de gênero daqui a 200 anos", pondera ela, deixando claro que a velocidade das mudanças é bastante lenta, mas, pode começar a ser transformada a partir de indivíduos e do seu entorno.